O Nobel

José Casanova
A pretexto da publicação de mais um livro, António Lobo Antunes (ALA) foi manchete e deu entrevista a tudo quanto é órgão da comunicação social dominante. O escritor falou de si próprio, hoje: «Honestamente, se tivesse que escolher um escritor escolhia-me a mim.», e para o futuro: «É óbvio que cada vez estou a escrever melhor».
Não sendo prudente contrariá-lo (nunca se sabe como é que estas pessoas reagem em tais circunstâncias), louvemos-lhe o des­ca­rado he­roísmo de afirmar – o tal que faltou ao Raposão e lhe retirou o seu Nobel, para o caso a fortuna da Titi, a Adéliazinha, etc. - e deixemo-lo, ao ALA, feliz, entregue ao ininterrupto diálogo com o espelho seu.
Na entrevista à Pú­blica, ALA diz que não lê jornais e que só muito raramente vê um noticiário na televisão. Isso não o impede, todavia, de repetir o que os jornais e os noticiários dizem todos os dias: ALA acha que o primeiro-ministro Sócrates é «um homem muito corajoso» (Porquê?: «Pelas mesmas razões que toda a gente acha» - responde, não explicitando, infelizmente, quem é toda a gente…); acha que «qualquer pessoa que não seja sectária tem de fazer uma avaliação positiva deste Governo»; enfim, acha tudo o que os jornais, que não lê, querem que toda a gente ache.
Do originalíssimo discurso de ALA, emerge, genial e luminar, o seu pensamento social: «as reivindicações dos sindicatos parecem-me completamente idiotas» - e, embalado, teoriza deste jeito: «O problema do nosso sindicalismo é que, ao contrário do americano, está muito ligado aos partidos. A CGTP está demasiado ligada ao partido comunista, e aquilo é tão ingénuo, tão primário. E depois não oferecem alternativas (…) Continuar a ouvir falar nas conquistas de Abril? Por amor de Deus…»
Realmente, toda a gente acha que sindicatos bons são os que estão ligados aos patrões; e toda a gente acha absolutamente idiota reivindicar o direito ao emprego e ao emprego com direitos, o direito ao salário e ao salário justo, e outras idi­o­tices no género. Por amor de Deus…
Há uma coisa – uma! – que ALA confessa não entender: «(…) como é que se pode ser comunista. Racionalmente não entendo como é que se pode pertencer àquele fóssil que ainda continua a respirar de vez em quando.» - o fóssil, geme ALA, ao espelho.
O génio pode nunca vir a cumprir o sonho obsessivo, doentio, patético, de alcançar o Nobel – as operações de marketing, por mais poderosas que sejam, nem sempre resultam – mas há um outro Nobel que já ninguém lhe tira: o da idiotia.


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