A grande purga de Donald Trump
O mais que esperado naufrágio do processo de destituição de Trump na câmara alta do Congresso providenciou o ensejo esperado pelo presidente para acelerar a grande purga. Dos serviços secretos às forças armadas passando pela Justiça, as nomeações de Trump são diárias e têm sempre o mesmo desígnio: substituir todos os funcionários que tenham colaborado com o processo de impeachment por quadros que dependem caninamente da estreita confiança de Trump.
Este processo conheceu, esta semana, um novo patamar, com a intervenção de Trump para salvar Roger Stone. O correligionário da extrema-direita estava à beira de uma sentença, no âmbito da mesma investigação de Robert Mueller que esteve na origem do processo de impeachment, de sete anos de prisão por vários crimes de obstrucção da justiça e manipulação de testemunhas. Respondendo a um pedido público de Trump, o Procurador-Geral William Barr, anulou a sentença recomendada. Em protesto, os quatro procuradores responsáveis pelo caso demitiram-se. Outros 2000 antigos funcionários do Departamento da Justiça assinaram uma carta aberta contra a interferência de Trump nos tribunais.
Mas a purga de Trump não se cinge apenas ao Departamento de Justiça: dois altos funcionários do Conselho Nacional de Segurança: Yevgeny Vindman e o seu irmão Alexander Vindman foram demitidos por Trump como represália pelos seus testemunhos no processo de destituição do presidente. O mesmo destino tiveram importantes quadros republicanos como Gordon Sondland, embaixador dos EUA na UE, Jessie Liu, que estava nomeada para a chefia do Departamento de Tesouro ou Elaine McCusker, importante oficial do Departamento da Defesa. De Hillary Clinton ao seu chefe de campanha, John Podesta, do antigo chefe do FBI James Comey à juíza Amy Jackson, Trump não se coíbe de prometer pôr atrás das grades quem lhe moveu um processo de destituição condenado à partida.
O controlo que Trump exerce sobre os aparelhos do Partido Republicano e do Estado federal reforçam-se à medida que as contradições internas da classe dominante se agudizam, sob forma de luta partidária ou judicial. Mas não é apenas a escala do controlo que se alterou: é também a sua natureza. As lutas intestinas entre diferentes sectores do grande capital já não se podem resolver pelos canais constitucionais e democráticos que, durante muitas décadas permitiram preservar a farsa da separação de poderes sob o domínio absoluto da burguesia. O capitalismo volta à sua forma política natural: terror, imposição e privilégio.