Basta de sacrifícios

Uma das linhas mais fortes da propaganda governamental é a de que a austeridade toca a todos e que os sacrifícios são para distribuir de forma equitativa.

Uma redonda mentira, acusa o PCP, que demonstrou não haver justiça nas medidas e muito menos equidade na sua repartição.

Logo na fase inicial do debate isso ficou claro nas palavras do Secretário-geral do PCP, quer na sua intervenção de abertura quer nas perguntas que dirigiu ao primeiro-ministro, a quem desafiou  «a falar verdade», face às afirmações por este proferidas de que os sacrifícios serão distribuídos de forma equitativa.

Comprovando que assim não é, o dirigente do PCP lembrou o esbulho dos salários, o aumento do IVA, a injustiça fiscal, o aumento dos preços, a dedução específica, entre outras medidas. Todas a indicar de modo inequívoco que «quem paga a grossa fatia – 75 por cento – são os trabalhadores e as famílias», pagando o grande capital apenas os restantes 25 por cento.

«Diga lá quem é que tem as contas certas?», insistiu Jerónimo de Sousa, perante um primeiro-ministro, que, sem responder, como é seu hábito, teve ainda de ouvir que não foram os trabalhadores, nem os reformados, nem quem vive dos seus pequenos rendimentos, nem os desempregados, nem os pobres, os responsáveis pela crise, mas, pelo contrário, os «tais mercados que, com as propostas do Governo, continuam a passar pelos intervalos da chuva, designadamente em relação à taxação das mais-valias, à taxação da banca e à taxação das operações bolsistas».

«Há quem pague o que tem e o que não tem, mas há também quem pouco ou nada pague», insistiu, noutro

momento do debate, o deputado comunista Honório Novo, convicto de que a austeridade que o Governo e o líder do PSD querem impor ao País «não é igual para todos».

A razão é simples. Como foi dito, «aos que vivem do seu trabalho» a receita é sempre a mesma: «esbulhar os salários, as pensões e reformas; continuar a cortar nas prestações sociais; cortar no subsídio de desemprego».

Em contrapartida, «aos ricos e poderosos, à banca e ao sistema financeiro o Governo e o PSD não pedem nada ou quase nada, limitam-se a sorrir, a fazer cócegas», criticou Honório Novo, frisando que se o objectivo fosse distribuir os sacrifícios por igual, então não aumentava dez por cento a taxa de IRS do escalão dos que menos ganham e, simultaneamente, não aumentava apenas três por cento no escalão dos que mais ganham, isto é, no escalão dos que ganham acima de 150 mil euros.

«Se fosse para distribuir equitativamente os sacrifícios não aumentava em 20 por cento o IVA dos bens essenciais, e, por outro lado, a banca pagaria 25 por cento de IRS, como pagam as pequenas empresas», exemplificou, assim desmontando uma das mistificações com que o Governo e o PSD mascaram as suas verdadeiras opções de classe em favor dos grandes interesses e dos poderosos.



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