Avanteatro

Arte para forjar um mundo novo

Carlos Nabais

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«A arte não é um espelho para reflectir o mundo, mas um martelo para forjá-lo». A frase, atribuída a Vladímir Maiakóvski, foi citada por Miguel Tiago, deputado do PCP, durante o debate realizado no Avanteatro que justamente colocava a questão: «O teatro, é uma arma?».

A resposta é pois positiva, mesmo tendo em conta as múltiplas dimensões da criação artística, e não esquecendo as mundivisões conservadoras e progressistas dos diferentes criadores, que expressam interesses de classe antagónicos.

Tanto no combate à ditadura fascista como, nos dias de hoje, na resistência à ofensiva devastadora do capital financeiro, a produção artística sempre foi e continuará a ser uma poderosa arma na denúncia do caduco sistema capitalista, no resgate das consciências ao «pensamento único», na afirmação da ideologia proletária que se lhe opõe, abrindo o caminho para a nova sociedade liberta da opressão e da exploração.

E é por isso que, no quadro de uma autêntica guerra de classes agudizada pelo aprofundamento da crise do sistema, a cultura, e o teatro em particular, tem sido vítima de cortes consecutivos, em claro desprezo pela Constituição da República que incumbe o Estado de incentivar e assegurar «o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural».

Não se pense que se trata de uma situação conjuntural, motivada pelo descalabro das contas públicas.

Como lembrou Armando Correia, na apresentação do debate, a redução do financiamento público das actividades culturais acentuou-se em 2002 com o governo do PSD/CDS-PP de Durão Barroso, foi continuada pelos governos PS de José Sócrates e intensificada pelo actual coligação governamental PSD/CDS-PP de Passos Coelho e Paulo Portas, que pretende condenar o sector da cultura a uma situação de agonia.

Silenciar a cultura

Mas ao mesmo tempo que reduz e retira subsídios aos criadores, o Estado também aperta mais o garrote financeiro sobre as autarquias, cujo apoio à cultura, substituindo-se ao Poder Central, foi determinante para o surgimento de múltiplos projectos em várias regiões do País.

Com efeito, nunca foram os magros subsídios do Estado atribuídos ao teatro que, por si só, possibilitaram a formação e actividade de várias dezenas de trupes teatrais.

Se é certo que nos últimos quatro anos os subsídios ao teatro sofreram uma brutal redução de 75 por cento, representando pouco mais de cinco milhões de euros para o presente ano, já nos governos de Sócrates os apoios do Estado pesavam apenas cerca de 12 milhões de euros, um valor residual face à dimensão e necessidades do sector.

Resistência activa

Apesar desta política de terra queimada, as companhias e criadores procuram superar as dificuldades e manter a actividade, e lutam pela dignificação do seu trabalho e pelo direito à cultura, elemento indissociável da democracia.

Nesta situação de resistência, a programação do Avanteatro prestou uma merecida homenagem à Barraca, levando ao palco quatro espectáculos desta companhia histórica do teatro português, que este ano comemora 38 anos da sua fundação.

Mas não foi uma mera homenagem. Como explicou Manuel Mendonça, responsável pelo Avanteatro, o relevo dado na programação à Companhia de Maria do Céu Guerra e Hélder Costa foi também uma forma de denunciar os cortes dos apoios públicos que afectam a generalidade dos grupos de teatro, pondo em causa a sobrevivência até de reputadas companhias como é o caso de A Barraca.

E foi com «Hoje é o Dia... Excertos da vida de um esfomeado», que as portas do Avanteatro se abriram, logo se enchendo de público para assistir à recente produção de A Barraca, que nos conta a história de um advogado caído na miséria, após ter ajudado o seu principal cliente a construir um império, à custa de todo o tipo de ilegalidades.

Pouco depois, a mesma companhia oferecia mais uma encenação com base na «Peregrinação», de Fernão Mendes Pinto. «Fernão, Mentes?» encantou o público com humor e as belas canções de Fausto ou Zeca Afonso.

Cá fora, os visitantes da Festa eram interpelados pela performance «Circumambulação», realizada pelo grupo PIA – Projectos de Intervenção Artística, inspirada no movimento cíclico da natureza.

Mais tarde, o palco reabria com «A Estrela de Seis Pontas», peça baseada na obra homónima de Álvaro Cunhal, levada à cena pelo TAS – Teatro de Animação de Setúbal.

A fechar a noite de sexta-feira estiveram no Bar os «Lavoiser», grupo constituído por Roberto Afonso e Patrícia Relvas, que reinterpretaram temas da música tradicional portuguesa, pegando no trabalho de Fernando Lopes-Graça e Michaell Giacometti.

Um programa para todos

As manhãs, como é habitual, foram dedicadas aos mais pequenos, que assistiram deslumbrados às peripécias da raposa Salta Pocinhas, peça infantil baseada na obra de Aquilino Ribeiro «As Aventuras Maravilhosas de Salta Pocinhas».

Na manhã de domingo foi a vez das marionetas, combinadas com imagens animadas, manipuladas com mestria pela Lua Cheia – Teatro para Todos.

Com direito a sessão dupla, no sábado, muitos foram os miúdos e graúdos que por ali ficaram para ver o não menos surpreendente espectáculo do grupo de artistas de Chongqing, com acrobacias, danças folclóricas, ópera, magia e canções populares da China.

Depois do monólogo «Arte de Ser, Imprecação a Teixeira de Pascoaes», encenado pelo grupo portuense Teatroensaio, e da «Morte Súbita», do grupo de Lisboa 33Ânimos, a programação entrou noite dentro com a última criação de Barraca, «Menino de Sua Avó», um dueto que evoca encontros entre Fernando Pessoa e a sua avó louca.

Seguiu-se outro monólogo magistralmente interpretado por Luís Vicente, da Companhia de Teatro do Algarve, e, já de madrugada, a peça «Marx na Baixa», em que André Levy encarna o filósofo alemão que mudou o mundo.

A chuva que caiu na noite de sábado acabou por provocar uma avaria no som do bar. No entanto, mesmo sem amplificação sonora, o grupo Ary dos Santos fez questão de encerrar o programa com algumas canções popularizadas por Fernando Tordo ou Carlos do Carmo, assinalando o 30.º aniversário do falecimento do poeta de Abril.

A tarde de domingo abriu com o documentário «Outro País» de Sérgio Tréfaut, que reavivou impressões e imagens do 25 de Abril de 1974, colhidas por alguns dos mais importantes fotógrafos e cineastas que testemunharam o evento.

Um olhar sobre o passado, mas neste caso de Espanha, foi também o que nos propôs a performance «O Estado Salvaxe. Espanha 1939» concebida por Pablo Fidalgo Lareo (Galiza), com imagens Super 8 gravadas entre os anos 50 e 80 e o testemunho em palco da sua avó.

Antes dos ritmos jamaicanos dos «Da Galangs», que encerram o Avanteatro, ao palco subiu Cláudia Dias com o espectáculo «Vontade de ter Vontade».

No debate subordinado ao tema «O teatro, é uma arma?», participaram Luís Vicente, da Companhia de Teatro do Algarve, Maria do Céu Guerra, da Barraca, Miguel Tiago, deputado do PCP na AR, Armando Correia, do colectivo do Avanteatro, Rodrigo Francisco, da Companhia de Teatro de Almada, e Pedro Estorninho, do Teatroensaio.

 

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