Caso Alexandra Reis mostra o erro de insistir na privatização da TAP
«Quantas mais alexandras reis poderão existir?», questiona o PCP, que reagindo ao relatório da Inspeção-Geral das Finanças que declarou nula a indemnização paga pela TAP à ex-secretária de Estado do Tesouro, considera que o caso revela a marca de água da privatização da companhia.
Esta é a marca da gestão privada que querem acentuar na TAP
Em declarações à comunicação social, na Assembleia da República, ao final da tarde de segunda-feira, 6, Bruno Dias frisou que as conclusões da IGF apenas confirmam «que estávamos perante uma prática verdadeiramente inaceitável, uma ilegalidade que tinha de ter consequências». Falando aos jornalistas após os ministros das Finanças, Fernando Medina, e das Infra-estruturas, João Galamba, terem anunciado a exoneração da presidente do Conselho de Administração e da presidente executiva da TAP, Manuel Beja e Christine Ourmières-Widener, o deputado comunista reiterou, porém, que é preciso ir mais longe.
Aliás, como o Partido já havia interpelado Fernando Medina, sem que ainda tenha obtido resposta, recordou Bruno Dias, «é preciso saber quantas mais Alexandras Reis poderão existir». A questão, explicou, é que a IGF só abordou este caso em concreto, impondo-se, por isso, escrutinar «uma prática verdadeiramente inaceitável», que representa «a marca de gestão privada que impuseram à TAP e que, pelos vistos, agora querem voltar a impor com uma nova privatização».
O também membro do Comité Central do PCP referia-se à pretensão cada vez mais materializada do Governo do PS em alienar totalmente o capital social da companhia aérea. É disso mesmo um sinal inequívoco a nomeação Luís Silva Rodrigues para presidente executivo da TAP, igualmente na segunda-feira. Isto porque o actual responsável da SATA conduziu o processo de privatização da transportadora de bandeira açoreana.
Apurar opções
«A orientação que claramente está a ser dada é “tudo para a frente com a privatização da companhia, dê lá por onde der, custe o que custar", e isto tem de ser travado». É preciso defender «os trabalhadores e o interesse nacional», colocados em causa no caso de a TAP ser entregue a «mãos privadas», aos «grupos económicos», aduziu Bruno Dias.
O dirigente do PCP assegurou, por isso, que o Partido não vai desistir «de apurar e de ter o esclarecimento do conjunto dos factos e das explicações que a gestão privada teve na companhia, nomeadamente em situações como esta».
«Queremos saber todo o conjunto de opções estratégicas, profundamente lesivas, penalizadoras para a TAP e para o interesse nacional, que foram levadas a cabo ao longo destes anos e que valem 800, 900, mil alexandras reis, tendo em conta o valor que está em causa», afirmou.
Na segunda-feira, a IGF concluiu que o acordo celebrado para a saída de Alexandra Reis da TAP é nulo, sustentando que, independentemente daquela ter saído por «renúncia ou demissão por mera conveniência», está obrigada a «devolver à TAP os valores que recebeu na sequência da cessação de funções enquanto Administradora».
Alexandra Reis veio entretanto manifestar a sua discórdia para com o parecer da entidade, mas garantiu que vai devolver o montante indicado, na ordem dos 450 mil euros.
Recorde-se que Alexandra Reis foi nomeada administradora da companhia aérea, em 2020, por indicação do acionista privado. Em Fevereiro do ano passado abandonou a administração da TAP e em Junho foi nomeada pelo Governo para a presidência da NAV Portugal – Navegação Aérea, tendo, em Dezembro, assumido funções como secretária de Estado do Tesouro, cargo ao qual renunciou na sequência do escândalo desencadeado pelo conhecimento público do recebimento de meio milhão de euros de indemnização da transportadora aérea nacional.