Abril aqui, sempre!
No ano em que a Festa do Avante! foi dedicada ao 40.º aniversário da Revolução dos Cravos – com direito a lema, «A Festa de Abril» –, o âmago desta evocação foi o Espaço Central: a decoração, as exposições e muitos dos 15 debates realizados ao longo dos três dias foram dedicados àquele que é o mais luminoso acontecimento da história nacional.
Logo na entrada principal, fotografias simbólicas – recortadas em forma de cravo – retratavam algumas das marcas mais profundas da Revolução: a aliança entre os militares progressistas e o povo, a alegria da libertação, a construção colectiva de um devir também ele colectivo, a nacionalização da banca e dos sectores estratégicos da economia, a reforma agrária. Uns passos mais adiante, a exposição central – intitulada «Os Valores de Abril no Futuro de Portugal» –, composta por textos, fotografias, reproduções de manifestos, tarjetas e jornais, convidava o visitante a percorrer um corredor (onde não faltaram sequer as grades) que o levava da escuridão fascista à alegria da libertação e desta aos combates contra as novas formas de opressão, exploração e submissão a que estão a amarrar os trabalhadores, o povo e o próprio País.
Trilhando-a, era possível reter e consolidar algumas ideias essenciais: em Portugal houve fascismo (que torturou, matou, reprimiu, oprimiu e serviu os interesses de agrários e grupos monopolistas), tendo o seu derrube resultado da longa e corajosa luta dos trabalhadores e do povo português, com particular destaque para o PCP; as massas populares (em aliança com os militares progressistas) foram as grandes obreiras das profundas transformações revolucionárias, que encarnaram as suas mais sentidas aspirações; muitos daqueles que desde a primeira hora – e de forma mais ou menos dissimulada – se bateram contra a Revolução são os mesmos que têm vindo a atacar e destruir as suas principais conquistas e que há 38 anos protagonizam a política de direita que afunda o País e empobrece o povo: o grande capital nacional e estrangeiro e, no plano político, PS, PSD e CDS.
Na secção relativa ao presente e ao futuro, a última, afirmava-se a actualidade e perenidade dos valores de Abril – base e inspiração para a política alternativa patriótica e de esquerda que o PCP propõe. É também trilhando o caminho de Abril que se chegará ao «socialismo, futuro de Portugal», cuja construção é objectivo e razão de ser do Partido Comunista Português.
Conhecer o passado, projectar o futuro
Todos estes temas, e outros, tiveram desenvolvimento em muitos dos debates realizados em três locais do Espaço Central: o Fórum, o Auditório e o «À Conversa com...». Num deles, realizado no sábado à tarde com o lema A Revolução Portuguesa – acontecimento maior do século XX em Portugal, sublinhou-se a profundidade das transformações operadas que, como afirmou Albano Nunes, do Secretariado, não se limitou a alterar a forma de dominação da burguesia; pelo contrário, «arrancou o poder económico» das suas mãos. Este dirigente comunista realçou ainda que o processo da Revolução de Abril confirmou as teses do PCP, comprovando a ligação do Partido à realidade portuguesa.
Manuela Bernardino, igualmente do Secretariado, os membros da Comissão Política Rui Fernandes e Vladimiro Vale, e Débora Santos, da JCP, salientaram outros aspectos da luta antifascista dos comunistas e do povo português, do processo revolucionário e da luta que hoje continua pelo caminho de Abril.
Para além deste, outros debates abordaram a Revolução, esmiuçando o significado e profundidade de algumas das suas principais conquistas: o Salário Mínimo Nacional, os direitos das mulheres, as nacionalizações e a Reforma Agrária (os dois primeiros realizados no Auditório e os restantes no espaço À Conversa Com...). Em todos, cruzaram-se a análise política e a experiência prática, a avaliação retrospectiva e a projecção do futuro.
Luísa Araújo, do Secretariado, o engenheiro agrónomo Vítor Rodrigues e o operário agrícola António Neves Borges valorizaram a experiência da «mais bela conquista da Revolução», reafirmando a necessidade de uma nova reforma agrária para criar postos de trabalho e aumentar a produção. O mesmo fizeram, relativamente às nacionalizações, o membro do Secretariado José Capucho e os economistas Sérgio Ribeiro e Eugénio Rosa: o controlo público dos principais sectores da economia não é uma recordação, disseram, é uma necessidade do presente.
Os 40 anos dessa importante conquista que foi o Salário Mínimo Nacional, nestes tempos de retrocesso e empobrecimento, foram evocados pelo ministro que o criou, Avelino Gonçalves, pelo sindicalista João Pires e pelo membro da Comissão Política Paulo Raimundo. A debater a situação das mulheres ontem, hoje e amanhã estiveram Manuela Pinto Ângelo, do Secretariado, e ainda Rita Rato e Odete Santos, respectivamente actual e antiga deputada do PCP.
Se a Festa do Avante! é, sempre foi, a grande Festa de Abril, este ano foi-o ainda mais. Como se lia numa das paredes do Espaço Central: «Abril aqui, sempre!»