Organizar para intervir
De entre as múltiplas vantagens que a acção de contactos com os membros do Partido pode trazer às organizações partidárias, as possibilidades que se abrem à sua estruturação é claramente uma delas: tomando conhecimento da existência de um determinado número de militantes numa empresa ou localidade, os organismos do Partido podem avançar para a constituição de uma célula, de um núcleo ou de uma comissão, o que seguramente permitirá um conhecimento mais efectivo dos problemas e aspirações dos trabalhadores e das populações e uma mais pronta intervenção sobre eles.
Foi o que sucedeu com o recém criado núcleo dos centros de contacto da célula das telecomunicações de Lisboa, cuja constituição se deve em grande medida à concretização da acção de contactos... noutras organizações do Partido, particularmente nas freguesias da capital e em concelhos vizinhos. Conta Ana Sofia Correia, responsável pelo núcleo, que o avanço dos contactos nas organizações locais revelou um número considerável de militantes comunistas a laborar em centros de contacto de várias empresas do sector. A transferência de muitos deles para a célula das telecomunicações contribuiu decisivamente para a criação do núcleo.
Mas este não foi o único factor, garante Ana Sofia Correia, destacando as medidas assumidas pelo Partido para reforçar a intervenção junto dos trabalhadores dos centros de contacto, há muito definida como uma prioridade. A presença regular junto dos diversos centros de contacto permitiu não apenas «descobrir», entre os trabalhadores, vários militantes do Partido e da JCP, como também realizar alguns recrutamentos. Os resultados de todo este esforço não se fizeram esperar: desde Junho do ano passado, não só o número de militantes organizados nos centros de contacto da PT e da Teleperformance triplicou, como o nível da sua militância é incomparavelmente superior ao que era nessa altura.
Exemplificando, Ana Sofia Correia contou o caso da luta travada, em Outubro, num centro de contacto da PT, em defesa dos salários, que culminou com a vitória dos trabalhadores. À frente desse movimento esteve um desses militantes que retomou a actividade partidária após ter sido contactado para integrar o núcleo dos centros de contacto, depois de alguns anos afastado da actividade partidária quotidiana: «em Junho estava “perdido” e em Outubro estava a ter um papel determinante na luta», valorizou Ana Sofia Correia.
Mil patrões, um posto de trabalho
Se muito foi já feito, num curto espaço de tempo, para reforçar a organização e a intervenção do Partido junto dos milhares de trabalhadores dos centros de contacto das empresas de telecomunicações (só na PT, em Lisboa, serão mais de três mil), há também muitas pedras no caminho. Como revelou a responsável pelo núcleo, não é possível reunir com todos os seus membros ao mesmo tempo, devido à dispersão dos locais de trabalho, aos turnos e aos horários. As reuniões, regulares, fazem-se com dois ou três elementos de cada vez.
Mas a generalização do recurso a empresas de trabalho temporário torna a tarefa ainda mais complexa, garante Ana Sofia Correia, para quem juntar todos os militantes, mesmo se fosse possível, teria vantagens limitadas: «ganhava-se em trabalho de organização, em discussão colectiva e na realização de iniciativas, mas no desenvolvimento da luta nem tanto», pois não há dois militantes com contratos iguais. Aliás, acrescentou, dos muitos trabalhadores com quem contactou nos últimos meses, só conheceu um cujo contrato fosse directamente com a PT; a esmagadora maioria tem contrato com empresas de trabalho temporário como a Manpower, a RH+, a Randstad, a Talenter e dezenas de outras – com prorrogativas diferentes, salários diferentes e direitos diferentes.
Assim, muito embora continue a fazer sentido juntar todos estes trabalhadores para exigir das empresas para as quais realmente prestam serviço um contrato efectivo e direitos iguais aos demais funcionários, é também fundamental travar pequenas lutas e obter pequenas vitórias que possam contribuir para a elevação da consciência de classe.
É precisamente para este objectivo que o PCP pretende contribuir, com fórmulas orgânicas adaptadas às novas condições de trabalho nas empresas.