Um mundo solidário
A Festa do Avante! é, em todas as edições, um mundo de solidariedade e fraternidade, de alegria e convívio, de cultura. No Espaço Internacional, esse ambiente singular é marcado também pela presença de dezenas de delegações e stands de partidos comunistas e operários e de outras organizações. Que, com a sua presença, expressam, por um lado, solidariedade com a luta dos comunistas e dos trabalhadores portugueses e, por outro, recebem a solidariedade internacionalista do PCP e com ele consolidam laços de amizade.
Assim aconteceu na 43.ª edição da Festa do Avante!, onde uma vez mais o Espaço Internacional foi palco de manifestações culturais de diferentes continentes – a música, a dança, a gastronomia, o artesanato – e acolheu debates sobre problemas da actualidade internacional, tudo isso com permanente e interessada participação de milhares de visitantes ao longo de três dias.
Acedendo ao recinto da Atalaia pela entrada da Quinta da Princesa, a primeira frase que os visitantes da Festa do Avante! leram estava pintada na cerca, à esquerda: «Palestina vencerá! Fim à ocupação e aos crimes de Israel!».
Andando um pouco mais, uma pintura mural exigia que «Tirem as mãos da Venezuela!» e uma outra clamava «Por uma Europa dos trabalhadores e dos povos». Era a zona exterior do Espaço Internacional e havia outros chamamentos: «Paz e Socialismo. Proletários de todos os países, uni-vos!», «Capitalismo não é verde», «Sim à Paz! Não à NATO!», «África – Paz, Independência, Desenvolvimento».
A entrada principal do Espaço Internacional fazia-se passando sob um enorme pórtico, no cimo do qual se expressavam a exigência e os objectivos de «Solidariedade anti-imperialista. Paz. Soberania. Socialismo».
Logo à entrada estavam implantados os primeiros stands das organizações participantes – o da Rifondazione Comunista, de Itália; o da FPLP, da Palestina, exigindo a libertação dos presos palestinos; o da Venezuela Bolivariana, onde se podia subscrever um abaixo-assinado exigindo o fim do bloqueio do imperialismo norte-americano; o da Associação Iúri Gagárine, muito frequentado, com artesanato e petiscos russos; o do Partido Comunista Colombiano, à beira do Espaço de Debates e à sombra generosa de sobreiros.
Noutras zonas da «cidade internacional» da Festa, mais pavilhões, de diferentes dimensões: amplo, o do Partido Comunista de Cuba, com artesanato, exposição fotográfica e bar-esplanada, sempre repleto de amigos da Revolução Cubana; o do KKE (Partido Comunista da Grécia); o da Fretilin (Timor Leste); o do Partido Comunista da Bolívia; os do PAIGC, PAICV, MPLA e FRELIMO, com o artesanato e a gastronomia dos seus países; os do Partido Comunista do Brasil e do Partido dos Trabalhadores, também do Brasil; os do Partido Comunista de Espanha, Partido Comunista Italiano, do Partido Comunista de Vietname (com artesanato e restaurante), Partido Comunista Britânico, Partido Comunista da Turquia; os do Die Linke (A Esquerda) e do DPK (Partido Comunista Alemão), o da Organização de Libertação da Palestina, o do Partido Progressista do Povo Trabalhador (AKEL), de Chipre, Partido do Povo do Irão (Tudeh). A Associação de Amizade Portugal-Cuba e o Espaço da Paz, este à beira do Palco Solidariedade e defronte do Bar da Solidariedade, montaram também espaços próprios. O Partido Comunista da China, além da delegação que enviou à Festa, manteve, junto do Espaço Internacional, um grande pavilhão com uma exposição e um restaurante.
Estes stands divulgavam propaganda política dos respectivos partidos e organizações, vendiam artesanato ou t-shirts, muitos deles tinham restaurantes e bares com especialidades nacionais. Em termos gastronómicos, a escolha era difícil, de tão variada – da comida chinesa e vietnamita à italiana, brasileira ou palestina, passando pela africana, do caldo de mancarra guineense à cachupa cabo-verdiana e à matapa com caranguejo moçambicana. E havia também as bebidas – a cerveja alemã, a caipirinha brasileira, os mojitos e daiquiris cubanos, muito populares, a vodka russa, até o café colombiano.
