Genocídio no Ruanda
Permanecem também na sombra a teia de negócios de vendas de armas e financiamento dos dois lados
Há 10 anos iniciava-se o terrível massacre no Ruanda que provocou entre 500 mil e um milhão de mortos. Em Abril de 1994, o derrube do jacto presidencial que causou a morte de Habyarimana, um fiel do neo-colonialismo francês no poder desde 1973, precipitou o país mais densamente povoado de África continental numa carnificina em larga escala que se prolongaria por três meses. Tudo isto perante o aparente desinteresse da chamada «comunidade internacional» – metáfora utilizada para dissimular os interesses das grandes potências capitalistas – e a concomitante ineficácia e falta de meios da Missão da ONU (MINUAR) estacionada no país.
Os fazedores da «opinião pública» exploraram até ao tutano os pavores da «guerra étnica», ajudando à construção da «versão oficial» que descarrega a culpa nos ódios tribais de hutus e tutsis. Ainda em 1994, já depois da FPR do actual presidente do Ruanda, Kagamé, ter entrado na capital, Kigali, como vencedora da guerra, foi criado o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR) que conduz uma investigação superficial e enviesada do processo. Bastará referir que uma das procuradoras que passou pelo TPIR foi Carla Del Ponte que, como é sabido, se notabilizou mais pelo zelo canino demonstrado no processo que incrimina Milosevic e a Jugoslávia e ignora o terrorismo de Estado dos países da NATO, com os EUA à cabeça. Em ambos os tribunais, cumpre-se o mesmo desígnio legitimador de justiça de classe, ao sabor da decadente ordem internacional vigente. A encenação grotesca atingiu o cume quando Kofi Annan, que na altura do genocídio era o responsável das missões de paz da ONU, chorou lágrimas de crocodilo pelo seu efectivo alheamento face ao morticínio.
O diversificado arsenal de manipulação empregue visa ocultar as raízes coloniais do conflito étnico surgido no Ruanda, e desculpabilizar os seus responsáveis históricos. Mas visa, sobretudo, branquear as responsabilidades maiores do neo-colonialismo e do imperialismo e da sua prática exploradora que converte o mundo, e em particular as antigas colónias, em arena onde se disputam esferas de influência e se compete pelo saque e controlo de recursos, economias e povos. Por arrasto, permanecem também na sombra a teia de negócios de vendas de armas e financiamento dos dois lados da guerra civil, a frieza assassina do FMI e BM na gestão dos interesses do grande capital e a instrumentalização da carta e do papel da ONU, quando não o seu ostensivo espezinhamento.
A tragédia do Ruanda é, na sua essência, fruto de uma «luta brutal pelo poder político entre os Hutu do governo de Habyarimana suportado pela França e os Tutsi da Frente Patriótica do Ruanda (FPR) financiados e apoiados militarmente por Washington», em que «as rivalidades étnicas foram usadas deliberadamente na perseguição de objectivos geopolíticos», e o país converteu-se num protectorado dos EUA (Michel Chossudovsky, www.globalresearch.ca/articles/CHO305A.html).
Na base da disputa no Ruanda está um processo complexo de luta política e de classes, num contexto histórico em que o processo de descolonização foi interrompido e subvertido pelas potências capitalistas, e, após o desaparecimento da URSS, os EUA passaram a uma nova fase da ofensiva imperialista, em que emergem como potência com um insaciável apetite hegemónico. Os mitos do conflito tribal e étnico têm sido desmontados por estudos sérios que demonstram que a divisão entre hutus e tutsis – que possuem uma história, cultura e idioma comuns – é uma criação do colonialismo (belga) e das suas concepções e práticas de eugenismo e racismo. A tragédia do Ruanda, por si, apenas, um laboratório de toda a desestabilização que prossegue na região, é expressão das contradições intrínsecas do sistema capitalista em que a necessidade de manutenção da ordem internacional injusta e espoliante é inseparável da luta feroz pela partilha do mundo, transformado em imenso mercado, e do agravamento das contradições e rivalidades inter-imperialistas. Mas o desfecho do Ruanda não é o fim da história. Há que contar (e trabalhar para) com o reforço da luta dos povos e das forças revolucionárias e progressistas.
Os fazedores da «opinião pública» exploraram até ao tutano os pavores da «guerra étnica», ajudando à construção da «versão oficial» que descarrega a culpa nos ódios tribais de hutus e tutsis. Ainda em 1994, já depois da FPR do actual presidente do Ruanda, Kagamé, ter entrado na capital, Kigali, como vencedora da guerra, foi criado o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR) que conduz uma investigação superficial e enviesada do processo. Bastará referir que uma das procuradoras que passou pelo TPIR foi Carla Del Ponte que, como é sabido, se notabilizou mais pelo zelo canino demonstrado no processo que incrimina Milosevic e a Jugoslávia e ignora o terrorismo de Estado dos países da NATO, com os EUA à cabeça. Em ambos os tribunais, cumpre-se o mesmo desígnio legitimador de justiça de classe, ao sabor da decadente ordem internacional vigente. A encenação grotesca atingiu o cume quando Kofi Annan, que na altura do genocídio era o responsável das missões de paz da ONU, chorou lágrimas de crocodilo pelo seu efectivo alheamento face ao morticínio.
O diversificado arsenal de manipulação empregue visa ocultar as raízes coloniais do conflito étnico surgido no Ruanda, e desculpabilizar os seus responsáveis históricos. Mas visa, sobretudo, branquear as responsabilidades maiores do neo-colonialismo e do imperialismo e da sua prática exploradora que converte o mundo, e em particular as antigas colónias, em arena onde se disputam esferas de influência e se compete pelo saque e controlo de recursos, economias e povos. Por arrasto, permanecem também na sombra a teia de negócios de vendas de armas e financiamento dos dois lados da guerra civil, a frieza assassina do FMI e BM na gestão dos interesses do grande capital e a instrumentalização da carta e do papel da ONU, quando não o seu ostensivo espezinhamento.
A tragédia do Ruanda é, na sua essência, fruto de uma «luta brutal pelo poder político entre os Hutu do governo de Habyarimana suportado pela França e os Tutsi da Frente Patriótica do Ruanda (FPR) financiados e apoiados militarmente por Washington», em que «as rivalidades étnicas foram usadas deliberadamente na perseguição de objectivos geopolíticos», e o país converteu-se num protectorado dos EUA (Michel Chossudovsky, www.globalresearch.ca/articles/CHO305A.html).
Na base da disputa no Ruanda está um processo complexo de luta política e de classes, num contexto histórico em que o processo de descolonização foi interrompido e subvertido pelas potências capitalistas, e, após o desaparecimento da URSS, os EUA passaram a uma nova fase da ofensiva imperialista, em que emergem como potência com um insaciável apetite hegemónico. Os mitos do conflito tribal e étnico têm sido desmontados por estudos sérios que demonstram que a divisão entre hutus e tutsis – que possuem uma história, cultura e idioma comuns – é uma criação do colonialismo (belga) e das suas concepções e práticas de eugenismo e racismo. A tragédia do Ruanda, por si, apenas, um laboratório de toda a desestabilização que prossegue na região, é expressão das contradições intrínsecas do sistema capitalista em que a necessidade de manutenção da ordem internacional injusta e espoliante é inseparável da luta feroz pela partilha do mundo, transformado em imenso mercado, e do agravamento das contradições e rivalidades inter-imperialistas. Mas o desfecho do Ruanda não é o fim da história. Há que contar (e trabalhar para) com o reforço da luta dos povos e das forças revolucionárias e progressistas.