A cegonha global

Leandro Martins
Aqui há tempos a culpa foi da cegonha que deixou o país quase todo às escuras. Tratava-se de um apagão doméstico, de dimensões reduzidas e periféricas, mas que logo nos guindou ao estatuto de país que também se pode apagar. Emparceirávamos assim com os Estados Unidos, cujo apagão monstro e de dimensões quase continentais, tanta tinta fez derramar e tantas vozes enrouquecer na explicação de uma falha que não achou cegonha sobre que deitar as culpas, com os norte-americanos a fazerem crer que a falha não era deles, mas dos canadianos, vizinhos do Norte contra os quais não lhes passaria pela cabeça erguerem muros.
Agora, o apagão foi europeu, envolvendo grandes e pequenos. Alemanha, França, Itália, Bélgica, Espanha e Portugal, pelo menos, viram regiões inteiras na escuridão. Logo a seguir ao jantar de sábado – segundo a hora em que vivem. Como as cegonhas não devem aventurar-se tão a Norte em tempos de frio, o apagão, com origem na Alemanha, encontrou já um obscuro culpado, que ora se mostra oriundo de uma sobrecarga – por causa do frio que faz lá pela Renânia – ora pelo corte de energia num cabo que corre sobre um curso de água onde devia passar um navio de grande porte.
As questões técnicas, certamente determinantes e em si mesmas importantes como razão da falha eléctrica – que fez mesmo parar o TVG da carreira nocturna – não serão para aqui chamadas. Porque, embora o tom desta crónica possa ser apelidado de irónico, a questão é mais séria que isso. Nem sequer, a jusante da electricidade produzida, as consequências graves que uma ocorrência desta envergadura pode ocasionar e que podem revelar-se catastróficas – falhas nos transportes, nas comunicações, nas unidades hospitalares e em outros serviços essenciais – devem fazer esquecer uma outra realidade de peso nisto de uma rede integrada de energia.
Sabemos todos que as integrações, técnicas e outras, têm aspectos positivos. Basta pensarmos na Internet, fenómeno de ponta das comunicações actuais. Mas também aprendemos todos – aqueles que ainda não tinham acreditado – que as integrações têm o seu reverso, nomeadamente o da globalização capitalista comandada pelo imperialismo. Dependentes a todos os níveis, da economia à política, nem a electricidade escapa. E agora já se pode constatar que, se uma borboleta bate as asas na Ásia e não vem daí grande mal ao mundo, um corte de energia num dos grandes da União Europeia deixa Portugal às escuras.
O problema e a culpa, não é, pois, da cegonha. É da falta de soberania e de independência, neste caso, energética. E se o governo francês reuniu expressamente para debater o problema, não imaginamos o engenheiro Sócrates a fazer o mesmo. Se calhar resmungou apenas, por ter perdido a telenovela.


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