Uma união de facto

Anabela Fino
Mal foram conhecidos os resultados eleitorais de domingo, uma estranha unanimidade parece ter tomado conta dos comentadores e politólogos encartados da nossa praça: a vitória de Cavaco foi o melhor que podia ter sucedido a Sócrates.
«Elementar, meu caro Watson», dirão os mais dados aos clássicos, da literatura policial e outros. A questão, no entanto, poderá não ser assim tão simples. Se não, vejamos: qual a mensagem que tão insistentemente tem sido transmitida? Transição tranquila de poderes, estabilidade, cooperação institucional, colaboração com o Governo, confiança. Estas são apenas algumas das muitas expressões usadas para transmitir a ideia de que o facto de a Presidência da República ser ocupada, pela primeira vez nos últimos trinta anos, por um representante da direita, mais não é do que um reflexo da «maturidade democrática» do regime, sem outras consequências que o eventual «espevitar» das oposições.
Pelo caminho, sempre há quem vá dizendo que o «estilo» Cavaco – mais interventivo do que o dos seus antecessores – será um incentivo para que Sócrates não se desvie do caminho das «reformas» ditas necessárias para combater o défice e debelar a crise, e que as afinidades entre ambos são muito mais profundas do que se poderia esperar em duas personalidades que, formalmente, se situam em campos políticos distintos.
Dito de outra forma, agora que Cavaco foi eleito, já nada parece obstar a que se afirme, sem subterfúgios, que o próximo Presidente – porque menos sensível às pressões sociais – é o que mais convém ao Governo e às medidas antipopulares que está a implementar, geradoras de inevitável escalada da contestação social.
Mais do que coabitação, o que a eleição de Cavaco veio permitir foi uma «união de facto» dos representantes do capital, que podendo divergir nos meios não discordam quanto aos fins a atingir. E com a vantagem, para melhor enganar os incautos, de apresentar duas faces como se não fossem da mesma moeda.
Com Cavaco em Belém espicaçando São Bento, o mais provável é que Sócrates se empenhe ainda mais em «mostrar serviço», como é costume dos governos do PS seja qual for a facção de turno, sem cuidar que ao fazer o trabalho sujo está a abrir caminho ao sonho da direita de um governo, uma maioria e um presidente.
A factura, já se sabe, será apresentada aos «suspeitos do costume». Não se trata contudo de uma fatalidade, mas antes de mais um obstáculo a que importa fazer face. O mote foi dado na noite das eleições pela candidatura de Jerónimo de Sousa: A luta continua!


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