O erro

Anabela Fino

Como se pode compreender que, no século XXI, uma organização partidária de juventude de um partido dito democrata-cristão assuma publicamente considerar «um erro» o prolongamento até ao 12.º ano do ensino obrigatório e proponha o recuo para o 9.º ano?

Como se pode compreender que essa mesma organização apresente tal proposta ao congresso do seu partido sob a forma de uma moção intitulada «Libertar Portugal, Conquistar o Futuro»?

Como se pode compreender que entre os subscritores de tal moção se contem cinco secretários de Estado de um país que se afirma democrático?

Estas questões, suscitadas pela moção levada pela Juventude Centrista ao 25.º congresso do CDS-PP que há dias se realizou em Oliveira do Bairro, são motivo de profunda preocupação e convocam a uma séria reflexão para o que está a suceder no País. Poderá haver quem considere que não tendo a moção sido aprovada o caso está encerrado. Nada mais perigoso. Ignorar que tal moção existiu seria negar uma ameaça que, embora não concretizada, continua latente.

É que os jovens centristas, entre os quais cinco secretários de Estado, repete-se, estribaram a sua posição no princípio perverso de que a «liberdade de aprender» é um «direito fundamental de cada pessoa», com isto querendo significar a «liberdade» de alienar o direito à educação e à cultura. Como se a liberdade pudesse servir para se «escolher» ser escravo, desqualificado, oprimido, espoliado.

Não sendo crível que os jovens centristas ignorem que menos habilitações significam menos e piores possibilidades de trabalho na sociedade cada vez mais complexa e competitiva em que vivemos – embora à sombra do actual Governo tenham proliferado como cogumelos assessores, especialistas, secretários e até mesmo ministros em que a principal mais-valia curricular é o cartão do partido –, há que concluir que este demagógico conceito de «liberdade de aprender» traz no seu bojo os princípios fascistas que desde sempre presidiram à estratificação da sociedade em exploradores e explorados, em privilegiados e em excluídos, em senhores e servos.

Num tempo em que a escola pública está a ser destruída em benefício da escola privada e elitista; em que o direito à saúde é cada vez mais e só para quem a pode pagar; em que a habitação condigna é quase uma miragem; em que o trabalho com direitos está em vias de se tornar um luxo; em que uma velhice vivida em condições de dignidade se tornou um alvo a abater, neste tempo, repete-se, a proposta da JC será tudo menos inocente ou inócua.

Num tempo em que os direitos conquistados na luta por gerações de homens e mulheres estão a ser brutalmente triturados na voragem do estertor capitalista; em que se branqueia e deturpa a história para mais facilmente impor a regressão civilizacional em curso nos países ditos desenvolvidos; em que as desigualdades se acentuam de tal forma que 85 super-ricos acumulam uma fortuna superior aos rendimentos detidos pela metade mais pobre da população mundial, neste tempo, repete-se, subestimar as implicações da tomada de posição da JC seria um erro crasso.

O fascismo está de novo a levantar a cabeça na Europa e no mundo. Quem se iludir com os cantos de sereia arrisca a acalentar no colo o ovo da serpente preste a eclodir.

 



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