De Sócrates para Cavaco
É verdade que Cavaco Silva, desde que foi derrotado há dez anos no seu sonho presidencial, se dedicou a tempo inteiro à paciente construção de uma nova oportunidade, com a minúcia que sempre lhe orientou o governo da vida – pessoal, evidentemente, pois mais longe nunca se lhe viu alampar o génio.
É também verdade que, nestes dez anos de esforçada vigília, Cavaco Silva foi tecendo uma trama de silêncio e ausência que, por um lado, procurou diluir no esquecimento a ressentida imagem nacional que deixou a sua tão má como autoritária governação e, por outro, tentou erguer um «perfil providencial» esboçado à peça, no caso através de intervenções públicas tão raras como meticulosamente encenadas.
É ainda verdade que os senhores do grande dinheiro, sempre alerta nos seus interesses, há pelo menos dois anos que se haviam decidido a apostar no professor de Boliqueime para os representar na Presidência da República, como se viu na descarada máquina eleitoral de Cavaco Silva, longamente afinada por milhões de euros e que arrancou pronta, vasta e imediata mal o «aspirante a Presidente» anunciou a sua candidatura, há escassos três meses.
Apesar de tudo isto, se Cavaco Silva conseguiu, finalmente, alcançar o Palácio de Belém pode agradecê-lo, entre muita outra gente, a uma pessoa.
Essa pessoa é José Sócrates, actual Primeiro-Ministro e actual secretário-geral do PS.
Na prática, tudo começou há cerca de um ano, quando o PCP, logo após as eleições legislativas de 20 de Fevereiro (que deram maioria absoluta ao PS), propôs concretamente à direcção do Partido Socialista que fosse analisada em conjunto a questão presidencial, com relevo para a definição de uma candidatura onde os dois partidos pudessem convergir.
A resposta veio, formal e directa, do próprio secretário-geral do PS, José Sócrates, que afirmou então que a questão presidencial só deve ser tratada pelo PS depois das eleições autárquicas.
As eleições autárquicas eram a 7 de Outubro, por acaso o mesmo mês que Cavaco Silva utilizou para formalizar a sua laboriosa candidatura...
É evidente que José Sócrates já previa, há cerca de um ano, o que todo o País estava farto de saber mas já há vários anos, que era a certeza da candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, garantida por múltiplos sinais do putativo candidato, crescentemente ampliados por «tabus» tão fingidos como já mal atamancados.
Pelo que, ao declarar as eleições presidenciais uma questão «a tratar depois das autárquicas», quando o PS não tinha qualquer candidato nem sinal de o ter, José Sócrates estava, irrevogavelmente, a abdicar desta eleição e a abrir caminho à vitória do candidato da direita, já mais que conhecido de tudo e de todos.
Estes são os factos, a que se somaram outros igualmente significativos.
Primeiro, foi a manifesta indiferença da direcção de José Sócrates no resolução da trapalhada que se gerou no PS com a questão presidencial (deserção generalizada de presuntivos candidatos, o avança-e-recua de Manuel Alegre, o inesperado oferecimento de Mário Soares, a fractura do partido com duas candidaturas antagónicas, uma «oficial» e outra de «cidadania»), depois foi a descarada letargia com que o aparelho do PS desenvolveu a campanha do «seu» candidato, onde pulsa, indisfarçável, todo o desinteresse da direcção de José Sócrates na eleição de Mário Soares e, sobretudo, na derrota de Cavaco Silva e da direita que o apoia.
O resultado está à vista. Mas José Sócrates não deve exultar: os jogos à direita podem sair muito caros...
É também verdade que, nestes dez anos de esforçada vigília, Cavaco Silva foi tecendo uma trama de silêncio e ausência que, por um lado, procurou diluir no esquecimento a ressentida imagem nacional que deixou a sua tão má como autoritária governação e, por outro, tentou erguer um «perfil providencial» esboçado à peça, no caso através de intervenções públicas tão raras como meticulosamente encenadas.
É ainda verdade que os senhores do grande dinheiro, sempre alerta nos seus interesses, há pelo menos dois anos que se haviam decidido a apostar no professor de Boliqueime para os representar na Presidência da República, como se viu na descarada máquina eleitoral de Cavaco Silva, longamente afinada por milhões de euros e que arrancou pronta, vasta e imediata mal o «aspirante a Presidente» anunciou a sua candidatura, há escassos três meses.
Apesar de tudo isto, se Cavaco Silva conseguiu, finalmente, alcançar o Palácio de Belém pode agradecê-lo, entre muita outra gente, a uma pessoa.
Essa pessoa é José Sócrates, actual Primeiro-Ministro e actual secretário-geral do PS.
Na prática, tudo começou há cerca de um ano, quando o PCP, logo após as eleições legislativas de 20 de Fevereiro (que deram maioria absoluta ao PS), propôs concretamente à direcção do Partido Socialista que fosse analisada em conjunto a questão presidencial, com relevo para a definição de uma candidatura onde os dois partidos pudessem convergir.
A resposta veio, formal e directa, do próprio secretário-geral do PS, José Sócrates, que afirmou então que a questão presidencial só deve ser tratada pelo PS depois das eleições autárquicas.
As eleições autárquicas eram a 7 de Outubro, por acaso o mesmo mês que Cavaco Silva utilizou para formalizar a sua laboriosa candidatura...
É evidente que José Sócrates já previa, há cerca de um ano, o que todo o País estava farto de saber mas já há vários anos, que era a certeza da candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, garantida por múltiplos sinais do putativo candidato, crescentemente ampliados por «tabus» tão fingidos como já mal atamancados.
Pelo que, ao declarar as eleições presidenciais uma questão «a tratar depois das autárquicas», quando o PS não tinha qualquer candidato nem sinal de o ter, José Sócrates estava, irrevogavelmente, a abdicar desta eleição e a abrir caminho à vitória do candidato da direita, já mais que conhecido de tudo e de todos.
Estes são os factos, a que se somaram outros igualmente significativos.
Primeiro, foi a manifesta indiferença da direcção de José Sócrates no resolução da trapalhada que se gerou no PS com a questão presidencial (deserção generalizada de presuntivos candidatos, o avança-e-recua de Manuel Alegre, o inesperado oferecimento de Mário Soares, a fractura do partido com duas candidaturas antagónicas, uma «oficial» e outra de «cidadania»), depois foi a descarada letargia com que o aparelho do PS desenvolveu a campanha do «seu» candidato, onde pulsa, indisfarçável, todo o desinteresse da direcção de José Sócrates na eleição de Mário Soares e, sobretudo, na derrota de Cavaco Silva e da direita que o apoia.
O resultado está à vista. Mas José Sócrates não deve exultar: os jogos à direita podem sair muito caros...