Miró em leilão

Filipe Diniz

A venda em leilão de 85 obras de Miró tem suscitado justificado interesse. Merece a pena ir-se à procura de mais informação.

Por exemplo: o facto de nos obscuros negócios e património de bancos como o BPP de João Rendeiro e o BPN de Oliveira e Costa as obras de arte ocuparem um lugar proeminente. Um crítico de arte bem conhecido, que certamente saberá do que fala, mencionava há pouco tempo «circuitos de branqueamento de capitais através da arte» o que, com o que se vem sabendo, não deixa de fazer sentido. O negócio de obras de arte contemporânea transacciona objectos cujo valor resulta em boa parte da avaliação que críticos de arte e curadores deles fazem. E alguns influentes críticos de arte e curadores andaram nas proximidades dessas mesmas instituições. Na altura da nacionalização do BPN a leiloeira Christie’s avaliou as 85 obras de Miró em mais de 80 milhões de euros. Agora prevê que o leilão renda cerca de 35. Quando é para o Estado assumir o encargo o valor é um. Quando se trata de privatizar o valor desce para menos de metade. E quando se lembra que o BPN foi vendido ao BIC por 40 milhões a coisa torna-se ainda mais escandalosa.

Em 2012, ouvido na AR, um ex-administrador do BPN afirmava sobre as obras de Miró, em resposta a uma questão do PCP: «do ponto de vista artístico e de qualidade são fracotas, mas todas têm certificado de autenticidade». A boçalidade da resposta vale o que vale, mas a questão da autenticidade era bem relevante. Não muito tempo antes constatara-se que «antiguidades egípcias» do acervo do BPP eram falsas.

Quando se procura um pouco abaixo da superfície dos negócios desta gente a probabilidade de deparar com casos de polícia é mais do que alta. E o universo das ligações políticas envolventes é o do costume: o do «bloco central» alargado. O PS protesta agora contra a venda das obras de Miró. Mas é o processo de «nacionalização» do BPN que engendrou e permite essa venda, nacionalizando encargos mas preservando os activos.

Uma última nota: quem leia as últimas do pensamento «privatizador» constatará que se trata de avançar para os «activos não financeiros»: terras, infra-estruturas, palácios, museus, obras de arte. Não será errado ver neste leilão um sinal dessa nova fase.




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