Insistir na receita que afunda o País
Os partidos da maioria aprovaram o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) apresentado pelo Governo. Para o PCP, que votou contra, esta é «mais uma peça para continuar a submeter o País e os portugueses às imposições do memorando da troika».
Governo lança País numa recessão sem paralelo
Serve estrategicamente os interesses daqueles que querem aproveitar um empréstimo agiota de 78 mil milhões de euros – completamente impagável como as execuções orçamentais e a factura de juros e encargos mostram de forma cada vez mais elucidativa –, serve para salvar a banca e o sistema financeiro e ao mesmo tempo levar a cabo um verdadeiro ajuste de contas com os direitos constitucionais à habitação, à saúde, à educação e à Segurança Social, com os direitos laborais», sumariou o deputado comunista Honório Novo, justificando assim as razões de absoluta rejeição do PCP em relação a um documento que em sua opinião «reforça as imposições e agrava as políticas de austeridade, de exploração dos trabalhadores e de empobrecimento do País».
Sexta-feira passada, conjuntamente com o diploma governamental, estiveram ainda em debate resoluções do PCP e do BE (ambas de rejeição do DEO) e uma outra do PS, esta não de rejeição do documento mas sim direccionada para a sua reavaliação e revisão. Todos estes diplomas foram chumbados pela maioria PSD/CDS-PP, ainda que por razões substancialmente diferentes, depois de uma discussão onde ficou patente que nesta matéria não são de fundo nem estruturais as diferenças que separam o PS dos partidos da actual maioria. O motivo que terá retardado o consenso entre si e impedido o PS de votar favoravelmente foi apenas «semântico» e de «pura teimosia», lamentar-se-ia mais tarde o deputado do PSD Miguel Frasquilho.
Velhos ataques
Já de tomo e nada acessórias são as razões que levam o PCP a rejeitar um documento que, embora com uma nova roupagem, mais não é do que uma versão actualizada dos desacreditados PEC. «Se o nome é novo, o conteúdo é velho», observou, acutilante, o deputado comunista Paulo Sá, vendo nele a «velha obsessão pela consolidação orçamental, pela redução do défice e da dívida pública “custe o que custar”», a «velha estratégia de ataque aos direitos laborais e de intensificação da exploração dos trabalhadores», a «velha aspiração neoliberal de eliminação dos serviços públicos», assim como a «velha sanha privatizadora».
Do lado do Governo, pela voz do ministro das Finanças, em defesa da trajectória actual, veio o habitual discurso de tiradas grande-eloquentes como a de que «a eliminação dos desequilíbrios macro-económicos é fundamental para garantir a sustentabilidade do crescimento» ou a que a «consolidação orçamental e a estabilidade financeira são condições necessárias para o crescimento económico sustentável».
Além de não responder a nenhuma das seis questões que lhe foram colocadas por Honório Novo (como a de saber como sustenta o Governo o aumento do consumo privado se está a liquidar o poder de compra dos portugueses), o que passou ao lado de Vítor Gaspar foi a realidade concreta da economia e da vida das famílias, o empobrecimento agravado com o pacto de agressão, as falências de milhares de empresas, os milhares de postos de trabalho destruídos, o alastrar da pobreza, a perda de parcelas da soberania, em suma as «consequências mais chocantes da política de afundamento nacional» prosseguida nos últimos anos e que este Governo aprofundou, como trataram de realçar os deputados comunistas que intervieram no debate.
Ora o que está espelhado de forma clara neste DEO, projectado para o período de 2013 a 2016, e por conseguinte para lá do período de vigência do pacto de agressão da troika, como salientou Paulo Sá, é essa política de imposição de sacrifícios aos trabalhadores e ao povo, é a continuação do processo de reconfiguração do Estado (com amputação das suas funções sociais e económicas), são os cortes na Saúde, no Ensino e Segurança Social, é a manutenção do roubo dos subsídios de férias e de Natal, é a diminuição do peso das prestações sociais.
E por isso este Documento de Estratégia Orçamental, para o PCP, significa persistir na «aplicação de uma receita que, comprovadamente, está a afundar o País numa recessão sem paralelo na história recente».