A música é uma componente importante do Espaço Internacional: com programação própria, o Palco Solidariedade ofereceu um cartaz musical em diversas línguas e as actuações dos artistas foram acompanhadas por muita gente, a ouvir e a dançar. Participaram, na sexta-feira, os grupos Kilôko e The Quartet of Woah; no sábado, Vitoria Stoyanova e Olega Chumakov, Jhon Douglas & Jungle Boys, Charles Sangnoir, Mateus Aleluia, Carapaus Afrobeat e San la Murte Cumbia Club; e, no domingo, Povo, Yoka Ka!, Leo Middea, G Combo e Projecto Bug, tendo havido, à tarde, um desfile de dançarinos do Baque do Tejo.
Solidariedade também
nos pavilhões regionais
Além de cinco debates e dois actos políticos-culturais no Espaço Internacional, houve também, em pavilhões regionais da Festa do Avante!, oito momentos de solidariedade, com a presença de delegações convidadas.
No sábado, em Coimbra, realizou-se a acção «Ucrânia – Não ao fascismo!»; o Porto acolheu a iniciativa «África – Paz, independência e desenvolvimento», com a participação de representantes do MPLA (Angola), FRELIMO (Moçambique), PAIGC (Guiné-Bissau), PAICV (Cabo Verde) e MLSTP (São Tomé e Príncipe); no Alentejo falou-se de «Cuba – 60 anos de Revolução. Fim ao bloqueio»; em Leiria exigiu-se o «Fim à agressão imperialista» contra a Venezuela; e Setúbal pediu o fim à ocupação da Palestina e aos crimes de Israel. No domingo, no pavilhão de Lisboa abordou-se o tema «Colômbia – pela Paz e Democracia»; em Aveiro pediu-se um Saara Ocidental «livre e soberano» e o fim da ocupação daquele território por Marrocos; e no Algarve manifestou-se «solidariedade com o povo brasileiro».
Um mundo complexo e perigoso
onde os povos resistem e lutam
Os desafios e as lutas dos trabalhadores e povos da União Europeia; a resistência popular na América Latina contra a ofensiva imperialista; problemas ambientais; a defesa da paz e soberania e a rejeição da guerra e ingerência; e a exigência do fim da agressão imperialista no Médio Oriente – foram temas de cinco debates no Espaço Internacional da Festa do Avante!, com a participação de representantes do PCP e de partidos e outras forças da Europa, América Latina e Médio Oriente. Além destes fóruns, realizaram-se dois actos político-culturais de solidariedade, um com os povos da América Latina e Caraíbas e outro com a Palestina. E houve, em pavilhões regionais, momentos de solidariedade, com a presença de delegações convidadas.
«A União Europeia não é a Europa – Desafios e lutas dos trabalhadores e povos», no sábado, foi o primeiro tema debatido no Espaço Internacional.
Moderou Sandra Pereira, deputada do PCP no Parlamento Europeu (PE), e intervieram Neoklis Sylikiotis, do AKEL (Chipre); Bert de Belder, do Partido do Trabalho da Bélgica; Robert Griffiths, do PC Britânico; e Fabio Pasquinelli, do PC Italiano.
Ficou claro que a União Europeia (UE) não é a Europa. As intervenções apontaram o facto de a UE não ser reformável pelo seu cariz capitalista e imperialista. Sandra Pereira destacou que a UE não é a Europa, ainda que represente uma certa Europa: a Europa dos muros e da xenofobia; dos tratados contra os trabalhadores e os países; do armamento e da indústria da guerra; do desrespeito pelas soberanias nacionais; dos cortes nos direitos laborais;das desigualdades entre estados-membros; da privatização dos serviços públicos; dos monopólios e das multinacionais; a Europa onde crescem as forças de extrema-direita.
Esta «não é a Europa que nós defendemos e pela qual lutamos», concluiu Sandra Pereira, garantindo que no PE, no grupo GUE/NGL, espaço de colaboração entre forças de esquerda que pretende ser uma voz diferente dentro do PE, mas também fora dele, «lutaremos por uma outra Europa», a dos povos, da paz e cooperação.
No Espaço de Debates, sempre com muita assistência, realizaram-se no sábado mais dois debates.
Um sobre «América Latina – resistência e luta», com intervenções de Ângelo Alves, da Comissão Política do PCP; Carolus Wimmer, do PC da Venezuela; Walter Sorrentino, do PC do Brasil; Abel Prieto, do PC de Cuba; e Gabriel Becerra, do PC Colombiano.
