Mentiras obscenas

Jorge Cadima

Nenhum país está disposto a acolher e destruir as armas no seu território

No final do Verão, o Presidente Obama anunciou a sua decisão de atacar a Síria, acusando o seu governo dum ataque com armas químicas. O discurso de Obama (10.9.13) não admitia dúvidas: «no dia 21 de Agosto [...] o governo de Assad matou com gases mil pessoas, incluindo centenas de crianças. […] Sabemos que o regime de Assad é responsável». O MNE Kerry desdobrou-se em pormenores «comprovativos». A comunicação social de regime estava em «frenesim de guerra» e o «socialista» Hollande chegou a dar ordens para começar o ataque na madrugada de 1 de Setembro (Nouvel Observateur, 29.9.13) . Foi uma (inacabada) versão B da obscena telenovela de Bush, Blair e Barroso.

 

Dois peritos norte-americanos, Postol (do MIT) e Lloyd (ex-inspector armamentista da ONU) afirmam agora (relatório de 14 de Janeiro) que «não é possível que [o gás sarin] tenha sido disparado a partir da zona controlada pelo governo sírio indicada no mapa dos serviços secretos publicado pela Casa Branca a 30 de Agosto de 2013». Também o canal noticioso oficial alemão, Deutsche Welle noticia o estudo e acrescenta (18.1.14): «esta conclusão não é inteiramente nova. Há um mês, um inspector armamentista da ONU, Ake Sellström, também questionou a versão dos EUA sobre a atrocidade». O canal russo RT (16.1.14) cita Postol: «quando comecei este processo, a minha opinião era que só podia ser o governo sírio que estava por detrás do ataque. Mas hoje já não tenho a certeza de nada. A narrativa do governo [dos EUA] nem sequer se aproxima da realidade». Sem imputar responsabilidades pelo ataque, Lloyd acrescenta: «os rebeldes têm seguramente a capacidade para criar este tipo de armas, talvez até tenham mais capacidade do que o governo sírio». O mesmo afirma Seymour Hersh (London Review of Books, 19.12.13), jornalista famoso pela sua denúncia do massacre de My Lai na guerra do Vietname: «o exército sírio não é a única parte na guerra civil do país com acesso ao sarin».

 

Para evitar o ataque Hollande-Obama, o governo sírio aceitou um «acordo» que impôs o seu desarmamento unilateral de armas químicas, mas não impôs nada aos «rebeldes» e seus múltiplos padrinhos externos, ou ao vizinho israelita (para se defender do qual o regime tinha as armas químicas). Mas o próprio processo de desarmamento químico, no qual Paulo Portas quis envolver o nosso país, é uma saga obscena. As potências bélicas, sempre prontas para ataques militares, querem lavar o mais possível as mãos do processo. As armas já foram embaladas e transportadas até ao porto sírio de Latakia pelo exército sírio com auxílio russo. O transporte marítimo para fora da Síria é assegurado por países nórdicos, pela Rússia e China. Mas nenhum país está disposto a acolher e destruir as armas no seu território: a França, a Bélgica e a Noruega recusam. Em Novembro lembraram-se da Albânia! Após dias de manifestações de protesto nas ruas, o sempre dócil governo albanês foi obrigado a recusar (Telegraph, 18.11.13). E assim, ganha forma a ideia (Telegraph, 9.1.14) de as armas químicas serem levadas para o Sul de Itália, trasladadas para bordo dum navio civil dos EUA (da US Maritime Administration do Ministério dos Transportes), onde militares dos EUA procederão à sua decomposição, sendo os compostos menos tóxicos «destruídos por uma companhia comercial» em Inglaterra e os mais tóxicos… despejados em pleno Mediterrâneo. A julgar pelo mapa que acompanha a notícia do Telegraph, algures ao largo de costas PIGS: Itália, Grécia, Líbia. Se as garantias de segurança são como as garantias de culpa do governo sírio, os motivos de preocupação são sérios.




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