Imperdoável

Anabela Fino
Se Portugal fosse de facto um Estado de Direito e não cada vez mais um Estado à direita, a notícia de que as Finanças «perdoaram» à Banca o IRS e IRC que deveria ter sido entregue a título de retenção na fonte, sobre juros pagos a investidores em obrigações emitidas por sucursais no estrangeiro – divulgada esta segunda-feira pelo Jornal de Negócios –, teria sido mais do que suficiente para provocar não só a demissão do ministro das Finanças como também um verdadeiro terramoto político no Governo. Não será obviamente o caso nesta república das bananas onde frei Sócrates prega a justiça e o rigor para justificar a «necessidade» de impor sacrifícios aos trabalhadores, enquanto sanciona sem pudor as crescentes benesses a grupos e privados que engordam à sombra da crise e vão engrossando a lista dos mais ricos do mundo na revista Forbes.
O caso é tanto mais escandaloso quanto, segundo o JdN, o perdão fiscal incide não só sobre o passado como igualmente sobre os rendimentos de todas as emissões obrigacionistas que venha a ocorrer até 31 de Dezembro deste ano. A lei, apesar de se encontrar em vigor para o comum dos portugueses, só será aplicada à banca a partir de Janeiro de 2007. Isso mesmo, escreve o JdN, foi comunicado há cerca de 15 dias à Associação Portuguesa de Bancos, que em Junho suscitou esta questão junto do Ministério das Finanças, pelo gabinete do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.
A explicação para tamanha enormidade é digna de ópera bufa: a banca agiu de «boa fé» ao não fazer as retenções na fonte, pois o seu procedimento assentou numa interpretação da lei diferente da do fisco.
Manifestando para com a banca uma compreensão que o vulgar cidadão não conhece quando, de «boa fé», incorre em infracções fiscais, o secretário de Estado João Amaral Tomaz determinou que o perdão se aplicasse a todos os bancos que não procederam às referidas retenções na fonte e instruiu as autoridades tributárias no sentido de, até final do ano, ignorarem situações deste tipo em futuras inspecções.
Estamos em crer que os portugueses, forçados a apertar o cinto para além do intolerável, a viver sob e espectro do desemprego e da crise, a assistir diariamente ao esbulho de direitos duramente conquistados em décadas de luta, gostariam certamente de ver respondidas duas questões que, lamentavelmente, a notícia do JdN não aborda: qual o montante do «perdão» e quem foram os clientes da banca que dele beneficiaram.
Estamos em crer que isso explicaria muita coisa.


Mais artigos de: Opinião

O embuste nuclear

Os EUA divulgaram há dias a revisão da sua Política Nacional Espacial.O facto ocorre numa altura em que se agrava a tensão na península coreana depois do CS da ONU ter votado a aplicação de sanções à RPDC, e quando a UE anunciou o fim das negociações com o Irão sobre o seu programa de energia nuclear.O decreto assinado...

Silêncio salazarento

Se o Primeiro-Ministro, fardado de secretário-geral do PS, for arengar a um núcleo remoto do seu partido – cada vez menos participadas estas reuniões onde o homem perora a explicar o inexplicável e a desculpar as medidas, algumas criminosas, que o seu Governo tem vindo a anunciar e a pôr em prática – as televisões estão...

Política a sério

Se dúvidas existissem sobre a importância e o extraordinário impacto que o Protesto Geral teve na sociedade portuguesa, bastaria um olhar atento, no muito que se disse e escreveu sobre o mesmo - sobretudo por alguns a quem o Capital destina a tarefa de «ensinar» os portugueses a pensar - e provavelmente, o mais fiel...

Novo Orçamento, a mesma política

Com fingida indiferença em relação ao protesto geral que, alguns dias antes, juntou em Lisboa 100 mil manifestantes contra a política do governo, o executivo de José Sócrates apresentou na semana passada a proposta de Orçamento de Estado para 2007.

Mais uma...

O ministro da Saúde, Correia de Campos, volta a atacar, reafirmando-se como um dos mais empenhados executores da política neoliberal do Governo de José Sócrates. Só que, desta vez, já não se limita a desmantelar serviços e recursos públicos que o regime democrático saído da Revolução de Abril pôs ao serviço da Saúde dos...