A mistificação
O Governador do Banco de Portugal, Victor Constâncio, declarou do alto da sua conhecida sabedoria que Portugal não estava «em riscos de recessão», ao contrário de outras economias europeias, que «já estão em recessão técnica». E até apontou algumas dessas pobres economias já em aflição: as de Inglaterra, Espanha, Alemanha e França.
Acontece que - por infeliz acaso - estas economias pertencem exactamente aos principais países importadores dos produtos portugueses, o que coloca um problema bicudo às sapiências de Constâncio: se os principais importadores dos produtos lusitanos (tão principais que absorvem mais de 70% de toda a exportação nacional) já entraram em recessão técnica, como poderá Portugal estar ao abrigo da mesma derrocada? E a coisa não tem volta que se lhe dê: a recessão deprime à grande o consumo e, em decorrência directa, restringe fortemente as importações, pelo que é inevitável que os produtos portugueses que, usualmente, vão para esses mercados sejam também fortemente «restringidos». Aliás - e só como exemplo -, basta recordar a paragem de cinco dias decidida há pouco na produção dos monovolumes da Auto-Europa, em resultado directo da diminuição da procura em Espanha destes veículos. E exemplos destes proliferam actualmente às centenas e aos milhares pelas mais diversas produções nacionais destinadas à exportação.
É evidente que estas garantias de Victor Constâncio merecem tanto crédito como a sua «vigilância» às manigâncias financeiras do BCP, tão credíveis que durante anos o Banco de Portugal não descortinou uma única das volumosas ilegalidades agora comprovadamente assinaladas na gestão das administrações deste banco.
E assim, mais uma vez, Victor Constâncio surge com declarações que se afastam da objectividade que se espera de um governador do Banco de Portugal, na proporção directa em que se aproximam do discurso político que o poder governamental deseja e propagandeia. Não é imerecidamente que o homem ganha ordenados principescos (que, aliás, se recusa a admitir, quanto mais a discutir na AR), no mais longo consulado à frente do Banco de Portugal - tão longo, que já atravessou vários Governos do PS e do PSD através de consoladoras reconduções.
Daí não ser surpresa ouvir também o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, declarar pomposamente à chegada a Bruxelas que «aconteça o que acontecer, as poupanças dos portugueses em qualquer banco que opere em Portugal estão garantidas», enquanto o primeiro-ministro José Sócrates afivelava o seu mais confiante sorriso para garantir que «as finanças públicas estão em ordem» e o País na mais absoluta segurança.
Não se percebe como é que as poupanças dos portugueses podem estar «garantidas», quando correspondem a quase o dobro do PIB, nem como é que o País pode estar na mais absoluta tranquilidade quando, como bem assinalou Jerónimo de Sousa, «o País se encontra estagnado, como o provam a diminuição do PIB, das exportações, o aumento das taxas de juro e a quebra do poder de compra dos trabalhadores e das camadas médias», enquanto «o endividamento do País e do sistema financeiro ao estrangeiro e o endividamento das famílias, a par com a fragilidade do nosso aparelho produtivo e o domínio com as privatizações de empresas básicas e estratégicas pelo estrangeiro agudizam substancialmente a exposição à crise».
A crise está aí - mais concreta e irrecusável que a mistificação do Governo a tentar escondê-la...
Acontece que - por infeliz acaso - estas economias pertencem exactamente aos principais países importadores dos produtos portugueses, o que coloca um problema bicudo às sapiências de Constâncio: se os principais importadores dos produtos lusitanos (tão principais que absorvem mais de 70% de toda a exportação nacional) já entraram em recessão técnica, como poderá Portugal estar ao abrigo da mesma derrocada? E a coisa não tem volta que se lhe dê: a recessão deprime à grande o consumo e, em decorrência directa, restringe fortemente as importações, pelo que é inevitável que os produtos portugueses que, usualmente, vão para esses mercados sejam também fortemente «restringidos». Aliás - e só como exemplo -, basta recordar a paragem de cinco dias decidida há pouco na produção dos monovolumes da Auto-Europa, em resultado directo da diminuição da procura em Espanha destes veículos. E exemplos destes proliferam actualmente às centenas e aos milhares pelas mais diversas produções nacionais destinadas à exportação.
É evidente que estas garantias de Victor Constâncio merecem tanto crédito como a sua «vigilância» às manigâncias financeiras do BCP, tão credíveis que durante anos o Banco de Portugal não descortinou uma única das volumosas ilegalidades agora comprovadamente assinaladas na gestão das administrações deste banco.
E assim, mais uma vez, Victor Constâncio surge com declarações que se afastam da objectividade que se espera de um governador do Banco de Portugal, na proporção directa em que se aproximam do discurso político que o poder governamental deseja e propagandeia. Não é imerecidamente que o homem ganha ordenados principescos (que, aliás, se recusa a admitir, quanto mais a discutir na AR), no mais longo consulado à frente do Banco de Portugal - tão longo, que já atravessou vários Governos do PS e do PSD através de consoladoras reconduções.
Daí não ser surpresa ouvir também o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, declarar pomposamente à chegada a Bruxelas que «aconteça o que acontecer, as poupanças dos portugueses em qualquer banco que opere em Portugal estão garantidas», enquanto o primeiro-ministro José Sócrates afivelava o seu mais confiante sorriso para garantir que «as finanças públicas estão em ordem» e o País na mais absoluta segurança.
Não se percebe como é que as poupanças dos portugueses podem estar «garantidas», quando correspondem a quase o dobro do PIB, nem como é que o País pode estar na mais absoluta tranquilidade quando, como bem assinalou Jerónimo de Sousa, «o País se encontra estagnado, como o provam a diminuição do PIB, das exportações, o aumento das taxas de juro e a quebra do poder de compra dos trabalhadores e das camadas médias», enquanto «o endividamento do País e do sistema financeiro ao estrangeiro e o endividamento das famílias, a par com a fragilidade do nosso aparelho produtivo e o domínio com as privatizações de empresas básicas e estratégicas pelo estrangeiro agudizam substancialmente a exposição à crise».
A crise está aí - mais concreta e irrecusável que a mistificação do Governo a tentar escondê-la...