A «Frigideira» matava…
Para quebrar a vontade e a têmpera dos prisioneiros, os carcereiros aplicavam por nenhum motivo castigos severos na «Frigideira». A maioria dos presos não vergou, apesar dos pesados castigos. O comunista Gabriel Pedro passou, ao todo, 135 dias na famigerada cela. O relato que se segue descreve a «Frigideira»:
Dossier Nos 70 anos do Campo de Concentração do Tarrafal
«A “Frigideira” era uma caixa de cimento (…) Estava exposta ao sol de manhã à noite. Lá dentro era um forno. Aquela prisão merecia o nome que lhe tínhamos dado. O sol batia na porta de ferro e o calor ia-se tornando sempre mais difícil de suportar. Íamos tirando a roupa, mas o suor corria incessantemente.
«A “Frigideira” teria capacidade para dois ou três presos por cela. Chegámos a ser doze numa área de nove metros quadrados. A luz e o ar entravam com muita dificuldade pelos buracos na porta e em cima pela abertura junto ao tecto (…) A água que nos davam para beber nunca chegava. Traziam-na de manhã numa pequena bilha de lata e talvez não chegasse a uns quatro litros. Se éramos mais de dois não bastava para compensar os líquidos perdidos com o calor e sofríamos constantemente a sede.
«Pouco depois de o Sol nascer, já o ar se tornava abafado, irrespirável. Despíamos a roupa e estendíamo-la no cimento para nela nos deitarmos. O Sol ia erguendo-se sobre o horizonte e o calor aumentava, aumentava e suávamos, suávamos. Sentíamos sede, batíamos na porta a pedir água, mas não tínhamos resposta. A água da bilha não tardava em ficar quente. Havia momentos em que a sede era tanta que passávamos a língua pela parede por onde escorriam as gotas da nossa respiração que ali se condensava (…) A frigideira matava.
«Ainda nos recordamos de ver Pedro Soares caminhando para o Campo, descalço, tronco nu, sem óculos, cambaleando com o esforço para dominar o extremo cansaço. Vinha muito magro, muito sujo. Também nos lembramos de Luís Taborda, com o corpo todo numa chaga, de Gabriel Pedro, que nos primeiros cinco anos foi quem mais tempo passou na “Frigideira”, tão perseguido pelos carcereiros para o fazerem fraquejar e repudiar os seus ideais através de constantes castigos que, sentindo-se sem forças para resistir mais, cortou as veias dos pulsos no rebordo do latão.»
Tarrafal – Testemunhos, Editorial Caminho.
«A “Frigideira” teria capacidade para dois ou três presos por cela. Chegámos a ser doze numa área de nove metros quadrados. A luz e o ar entravam com muita dificuldade pelos buracos na porta e em cima pela abertura junto ao tecto (…) A água que nos davam para beber nunca chegava. Traziam-na de manhã numa pequena bilha de lata e talvez não chegasse a uns quatro litros. Se éramos mais de dois não bastava para compensar os líquidos perdidos com o calor e sofríamos constantemente a sede.
«Pouco depois de o Sol nascer, já o ar se tornava abafado, irrespirável. Despíamos a roupa e estendíamo-la no cimento para nela nos deitarmos. O Sol ia erguendo-se sobre o horizonte e o calor aumentava, aumentava e suávamos, suávamos. Sentíamos sede, batíamos na porta a pedir água, mas não tínhamos resposta. A água da bilha não tardava em ficar quente. Havia momentos em que a sede era tanta que passávamos a língua pela parede por onde escorriam as gotas da nossa respiração que ali se condensava (…) A frigideira matava.
«Ainda nos recordamos de ver Pedro Soares caminhando para o Campo, descalço, tronco nu, sem óculos, cambaleando com o esforço para dominar o extremo cansaço. Vinha muito magro, muito sujo. Também nos lembramos de Luís Taborda, com o corpo todo numa chaga, de Gabriel Pedro, que nos primeiros cinco anos foi quem mais tempo passou na “Frigideira”, tão perseguido pelos carcereiros para o fazerem fraquejar e repudiar os seus ideais através de constantes castigos que, sentindo-se sem forças para resistir mais, cortou as veias dos pulsos no rebordo do latão.»
Tarrafal – Testemunhos, Editorial Caminho.