Ângelo Alves manifestou confiança na vitória da América Latina, apesar da brutal ofensiva imperialista, e reafirmou a solidariedade do PCP com os povos de Cuba e da Venezuela, que resistem, e com todos os povos que lutam pela soberania e emancipação.
Outro debate abordou o tema «O capitalismo não é verde» e nele participaram Vladimiro Vale, da Comissão Política do PCP; Peter Lommes, do PC Alemão; John Wojcik, do PC dos Estados Unidos; Belkys Lay Rodriguez, do PC de Cuba; e Massimiliano Ay, secretário-geral do PC da Suíça.
Os intervenientes convergiram na ideia de que o modo de produção capitalista é responsável pelas alterações ambientais que ameaçam o futuro da Humanidade. A propósito dos incêndios na Amazónia, Vladimiro Vale recordou a posição do PCP, que os aponta como «um dramático exemplo de como o modo de produção capitalista apenas considera e privilegia, seja face à natureza, como à sociedade, o objectivo do lucro».
No domingo, de manhã, o tema abordado foi «Defender a paz e a soberania! Não à guerra e à ingerência!» e intervieram Ilda Figueiredo, do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), João Pimenta Lopes, do Gabinete dos Deputados do PCP no PE, e Albano Nunes, da Comissão Central de Controlo do PCP.
Ilda Figueiredo falou das actividades do CPPC, destacando a educação para a paz e a luta ideológica pela paz. João Pimenta Lopes denunciou a face militarista da UE, o pilar europeu da NATO. Albano Nunes considerou a actual situação internacional como confusa e cheia de incertezas, com focos de guerra que podem alastrar, uma «situação complexa e perigosa», ainda que «os povos resistam e lutem». Situação em que pesam ainda as derrotas da URSS e dos países socialistas do Leste Europeu e caracterizada pela contra-ofensiva do imperialismo para contrariar os avanços dos povos ao longo do século XX; pela crise estrutural do capitalismo; e pelo declínio do poder dos EUA.
O último debate desta Festa do Avante! abordou o «Médio Oriente – Fim à agressão imperialista». Jorge Cadima, do PCP, moderou e intervieram também Navid Shomali, do Partido do Povo do Irão (Tudeh), Fayez Badawi, da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Firas Masri, do PC Libanês, e Adel Matrook, da Tribuna Democrática Progressista (TDP) do Barain.
Foram denunciados os crimes do imperialismo dos EUA e seus aliados na região contra os povos da Palestina, do Iraque, da Síria e da Líbia – nos últimos 30 anos, provocaram milhões de mortos, feridos, prisioneiros, deslocados e refugiados –, bem como as ameaças de novas agressões ao Irão e ao Líbano. E concluiu-se que só a resistência dos povos, sob todas as formas, no quadro de uma ampla frente de luta anti-imperialista, poderá derrotar o inimigo comum, o imperialismo norte-americano.
Actos políticos-culturais
Dois actos político-culturais de solidariedade tiveram lugar no Palco Solidariedade do Espaço Internacional.
Um, na sexta-feira à noite, solidário com os povos da América Latina e Caraíbas. Participaram delegações dos partidos comunistas de Cuba, do Brasil, da Venezuela e Colombiano, que afirmaram a importância da solidariedade internacionalista com as lutas dos povos dos seus países e do reforço da frente mundial anti-imperialista para travar a ofensiva dos EUA contra a América Latina progressista. Cristina Cardoso, do PCP, denunciou os ataques do imperialismo norte-americano contra Cuba, Venezuela e Nicarágua, enalteceu a resistência dos seus povos e considerou que a solidariedade com esses países é hoje mais necessária.
Outro acto decorreu no sábado à tarde, de solidariedade com a Palestina. Houve leitura de poesia de autores palestinos e intervenções dos representantes da Tribuna Democrática Progressista do Barain, do Tudeh, do PC Libanês e da Palestina. Das forças palestinas, estiveram a Al Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina e a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP). Usou da palavra, em nome das três organizações, Nedal Fatou, da FDLP. Carlos Almeida, do PCP, denunciou a natureza predadora e agressiva do imperialismo estado-unidense, que se manifesta de forma brutal no Médio Oriente, e destacou a resistência dos povos e a sua luta tenaz pela afirmação soberana dos seus direitos, de que a gesta do povo palestino é exemplo.