A faísca

Leandro Martins
Não é fácil escrever sobre isto. Mais difícil é ficar calado. Refiro-me ao fenómeno que parece incendiar a Europa e os países islâmicos, criando, de um lado, uma fervente indignação a propósito de um boneco que apareceu num jornal dinamarquês. Uma indignação que já custou mortes e feridos, fogos ateados e embaixadas destruídas; do outro lado, uma estarrecida incompreensão sobre as razões e as raízes de tanta turbulência. «Então já não se pode fazer bonecos e brincar com coisas sérias?», perguntará o cidadão comum. O cidadão incomum, afecto à ideologia da direita «cristã», que terá participado em simulacros de autos de fé quando algum filme lhe fere os sentimentos integristas, é capaz de clamar por uma nova cruzada que esmague o Islão. A comunicação social em geral, socorrendo-se dos seus peritos, hesita entre o deitar água na fervura e o atear de novos fogos. E, por fim, muita gente concorda que se trata de uma questão religiosa, transformada em conflito entre a liberdade ocidental e um fundamentalismo cego.
Sobre o que é o Ocidente e sobre o que são as liberdades, parece que ainda não estamos conversados. Marrocos ou a Argélia estão mais a Ocidente do que a Dinamarca. E a liberdade «ocidental» escreve-se na maioria dos jornais com cifrões.
Que terá levado multidões furiosas a queimar primeiro bandeiras e depois embaixadas, a manifestar ruidosamente a sua indignação perante um cartoon? Certamente a ofensa contida nesse cartoon, dirá o espírito estritamente lógico, não se indagando por que motivo outras ofensas mais graves não terão juntado tanta gente nem tanta fúria.
É que se trata de muito mais do que uma questão religiosa. A religião e a «ofensa» caricaturada foi apenas o pretexto, a faísca que incendiou a planície. Mesmo que movidas por cegos sentimentos religiosos e fundamentalistas, sem a consciência plena do que mostra o movimento que alastra no mundo islâmico, as multidões erguem-se, afinal, perante a injustiça e o imperialismo. O raciocínio não é um chavão. Países e povos cuja cultura se baseia na ancestralidade corânica, sentem-se esmagados perante o mando explorador dos estados imperialistas. O Afeganistão está ocupado; o Iraque sofre uma guerra de ocupação; o Irão é ameaçado; a Palestina, onde as recentes eleições deram a vitória a uma força política do desagrado de Israel e dos Estados Unidos, vê pôr em questão os resultados democráticos da votação maioritária que, agrade ou não, levou o Hamas ao poder.
Uma pequena faísca, um boneco caricaturando o Profeta, lançou o incêndio. Não adianta tentar apagá-lo com desculpas hipócritas.


Mais artigos de: Opinião

Não baixar a guarda!

Os aspectos mais perigosos da «resolução anti-comunista» votada em 25 de Janeiro na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa não passaram. Os sectores mais reaccionários e revanchistas representados naquela instituição – um típico produto da «guerra fria», criado precisamente para minar e combater os Estados...

A importância de ser Vitoriano

Há pessoas que quando morrem não nos deixam apenas saudade. Deixam uma memória tão forte que, ligada à seriedade profunda do seu pensamento, à simplicidade do seu modo de tratar com os outros, ao sorriso da sua face, se vêem juntar ao que de melhor encontrámos e apreciámos na vida.José Vitoriano não esbanjou o percurso...

A confissão

Nada melhor do que os insuspeitos interessados para confessarem aquilo que dito por outros se veria indignadamente recusado por suspeição ou maledicência. Coube a Luís Paixão Martins, do núcleo da candidatura de Cavaco Silva, o louvável papel de vir dizer ao país o que o país pressentia: que o agora recém eleito...

Comendas e transições

Encerrado com resultado proveitoso para a direita o período de campanha e eleição do Presidente da República, surgem amiúde na comunicação social dominante palavras como comendas e transição.A insistência do seu uso em notícias, opiniões e comentários, obriga a uma reflexão sobre o conteúdo que transportam e o papel que...

Pelo desenvolvimento do interior

Em conformidade com as orientações do capitalismo neoliberal, está em curso um ataque brutal do Governo PS aos serviços públicos e funções sociais do Estado, visando implementar o «Estado mínimo» - com a redução drástica das suas responsabilidades sociais e de garantia dos direitos essenciais à vida - e galgando, sem decoro nem escrúpulos de maior, na privatização e liberalização destes bens e serviços públicos.