«Banco» de horas recusado em massa

Desespero do Continente

Muitos tra­ba­lha­dores dos hi­per­mer­cados Con­ti­nente de­cla­raram por es­crito que não aceitam o «banco» de horas, o que levou a em­presa a si­tu­a­ções ex­tremas, como de­nun­ciou o CESP/​CGTP-IN.

Au­mento de ho­rário deve ser pon­tual e jus­ti­fi­cado

O caso mais re­cente foi re­ve­lado esta se­gunda-feira pelo Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores do Co­mércio, Es­cri­tó­rios e Ser­viços de Por­tugal: a di­rec­tora do Con­ti­nente do Vale das Flores, em Coimbra, «passou todo o dia», no sá­bado e no do­mingo, a chamar in­di­vi­du­al­mente todos os tra­ba­lha­dores que as­si­naram a re­cusa do «banco» de horas, pres­si­o­nando-os para as­si­narem um do­cu­mento a re­vogar a von­tade ma­ni­fes­tada.

O sin­di­cato, que de­cidiu pedir a in­ter­venção ime­diata da Au­to­ri­dade para as Con­di­ções do Tra­balho, aponta esta «enorme pressão» como uma das «si­tu­a­ções ex­tremas» ve­ri­fi­cadas na rede do Grupo Sonae. O mo­tivo, para o CESP, é «o de­ses­pero da em­presa pe­rante a luta dos tra­ba­lha­dores, que re­cu­saram mas­si­va­mente o banco de horas».

Ou­tras ocor­rên­cias, no Al­garve e na Grande Lisboa, ti­nham sido já re­ve­ladas na se­mana antes do Natal.

Na loja de Por­timão, que tem 193 tra­ba­lha­dores, a re­cusa foi as­si­nada por 126. En­tre­gues as de­cla­ra­ções, o res­pon­sável dos Re­cursos Hu­manos chamou as che­fias, pe­dindo-lhes que pres­si­o­nassem os tra­ba­lha­dores a rasgá-las. No dia 16 de De­zembro, em duas reu­niões com o pes­soal, o di­rector do es­ta­be­le­ci­mento ame­açou que, se não vol­tassem com a pa­lavra atrás, as re­la­ções la­bo­rais pas­sa­riam a ser di­fe­rentes e ter­mi­naria qual­quer tipo de diá­logo.

No Con­ti­nente de Al­verca, re­latou ainda o CESP, 21 tra­ba­lha­dores que re­jei­taram por es­crito o «banco» de horas foram cha­mados por um dos res­pon­sá­veis da loja, para este lhes dizer que a de­cla­ração não era vá­lida, por ter sido usado o mo­delo do sin­di­cato e não o da em­presa (tese que o CESP con­si­dera abu­siva, já que nada na lei a sus­tenta). Também em Al­verca, «mis­te­ri­o­sa­mente, a de­cla­ração as­si­nada pelos tra­ba­lha­dores, da noite para o dia, de­sa­pa­receu do local onde tinha sido guar­dada».

No Bar­reiro, em Pal­mela, no Pi­nhal Novo e na Moita, os di­rec­tores das lojas também cha­maram os tra­ba­lha­dores que de­cla­raram não aceitar o «banco» de horas, acu­sando-os de in­gra­tidão e ame­a­çando que, se man­ti­verem essa von­tade, ha­verá con­sequên­cias nas re­la­ções fu­turas. No Bar­reiro, foi mesmo usada a ex­pressão «estão na calha».

No Con­ti­nente do Mon­tijo, a chefe do de­par­ta­mento de frescos disse à de­le­gada sin­dical que devia parar de re­co­lher as­si­na­turas e in­cen­tivar os tra­ba­lha­dores a re­cu­sarem o «banco» de horas, che­gando ao ponto de a de­clarar como tra­ba­lha­dora que não presta para a secção nem para a loja.

Na loja de Cas­cais, uma co­or­de­na­dora de Re­cursos Hu­manos per­mitiu-se rasgar in­for­mação do CESP à frente dos tra­ba­lha­dores. O CESP re­velou ainda ou­tros casos no Con­ti­nente Ar­rá­bida (Vila Nova de Gaia) e no Con­ti­nente Bom Dia da Pre­lada (Porto).

Men­tira?

