Propaganda e discurso fantasioso caem por terra

Realidade desmente Governo

O PCP acusa o Governo de recorrer com crescente intensidade à mentira e à propaganda para camuflar as reais consequências da sua política.

A mentira e a propaganda não apagam a dura realidade das pessoas no dia-a-dia

À medida que se aproximam as eleições para o Parlamento Europeu o Executivo assume-se cada vez mais como uma «comissão eleitoral» do PSD e do CDS-PP e deita mão a todos os expedientes para criar a ilusão de que o País está melhor.

A denúncia é do deputado comunista Miguel Tiago que fala mesmo em «branqueamento da realidade» destinado a ocultar a estratégia concertada com a troika para o prosseguimento da mesma política de esbulho e afundamento nacional.

A posição do Governo no contexto da mais recente «avaliação» da troika é disso testemunho. «Enquanto na praça pública agita as bandeiras do sucesso, do milagre e da recuperação e ensaia discordância com a troika em matéria de salários, nos bastidores entrega de bandeja os salários, assume a permanência de medidas que tinham sido apresentadas como temporárias e mostra-se disponível para ir mais longe», exemplificou o parlamentar do PCP (ver caixa) na declaração política proferida em nome da sua bancada faz hoje oito dias.

Em sua opinião, o Governo recorre a todos os números para alimentar o fantasioso discurso do «milagre económico», desde os «frágeis indicadores sobre as variações no desempenho económico até aos números da execução orçamental de um só mês».

«Tudo serve para atirar areia para os nossos olhos», constatou Miguel Tiago, muito crítico quanto ao facto de o Governo chegar inclusive a «distorcer e tornar positivos indicadores» que mais não são afinal do que o resultado da política de espoliação. É o caso, elucidou, do alarido em torno da execução orçamental e do aumento de dez por cento na receita fiscal. Apresentado como «indicador da retoma económica», o que ele em bom rigor traduz, no essencial, é o «brutal assalto aos trabalhadores, através do aumento de 31,9% do IRS», lembrou o parlamentar do PCP, notando não ser aquele por conseguinte um indicador de retoma mas sim um «sinal de mais recursos subtraídos à economia e retidos no Estado para pagar a agiotagem e os juros».

Mistificação

Já quanto às exportações não pode ignorar-se que «são conseguidas à custa da diminuição do mercado interno, por força da falta de poder de compra dos portugueses», segundo Miguel Tiago, que lembrou um outro facto singelo: às empresas que não conseguem vender cá dentro não resta outro remédio se não tentar vender lá fora, fechando portas e despedindo as que não o conseguem.

O deputado do PCP não deixou igualmente passar em claro a omissão do Executivo quanto a esse indicador avançado que é o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, que cai significativamente como caem as contribuições para a Segurança Social.

Em suma, a face real do País está pois a milhas do quadro descrito na propaganda do Governo e da maioria. A realidade é outra, insistiu Miguel Tiago: é a da insustentável dívida pública que não pára de crescer, das contas públicas afinal por controlar, da degradação crescente das condições de vida dos portugueses, da pobreza, emigração em massa e desemprego, dos baixos salários, da Escola Pública e do Serviço Nacional de Saúde empobrecidos, da segurança dos cidadãos ameaçada, da Justiça ineficaz, da produção estagnada e do potencial produtivo por aproveitar.

E por isso, enquanto tal quadro se mantiver, falar de recuperação da economia está longe de corresponder à verdade e não passa de um exercício de mistificação.

«O País não está melhor porque o País são as pessoas que aqui vivem e trabalham», concluiu o deputado do PCP, para quem a saída está em «renegociar a dívida, valorizar o trabalho, nacionalizar os sectores estratégicos da economia, cumprir Abril».

 

Ataque prossegue

Dar a entender que o País estará melhor, estando pior a generalidade dos portugueses, é uma contradição do Governo que só encontra explicação, na perspectiva de Miguel Tiago, «se o PSD entender que o País é a alta finança, a carteira dos grandes accionistas, a dinâmica da bolsa e os lucros dos grandes grupos e monopólios».

O deputado do PCP, que respondia a Vitalino Canas, a quem lembrou que «não seria sério nem justo apagar as responsabilidades do PS pelo caminho que trouxe o País à situação actual», acrescentou que o PSD «esquece que os interesses do País não são os interesses da grande burguesia mas sim os interesses da maior parte da população, que é o povo que trabalha e cria riqueza».

Sobre o pós troika, independentemente do nome que vier a ter, é claro para Miguel Tiago que com este Governo e esta política nada mudará para os trabalhadores em Maio quando aquela, aparentemente, fizer as malas.

E lembrou que na reunião com a troika, dia 26, tanto PSD como CDS-PP mostraram estar disponíveis para manter os cortes nos rendimentos do trabalho e irem mesmo mais longe, bem como para continuar a flexibilizar os vínculos laborais e agilizar os despedimentos.

Sobre os partidos da maioria recaiu ainda a acusação de «cobardia política», epíteto com que Miguel Tiago os brindou por se terem furtado ao debate, não reagindo à sua intervenção.



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