Porque se vão embora

Vasco Cardoso
Com maior intensidade desde o último fim-de-semana, chegaram a Portugal milhares de portugueses vindos de todos os cantos do mundo. Vêm ao encontro das suas famílias, das suas terras e gentes, vêm «matar saudades» como diz o povo, e trazem no corpo um ano inteiro de trabalho. Outros ficaram por lá, porque se a vida aqui custa muito, lá fora custa cada vez mais.
Há várias décadas que a emigração faz parte da realidade do nosso país. As razões não diferem muito do lugar ou do tempo, as questões económicas, a guerra, a perseguição política, foram os motivos para que milhares de portugueses - na sua maioria jovens – tenham abandonado o país em busca de uma vida melhor. Os números dizem-nos que nos últimos 50 anos saíram milhões e a vida demonstra-nos que continuam a sair milhares.
Portugal é hoje um país de destino para muitos trabalhadores, mas é igualmente um exportador de mão-de-obra. Esta aparente contradição é apenas isso, aparente. O que está na origem destes fluxos migratórios são, não apenas as profundas injustiças e desigualdades em cada país, como entre países e regiões. Existe uma certa tentativa de mistificar esta realidade, à luz da ideia da procura de novas experiências, da descoberta de outras culturas, mas é o encerramento das fábricas, das escolas, os baixos salários, a pobreza que empurram esta gente para fora.
O capitalismo precisa destes imigrantes, em qualquer que seja o país de acolhimento o quadro de direitos dos trabalhadores imigrantes é mais reduzido e a exploração maior – contribuindo também para aumentar a pressão junto dos outros trabalhadores. A instrumentalização da imigração, fomentando o racismo, a xenofobia e procurando criar divisões de classe surge também associada à ofensiva ideológica do capital.
Quem percorrer o interior do nosso país, encontra o rasto deste grande êxodo. Aldeias e vilas que por breves semanas recebem os filhos da terra, para em poucos dias os verem partir novamente. A actual política do governo PS, tal como de governos anteriores, continua a determinar a emigração como a única alternativa para muitos – sobretudo jovens - agora com outros destinos e paragens. Em vez de França, Suíça ou Alemanha vão para o Reino Unido e a Holanda...mas vão. Os prejuízos individuais e colectivos deste movimento são incalculáveis, na maioria dos casos trata-se de parte significativa da força de trabalho, da energia e capacidade criativa de um país que se perde, ou melhor, que se transfere. Mais do que nunca, o Portugal com futuro pelo qual o PCP luta, precisa e conta com estes trabalhadores.


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