En­quanto di­ri­gentes sin­di­cais con­tac­tavam os tra­ba­lha­dores do Con­ti­nente de Pal­mela, o di­rector da loja e o di­rector de ex­plo­ração es­ti­veram pre­sentes, «numa ati­tude in­ti­mi­da­tória, pro­cu­rando saber quais os tra­ba­lha­dores que es­tava a as­sinar a de­cla­ração de re­cusa». Um di­ri­gente sin­dical foi acu­sado de mentir aos tra­ba­lha­dores, em par­ti­cular sobre o pa­ga­mento do sub­sídio de ali­men­tação em dias de des­canso com­pen­sa­tório (após o tra­balho su­ple­mentar para o «banco» de horas), o que levou o CESP a es­cla­recer que «não mente, o que diz é que o re­gu­la­mento da em­presa sobre o “banco” de horas é omisso».

Se o CESP anda a mentir, «como se com­pre­ende que o Con­ti­nente es­teja a uti­lizar todos os meios para tentar des­mo­bi­lizar os tra­ba­lha­dores, co­lo­cando no ter­reno, em todo o País, todos os res­pon­sá­veis», ques­ti­o­nava a di­recção na­ci­onal do sin­di­cato, no co­mu­ni­cado que di­vulgou a 17 de De­zembro.

 

 

O «banco» do pa­trão

O com­bate contra o «banco» de horas tem lugar também nou­tras grandes redes de re­talho, como o Pingo Doce e a FNAC.

Uma das prin­ci­pais crí­ticas do sin­di­cato a estes «bancos» de horas pa­tro­nais é pre­ci­sa­mente o facto de con­terem muitas si­tu­a­ções em que os di­reitos dos tra­ba­lha­dores ficam re­gis­tados como pos­si­bi­li­dade, ou seja, de­pendem da de­cisão da em­presa.

Após a úl­tima re­visão do Có­digo do Tra­balho (Lei 23/​2012, ar­tigo 208-A), é per­mi­tido tal re­gime de au­mento do ho­rário de tra­balho, me­di­ante acordo dos tra­ba­lha­dores e com três al­ter­na­tivas para com­pen­sação do tra­ba­lhador: re­dução do pe­ríodo de tra­balho, au­mento do pe­ríodo de fé­rias ou pa­ga­mento pelo valor do tra­balho normal.

Mas as em­presas pro­curam fazer do «banco» de horas uma al­te­ração per­ma­nente ao con­trato in­di­vi­dual de tra­balho, pro­cu­rando o acordo do tra­ba­lhador para uni­la­te­ral­mente de­ci­direm quando e com que an­te­ce­dência pre­cisam de até mais duas horas de ser­viço por dia, e de­ci­direm como e quando fazem a com­pen­sação.

O CESP de­fende que o con­trato co­lec­tivo de tra­balho deste sector, pu­bli­cado há cinco anos, per­mite às em­presas ob­terem o acrés­cimo de tra­balho ne­ces­sário em si­tu­a­ções con­jun­tu­rais ou pon­tuais, até mais duas horas por dia. Mas o tra­ba­lhador não fica in­di­vi­du­al­mente vin­cu­lado a um com­pro­misso per­ma­nente de au­mento da jor­nada de tra­balho. «A em­presa que se or­ga­nize e use o que ne­go­ciou com os sin­di­catos», exige o sin­di­cato.




Mais artigos de: Trabalhadores

CGTP-IN reforça apelo à luta

A In­ter­sin­dical marcou uma jor­nada na­ci­onal para 1 de Fe­ve­reiro e exortou todos os tra­ba­lha­dores a in­ten­si­fi­carem a luta diária contra a ex­plo­ração e pela de­missão do Go­verno, com an­te­ci­pação das elei­ções le­gis­la­tivas, que é hoje «um ob­jec­tivo de­ci­sivo e ina­diável para o fu­turo ime­diato do povo por­tu­guês».

Todos pela escola pública

De­fender a es­cola pú­blica de qua­li­dade, de­mo­crá­tica, gra­tuita e para todos será a maior e prin­cipal luta na Edu­cação, em 2014, para que este não seja o «annus hor­ri­bilis» que o Go­verno se pre­para para impor.

Santa Casa discrimina

«Vive-se um espírito de “apartheid” de horários e salários» na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que desde Outubro impôs oito horas por dia (40 horas semanais) aos cerca de 1200 trabalhadores que são funcionários públicos. Estes...

Mais força na Soporcel

Em Dezembro, quase duas centenas de trabalhadores da Soporcel sindicalizaram-se no SITE Centro-Norte, da Fiequimetal/CGTP-IN. Pela primeira vez, desde 1984, ano da entrada em funcionamento da fábrica de Lavos (Figueira da Foz), foram eleitos delegados sindicais e está a ser dinamizada a comissão de...