A confissão

Jorge Cordeiro
Nada melhor do que os insuspeitos interessados para confessarem aquilo que dito por outros se veria indignadamente recusado por suspeição ou maledicência. Coube a Luís Paixão Martins, do núcleo da candidatura de Cavaco Silva, o louvável papel de vir dizer ao país o que o país pressentia: que o agora recém eleito Presidente da República é um produto de cenário, programado para não sair das «deixas do ponto», construído pela comunicação social e alimentado por sondagens. Tudo confessado, em artigo no Público, com a simplicidade e o à-vontade que o iluminado e esclarecedor título «As elei­ções pre­si­den­ciais não foram a 22 de Ja­neiro» deixa antever. Registem-se pois, de tão sincera confissão, as três razões aduzidas para a laboriosa construção da ideia de uma vitória antecipadamente decretada.

A primeira: aquela modesta e desinteressada contribuição dada «pela 1 hora e 42 mi­nutos nos te­le­jor­nais que os ca­nais ge­ne­ra­listas de­di­caram à con­fe­rência de im­prensa» de apresentação da candidatura de Cavaco Silva. Segundo LPM, tal bastou para os portugueses «va­li­darem a opção que já ti­nham cons­truído ao longo de vá­rios meses – talvez, mesmo, anos». Descontado o exagero ou falsa modéstia sobre a capacidade de persuasão do candidato para, em hora e meia, convencer seja quem for, o que a afirmação confirma é o que toda a gente sabia: a existência de uma diligente operação lançada de há meses e suportada na linha editorial dos principais grupos e comunicação para, na base de um ostensivo favorecimento de Cavaco Silva em tempos e comentários, construir a imagem de um presidente antecipado.

A segunda: a curiosa e elucidativa constatação do efeito que após «os por­tu­gueses serem fi­nal­mente con­fron­tados com di­versas son­da­gens», isso, «a pu­bli­cação das son­da­gens que davam a Ca­vaco Silva in­ten­ções de voto su­pe­ri­ores a 60 por cento» ter gerado «um fe­nó­meno muito in­te­res­sante». LPM confessa o que alguns sabiam e então denunciavam: O papel tendencioso e manipulatório que as sondagens jogaram, apesar de falsas, como os resultados vieram a demonstrar, no desfecho final destas eleições ao exercer uma pressão intolerável sobre os eleitores, a sua disposição eleitoral e soberania de decisão.

A terceira: o papel decisivo que a campanha «es­sen­ci­al­mente de­cla­ra­tiva» do candidato jogou no desfecho final. LPM vem destapar, ainda que sob uma eufemística expressão, o que há muito alguns já viam desnudado: que tudo se jogava, da estratégia à táctica, na rigorosa programação do candidato para, afastando-o do perigoso e movediço terreno da construção de opinião ou do confronto de ideias, não sair de um registo de declarações previamente construído e decorado.


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