Nova democracia
O presidente norte-americano, George Bush, considerou a sentença que condenou à morte Saddam Hussein como uma «importante conquista para a jovem democracia do Iraque e para o seu governo constitucional». Afinando pelo mesmo diapasão, a secretária de Estado, Condolezza Rice, prestou homenagem «aos valentes iraquianos, sejam juizes, promotores ou advogados de defesa, que trabalham diariamente em prol da justiça, da democracia e do Estado de Direito no Iraque». Já o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, o primeiro a saudar a sentença, não encontrou outra forma de exprimir a sua satisfação do que afirmar que a condenação representa «um bom dia para o povo iraquiano» e uma prova da «independência» do Poder judicial.
No Iraque propriamente dito, o «Estado de Direito», para evitar reacções à sentença, impôs o recolher obrigatório, impediu a saída dos principais diários do país durante três dias, encerrou por tempo indefinido duas estações televisivas sunitas. Anteriormente, numa manifestação de «democracia» a toda a prova, o primeiro-ministro al Maliki pediu a execução de Saddam, enquanto o «Estado de Direito» assistiu impassível ao sucessivo assassinato de advogados de defesa e testemunhas, substituiu juizes por alegada «condescendência» com Hussein, expulsou várias vezes o réu da sala de audiências, impediu-o de responder ou cortou-lhe o som para que o seu depoimento não fosse audível, e acatou sem pestanejar as normas respeitantes ao julgamento impostas pelos assessores norte-americanos, incluindo a que restringia, muito convenientemente, a jurisdição do tribunal apenas a cidadãos iraquianos.
Por tudo isto os iraquianos – que pagaram 128 milhões de dólares pelo funcionamento do «tribunal», de acordo com o orçamento aprovado no congresso... norte-americano – não só não puderam acompanhar as sessões do «independente» julgamento, realizadas à porta fechada, como também não terão acesso no futuro a qualquer registo completo do sucedido na sala de audiências. De referir ainda que na «jovem democracia» iraquiana apenas jornalistas norte-americanos e iraquianos seleccionados tiveram acesso ao julgamento, e que o mundo foi informado muito democraticamente do desenrolar do processo através de vídeos com a chancela «Aprovado pelo Exército dos EUA».
Mas tudo isto são pormenores que não tiram o sono a quem se congratula com a condenação à morte de Saddam Hussein pela matança de 143 pessoas em 1982, na povoação de Duyail, mas que faz por esquecer e fazer esquecer os milhares de comunistas iraquianos mortos, presos e torturados quando Saddam ainda não era um ditador mas um amigo dos EUA.
Para cimentar a «democracia», o que é preciso é que Saddam morra depressa e sem oportunidade de abrir a boca, não vá ter a veleidade de querer contar quem ajudou o seu regime a desenvolver armas bacteriológicas ou até, segundo garantem algumas fontes, a apontar o dedo a responsáveis do laboratório Pasteur ou à empresa norte-americana Brechtel, que financia as campanhas eleitorais de Bush.
Para que a «democracia» iraquiana siga em frente o que é preciso é consagrar a pena de morte no novo regime, ter a certeza que cada julgamento «justo» condene os réus incómodos para os EUA, garantir que o governo terá sempre à mão um assessor norte-americano e assegurar que a imprensa está domesticada ou convenientemente calada. Os tempos do «Bom dia Vietname» já lá vão. O «silêncio é de ouro» passou a ser a ordem do dia.
No Iraque propriamente dito, o «Estado de Direito», para evitar reacções à sentença, impôs o recolher obrigatório, impediu a saída dos principais diários do país durante três dias, encerrou por tempo indefinido duas estações televisivas sunitas. Anteriormente, numa manifestação de «democracia» a toda a prova, o primeiro-ministro al Maliki pediu a execução de Saddam, enquanto o «Estado de Direito» assistiu impassível ao sucessivo assassinato de advogados de defesa e testemunhas, substituiu juizes por alegada «condescendência» com Hussein, expulsou várias vezes o réu da sala de audiências, impediu-o de responder ou cortou-lhe o som para que o seu depoimento não fosse audível, e acatou sem pestanejar as normas respeitantes ao julgamento impostas pelos assessores norte-americanos, incluindo a que restringia, muito convenientemente, a jurisdição do tribunal apenas a cidadãos iraquianos.
Por tudo isto os iraquianos – que pagaram 128 milhões de dólares pelo funcionamento do «tribunal», de acordo com o orçamento aprovado no congresso... norte-americano – não só não puderam acompanhar as sessões do «independente» julgamento, realizadas à porta fechada, como também não terão acesso no futuro a qualquer registo completo do sucedido na sala de audiências. De referir ainda que na «jovem democracia» iraquiana apenas jornalistas norte-americanos e iraquianos seleccionados tiveram acesso ao julgamento, e que o mundo foi informado muito democraticamente do desenrolar do processo através de vídeos com a chancela «Aprovado pelo Exército dos EUA».
Mas tudo isto são pormenores que não tiram o sono a quem se congratula com a condenação à morte de Saddam Hussein pela matança de 143 pessoas em 1982, na povoação de Duyail, mas que faz por esquecer e fazer esquecer os milhares de comunistas iraquianos mortos, presos e torturados quando Saddam ainda não era um ditador mas um amigo dos EUA.
Para cimentar a «democracia», o que é preciso é que Saddam morra depressa e sem oportunidade de abrir a boca, não vá ter a veleidade de querer contar quem ajudou o seu regime a desenvolver armas bacteriológicas ou até, segundo garantem algumas fontes, a apontar o dedo a responsáveis do laboratório Pasteur ou à empresa norte-americana Brechtel, que financia as campanhas eleitorais de Bush.
Para que a «democracia» iraquiana siga em frente o que é preciso é consagrar a pena de morte no novo regime, ter a certeza que cada julgamento «justo» condene os réus incómodos para os EUA, garantir que o governo terá sempre à mão um assessor norte-americano e assegurar que a imprensa está domesticada ou convenientemente calada. Os tempos do «Bom dia Vietname» já lá vão. O «silêncio é de ouro» passou a ser a ordem do dia.