Orçamento: ocultação e mistificação
Muito se tem escrito e dito sobre a votação do Orçamento do Estado para 2020, particularmente em torno do voto de abstenção do PCP. Exemplo da autêntica confusão que reina nos centros de poder mediático têm sido as sucessivas prédicas dominicais de Marques Mendes. Depois de semanas em que não se cansou de adivinhar essa abstenção, veio dizer já no último domingo que esta é «a última vez» e, confundindo a realidade com a sua vontade, profetizando que o PCP deixará de contar, o mais rápido possível.
Esta vontade de querer excluir o PCP das decisões sobre o futuro do País surgiu também na cobertura noticiosa da discussão do Orçamento do Estado na generalidade, assim como os dias que a precederam. Depois de dias de desinformação, em que até houve quem garantisse que estaria marcada uma reunião do Comité Central ou quem titulasse que o PCP iria reunir os seus órgãos para decidir o sentido de voto no próprio dia em que este foi anunciado – mentiras que, podendo ser aparentemente inofensivas, visaram lançar confusão e atestam da falta de credibilidade de quem lhes dá espaço –, os posicionamentos foram-se clarificando.
Perante um Orçamento que não dá as respostas necessárias ao País, o PCP não desiste de abrir caminho para que medidas positivas possam vir a ser integradas, mas houve alguns orgãos de comunicação social que não resistiram a amplificar um ou outro episódio mais espalhafatoso do debate parlamentar para encenar disputas e insuflar a intervenção de outras forças. Independentemente dos mal-estares dentro ou entre partidos, o que se espera é que a comunicação social retrate o andamento dos trabalhos parlamentares.
A onda de ocultação sobre a intervenção e propostas do PCP prosseguiu. Logo no dia seguinte, todas as atenções mediáticas viraram-se para a primeira volta das eleições internas para a liderança do PSD, com cobertura em directo em quase todos os meios de comunicação social (até os jornais on-line passaram a noite a fazer actualizações ao minuto nas votações em vários concelhos). Não significa isto que seja destituída de interesse noticioso a disputa interna do PSD, mas a atenção desproporcional que alguns órgãos de comunicação social dão a estes momentos, quando nesse mesmo dia passaram ao lado de um importante encontro do Secretário-geral do PCP com reformados, pensionistas e idosos, em que se falou de muito do que se pode avançar na discussão do Orçamento do Estado na especialidade, espelha o desejo confessado por Marques Mendes.
Nesta roda viva mediática em que parece valer de tudo para esconder a intervenção do PCP, até uma deputada única tem tido, em alguns meios de comunicação, mais espaço na impresa: primeiro pela tentativa abstrusa de travar a publicação de um fotografia que não lhe agradou, depois com um suspense sem sentido face à votação do Orçamento (com uma inédita declaração à imprensa sobre o sentido de voto para dizer… que não o revelava), até à mais recente polémica porque cinco (!) militantes do seu partido pedem a sua demissão. Se esta mesma comunicação social desse espaço idêntico a qualquer iniciativa do PCP com a participação de cinco ou mais militantes… Não, não pode ser. Não sobrava espaço para tudo isto, que tanto interessa à vida dos portugueses.