O rio
A meio da Avenida da Liberdade, frente ao Centro de Trabalho Vitória, e a dada altura da manifestação dos professores no último sábado, quisemos atravessar de um lado para o outro: só o conseguimos passados alguns minutos à espera de uma brecha, no caso uma das pequenas paragens aleatoriamente decididas por grupos de manifestantes quando se reorganizavam atrás de um pano.
Isto é literal e para ser tomado à letra, já que a referida manifestação de professores destacou-se, em primeiro lugar, pela densidade e compenetração com que ocupou o vasto espaço escolhido para trajecto – entre o Marquês de Pombal e o Terreiro do Paço, em Lisboa -, nele se instalando como um rio que se espraia numa cheia. Fenómeno assim só nos lembramos na mítica manifestação do primeiro 1.º de Maio a seguir à Revolução de Abril, também em Lisboa, quando um milhão de pessoas partiu da Alameda Afonso Henriques e inundou os quilómetros de avenidas e ruas que medeiam até ao Estádio Primeiro de Maio - que assim ficaria chamado a partir desse dia, sepultando o ignominioso «Estádio 28 de Maio» com que o fascismo o baptizara.
Era quase palpável o entusiasmo com que todos marchavam no passado sábado e, sob a vastidão de bandeiras brancas que ondulavam ao vento as insígnias sindicais, era também evidente o perfil profissional dos manifestantes, tanto pelo peso esmagador das mulheres (80% do corpo docente), como pela clareza, inventiva e originalidade das consignas e palavras de ordem exibidas contra a ministra e a actual política de Educação ou, ainda, a inexperiência de boa parte em tais manifestações, que os levava a colar-se aos da frente como se temessem perdê-los de vista.
Daí o rio ininterrupto de gente avenida abaixo, nada fácil de cruzar.
Quanto ao número de manifestantes que confluíram no Terreiro do Paço, basta dizer que a vasta praça ficou atafulhada de gente quando o desfile ainda serpenteava avenidas acima vinda do Marquês e que a própria polícia, sempre comedida nestas avaliações, reconhecia no próprio dia que os «mais de 80 mil», afinal, eram «cerca de 100 mil» manifestantes.
Sabendo-se que o total dos professores no território continental se cifra em 140 mil, é óbvio que se manifestaram no passado sábado mais de dois terços dos docentes contra a actual política e a própria ministra da Educação, configurando a maior e mais expressiva manifestação de uma classe profissional jamais realizada no nosso País.
Confrontada com tão avassalador protesto, a ministra Lurdes Rodrigues considerou-o «irrelevante», após também ter perorado que «as decisões políticas não se tomam em função da rua», o que significa que a (ainda) governanta olha a maioria qualificada de dois terços dos professores que tutela como uma «irrelevância» e esquece que o regime democrático que a sustenta até foi conquistado na rua, como geralmente acontece quando urge ou se impõem mudanças radicais no (des)governo dos povos.
Mas, obviamente, a ministra não inventou estes desmandos no Ensino, apenas os executa e se faz eco fiel do que ordena o Governo de José Sócrates, que a propósito desta manifestação também decretou que «era o que faltava se a acção governativa dependesse agora do nível de manifestações».
O primeiro-ministro parece tão convencido que a sua maioria absoluta de há três anos continua a ser o leito imutável por onde flui o País, que ainda nem percebeu que o rio já transbordou muito para além das margens em que julgou aperreá-lo. A manifestação de sábado passado foi apenas a cheia mais recente.
Isto é literal e para ser tomado à letra, já que a referida manifestação de professores destacou-se, em primeiro lugar, pela densidade e compenetração com que ocupou o vasto espaço escolhido para trajecto – entre o Marquês de Pombal e o Terreiro do Paço, em Lisboa -, nele se instalando como um rio que se espraia numa cheia. Fenómeno assim só nos lembramos na mítica manifestação do primeiro 1.º de Maio a seguir à Revolução de Abril, também em Lisboa, quando um milhão de pessoas partiu da Alameda Afonso Henriques e inundou os quilómetros de avenidas e ruas que medeiam até ao Estádio Primeiro de Maio - que assim ficaria chamado a partir desse dia, sepultando o ignominioso «Estádio 28 de Maio» com que o fascismo o baptizara.
Era quase palpável o entusiasmo com que todos marchavam no passado sábado e, sob a vastidão de bandeiras brancas que ondulavam ao vento as insígnias sindicais, era também evidente o perfil profissional dos manifestantes, tanto pelo peso esmagador das mulheres (80% do corpo docente), como pela clareza, inventiva e originalidade das consignas e palavras de ordem exibidas contra a ministra e a actual política de Educação ou, ainda, a inexperiência de boa parte em tais manifestações, que os levava a colar-se aos da frente como se temessem perdê-los de vista.
Daí o rio ininterrupto de gente avenida abaixo, nada fácil de cruzar.
Quanto ao número de manifestantes que confluíram no Terreiro do Paço, basta dizer que a vasta praça ficou atafulhada de gente quando o desfile ainda serpenteava avenidas acima vinda do Marquês e que a própria polícia, sempre comedida nestas avaliações, reconhecia no próprio dia que os «mais de 80 mil», afinal, eram «cerca de 100 mil» manifestantes.
Sabendo-se que o total dos professores no território continental se cifra em 140 mil, é óbvio que se manifestaram no passado sábado mais de dois terços dos docentes contra a actual política e a própria ministra da Educação, configurando a maior e mais expressiva manifestação de uma classe profissional jamais realizada no nosso País.
Confrontada com tão avassalador protesto, a ministra Lurdes Rodrigues considerou-o «irrelevante», após também ter perorado que «as decisões políticas não se tomam em função da rua», o que significa que a (ainda) governanta olha a maioria qualificada de dois terços dos professores que tutela como uma «irrelevância» e esquece que o regime democrático que a sustenta até foi conquistado na rua, como geralmente acontece quando urge ou se impõem mudanças radicais no (des)governo dos povos.
Mas, obviamente, a ministra não inventou estes desmandos no Ensino, apenas os executa e se faz eco fiel do que ordena o Governo de José Sócrates, que a propósito desta manifestação também decretou que «era o que faltava se a acção governativa dependesse agora do nível de manifestações».
O primeiro-ministro parece tão convencido que a sua maioria absoluta de há três anos continua a ser o leito imutável por onde flui o País, que ainda nem percebeu que o rio já transbordou muito para além das margens em que julgou aperreá-lo. A manifestação de sábado passado foi apenas a cheia mais recente.