Músicas da liberdade
O Auditório 1.º de Maio, palco de manifestação, assinalou com músicas do mundo os 40 anos da Revolução de Abril, dando expressão a diversos sentimentos: alegria, fraternidade, amizade, solidariedade, amor, liberdade. Ali, durante os três dias, as sonoridades, imprevisíveis e apaixonantes, de várias culturas e regiões do globo, levaram-nos a lugares mágicos, sem fronteiras, transpondo barreiras e atingindo níveis de originalidade e criatividade inesquecíveis.
A «Carvalhesa», música que exalta uma energia libertadora, chamou ainda mais gente para a primeira actuação da noite: o Grupo de Chongquing, da China, que apresentou um espectáculo único, surpreendente, com uma linguagem milenar de extraordinária beleza. Em palco estiveram acrobacias, danças folclóricas, ópera, música instrumental, magia e canções populares que deixaram os espectadores encantados. No final os artistas convidaram todos a visitar o stand da China, de modo a conhecerem melhor a cultura e a gastronomia daquele país.
Seguiu-se os Mercado Negro, formação que tem na sua espinha dorsal o reggae, estilo que se misturou com outras sonoridades, do afro ao fado. «É bom poder estar aqui a partilhar boas vibes», disse Messias, vocalista que iniciou a actuação com «Poder de sonhar». Seguiram-se outras músicas, como «Leoa tigresa», «Comboio para a terra prometida», «Daquela montanha» e «Oh lua». Ninguém ficou indiferente naquela viagem de celebração da vida.
Cá fora, nos intervalos, tirava-se fotos, conhecia-se novas pessoas, juntando diferentes gerações que não desistem de lutar. «Basta de exploração. Não ao roubo nos salários e pensões», lia-se numa enorme faixa à entrada do Auditório.
Os ritmos quentes continuaram em crescendo, com Guto Pires, cantor multifacetado que apresentou sons da world music e da música africana. Em palco, o cantor, acompanhado por músicos incríveis e talentosos, mostrou uma imensa e contagiante energia.
A noite terminou em alta com dois «monstros» da música de Cabo Verde: Dany Silva e Maria Alice, juntos no palco. As mornas, símbolo nacional do seu país, estiveram em destaque, fazendo transpirar sensualidade nos seus andamentos mais lentos. O funaná e as mazurcas «incendiaram» a noite, com batidas a fazer explodir emoções. «Farra na Sanzala» encerrou a programação de sexta-feira.
Celebrar Abril
Samuel com Oficina do Canto iniciaram o segundo dia no Auditório 1.º de Maio. Juntos, cancioneiro e o coro, apresentaram «Qualquer dia», um espectáculo que assinala os 40 anos do 25 de Abril. «Mudam-se os tempos», de José Mário Branco, «Qualquer dia» e «Maio maduro Maio», de Zeca Afonso, «Llanto para Alfonso Sastre y todos», um poema de Ary dos Santos com música de Samuel, «Roseira Brava», de Adriano Correia de Oliveira, «Etelvina», de Sérgio Godinho, «Gracias à la vida», de Mercedes Sosa, e «Canto dos torna-viagem», de José Mário Branco, foram temas cantados em uníssono com o público. Alexandra Anastácio, a solo, interpretou dois temas: «Cantemos até ser dia», de Pedro Osório, e «Balada da Rita», de Sérgio Godinho.
Também Luísa Basto cantou o povo e a liberdade, através de, entre outros temas, «Machado de nome», «O meu é teu» e «E se Abril ficar distante/Desta terra e deste povo». Com Jorge Lomba, seu convidado, interpretou «Rosinha». Mais um espectáculo a juntar gerações.
De seguida, os acordes jazz inundaram o espaço com Desidério Lázaro (saxofone), Paulo Gaspar (clarinete), João Capinha (saxofone), Luís Candeias (bateria), João Hasselberg (contrabaixo) e Mário Franco (contrabaixo). Ao Avante! trouxeram «Subtractive Colors», um projecto que se desdobra em diversos estilos e abordagens composicionais que se baseiam nos primórdios das consolas de jogos.
Com a tarde quase a terminar, subiu ao palco Rogério Charraz, cantautor que nos apresentou sonoridades que foram desde o hip-hop ao soul, passando pelo folk, o rock e o reggae. Fez-se acompanhar pelo rapper Sensi.
Celina Piedade proporcionou-nos um concerto especial, mágico, onde o acordeão foi «rei» e centro das atenções. Com ela estiveram outros excelentes executantes (Paulo Pereira – frautas, Tó Zé – viola campaniça, Xuxu Repas – guitarra folk, Filipa Ribeiro - glockenspiel e coros, Sebastião Santos – bateria e Alex Gaspar - baixo), num «namoro» artístico perfeito que nos levou numa viagem fascinante. «Calimero e a pêra verde», entre outras canções, mostrou uma voz fascinante que se entrosou com os instrumentos. Deixaram saudades.
Com a noite quase instalada, o concerto de Uxia foi um dos mais esperados. Ali, em apenas uma hora, a cantora galega, em alguns temas acompanhada por Luanda Cozetti, revisitou um rol de canções populares galegas, portuguesas e brasileiras, que fazem parte do seu trajecto, como o «Menino do bairro negro», «Verdes são os campos», de Zeca Afonso, e «Alalás encadeados», de Uxío Novoneyra. No final, enquanto se pedia «só mais uma», os músicos, de cravo na mão, juntaram-se ao público. Um momento especial, único.
Ao palco subiram depois os Coreto, formação que reúne jovens músicos da nova geração do jazz. Os instrumentos – guitarras, saxofone, flauta, clarinete, trompete, trombone, piano, contrabaixo e bateria – embelezaram o reportório original, numa combinação de sons e texturas. «Raiz», «Planeta ar», «Mergulho» foram a prova disso mesmo.
De seguida, acompanhada por Ricardo Dias (piano), Bernardo Moreira (contrabaixo), Mário Delgado (guitarras) e Alexandre Frazão (bateria), Cristina Branco fez uma nova homenagem a «Abril», através das músicas de Zeca Afonso, inesquecíveis. «Era um redondo vocábulo» fez arrepiar pela sua beleza. Outros se seguiram, como «Filhos da madrugada», «Menino d'oiro», «A morte saiu à rua», «Chamaram-se cigano» e «Os Índios da Meia-Praia».
Júlio Pereira regressou ao Avante! com o seu cavaquinho, num concerto que percorreu diferentes géneros e estilos, do country à música tradicional portuguesa. A este instrumento [o cavaquinho] juntaram-se outros, como o violoncelo, a guitarra e o bouzouki, que pareciam soltar vozes dos quatro cantos do planeta. Durante a actuação, com ovações sucessivas por parte do público, Júlio Pereira agarrou em temas antigos, como «Celtibera», inovou-os e deu-lhes uma nova musicalidade e arranjos, mais robusta, como uma locomotiva que trabalhava a todo o vapor.
No último concerto da noite, uma nova enchente recebeu The Legendary TigerMan. O espectáculo, verdadeiro e cru, começou com Paulo Furtado acompanhado pela sua guitarra laranja, que sobressaia no negro do cenário. Sozinho tocou «Then Came The Pain». Ao «one man band» juntou-se, mais tarde, Paulo Segadães (bateria), que acrescentou mais power à actuação, e Rita Redshoes (voz), numa verdadeira sinfonia de prazer, com um resultado explosivo, onde não faltou o folk, o blues e o rock. «I'm on the Run» foi um dos temas mais aclamados. «Fever», que percorreu décadas, reportou-nos para um ambiente intimista e muito sensual.
Musica de intervenção
No último dia, o Auditório 1.º de Maio abriu com Gonçalo Bilé, que trouxe um convidado de «peso»: Frankie Chávez. Juntos interpretaram «Líderes e nações», onde se afirma que «é tempo de agir» e «hora de reacção», com cada um de nós a ter «o poder de decisão». «Amarrado da cabeça aos pés», «Sei que tu sabes» e «Dylan» foram temas que não deixaram ninguém indiferente.
Da música portuguesa passamos, uma vez mais, para as músicas sem fronteiras, através de Luísa Amaro, nome maior da guitarra portuguesa, acompanhada por Gonçalo Lopes (clarinete baixo), pelo italiano Enrico Bindocci (piano) e pela cantora cipriota Kyriacoula Constantinou. Demonstrando uma técnica incrível, os músicos, executantes superiores, proporcionaram uma viagem a lugares longínquos e maravilhosos.
De regresso ao jazz, Luís Figueiredo (piano) fez-se acompanhar por Mário Franco (contrabaixo), Alexandre Frasão (bateria), João Moreira (trompete) e Ricardo Toscano (sax alto), formando o Quinteto Lado B.
Na Festa afirmaram-se pela diferença, com a improvisação a mostrar ser uma linguagem universal e cada vez mais utilizada.
Depois de um vibrante comício, a noite iniciou-se com Pedro Jóia (guitarra), Norton Daiello (baixo) e João Frade (acordeão), numa nova abordagem ao folclore tradicional português, onde não faltou o «Corridinho alma algarvia». No decurso do espectáculo, Pedro Jóia homenageou com a sua música o povo palestiniano, que há décadas é oprimido por Israel.
O fado preencheu a restante programação. A primeira artista a subir ao palco foi Carla Pires, numa «Rota de paixões». A sua voz, única e sensual, fez-nos «voar alto», fazendo-nos chegar ao «tecto do mundo». Nos temas que se seguiram falou-nos através de «palavras soltas» de saudade e de como podemos «Voar alto», onde «os meus olhos não chegam». A fadista cantou ainda «Meu amor, meu amor», «Cacilheiro», «Cavalo à solta», poemas de Ary dos Santos, «Traz outro amigo também», de Zeca Afonso, e «Canção do vento e da terra», que mereceu uma ovação com todos de pé. Simplesmente arrepiante.
Camané encerrou os concertos no 1.º de Maio. Uma verdadeira enchente acolheu-o de braços abertos. A todos eles a grande voz masculina do fado retribuiu com o melhor deste estilo musical, através dos grandes clássicos da sua carreira. Entrou à capela com «Complicadíssima teia» e, já com os seus músicos – José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Paulo Paz (contrabaixo) – prosseguiu com, entre outros, «A cantar é que te deixas levar». Perante as ruidosas salvas de palmas, Camané curvou-se agradecendo a calorosa ovação do público. Cantou ainda «Senhora do céu das dores»», «Ela tinha uma amiga», «Marcha do Bairro Alto» e «Sei de um rio».