Sinais inquietantes no dia depois
Álvaro Uribe decidiu acreditar na mentira auto-imposta de que tinha 75% de aceitação popular e decidiu arriscar o seu capital político num referendo feito supostamente à sua medida – misturava reformas políticas com autopunições ao eleitorado – e perdeu por uma cabazada, que talvez nunca lhe tenha passado pela cabeça. Mas é mau perdedor e quis fazer batota de duas maneiras. Quando o jogo do referendo já estava no final e o resultado era claro, tratou de lhe mudar as regras. Não funcionou. Tentou igualmente de saltar olimpicamente sobre a legalidade constitucional e impor, no Congresso o que não tinha conseguido no referendo. A jogada de off-side também não funcionou e a crise governamental estalou, por essas e outras razões, traduzindo-se numa série de renúncias de funcionários de alto nível, cujos meandros se começam a conhecer lentamente.
Vejamos alguns aspectos da luta interpares, entre civis e militares uribistas, no executivo anterior. Segundo o jornal conservador El Tiempo, nas desinteligências entre Marta Lucía Ramírez e o general Jorge Enrique Mora, respectivamente ex ministra da Defesa e ex comandante das Forças Militares, tudo indica que o presidente se inclinou por Mora, provavelmente devidos aos processos internos que ela teria imposto contra os interesses económicos (e pessoais) dos uniformizados. «Retirar aos militares – acrescenta o jornal – os privilégios da contratação, através da centralização das compras na cabeça de um civil (…) fez muita comichão» e «isso granjeou à ministra muitas inimizades, pois, ao tratar de as tornar mais eficientes e transparentes, encontrou muitas resistências». Os procedimentos da ex ministra, que só tocavam parte das compras militares, teriam significado poupanças na ordem dos 60 mil milhões de pesos, que assim se escapavam em boa medida à rapina dos altos quadros militares.
Historicamente comprometido com as classes dominantes colombianas, El Tiempo trata o assunto com pinças mas lá vai adiantando que «é urgente intervir com decisão nessas repúblicas independentes que são os fundos rotatórios das Forças Militares». E chega um pouco mais longe quando afirma que «É doentio que se faça lei aquela frase de que os civis não se podem meter em temas de segurança e defesa porque não sabem de guerra. Mas sabem de orçamentar, contabilidade, administração, sinergias. Porque é que não se conhece ainda com precisão quanto vai custar o Plano Patriota, o da fase da selva? Porque é que se guarda com tanto segredo esse orçamento? Não deveríamos saber como se vão gastar os 700 mil milhões que vão receber as Forças Militares no ano que vem?» Perguntas incómodas, sem dúvida.
Quase a concluir, El Tiempo lança um este míssil terra-ar: «O sector militar deve entender melhor o que encerra a ideia de “controlo civil” e acostumar-se a que prestar contas não é só mostrar cadáveres e presos». Surpreendente…
Negócios de armas tomar…
e a democracia a finar!
No mesmo dia em que El Tiempo publicou a nota a que nos referimos antes, Molano Bravo, articulista de El Espectador, faz vários comentários tão incisivos como preocupantes para o futuro da democracia colombiana.
Reparemos nalguns deles. «A designação de empresários nas pastas mais importantes – Interior e Defesa – faz pensar, guardadas as proporções, no perigo, denunciado por Eisenhower, que significa para uma democracia o “Complexo Industrial-Militar”». Os números oficias mostram que «as poupanças do Governo ao sacrificar os mais pobres, terminam nas mãos dos militares – incluindo os polícias nesta categoria – que gastam às mãos cheias em partidas secretas (…) ou fazendo negócios “interinstitucionais” como o do Fundo Rotatório do Exército a vender ao Exército 841 mil rações de campanha». Os gastos secretos – reservados, para usar o termo técnico – equivalem à construção de 144 mil casas populares, segundo afirma El Tiempo. E aqui «não se passa nada”.
Talvez passe… Por um lado, são os gastos militares em aumento constante. Pelo outro, a sociedade colombiana, enquanto busca saídas para uma crise que já leva décadas para falar só nos tempos mais recentes, começa a pressentir no horizonte novas ameaças contra os princípios nos quais se fundamenta qualquer democracia que se preze. Voltemos a Molano Bravo: «O governo dos empresários tem antecedentes na nossa história (…) De aí os sinos a rebate de Daniel Samper e Rodrigo Pardo sobre a privatização do gabinete e o desdém de Uribe em relação aos partidos políticos, que são, boas ou más, as únicas correias de transmissão entre o povo e o Príncipe».
E remata: «Some-se a esta obscura perspectiva o grito de Yamid desde Madrid: Colômbia caminha para uma repressão da liberdade de imprensa sem precedentes na história».
Quem isto diz, não esquece que as mordaças da ditadura militar de Rojas Pinillas e as civis dos governos de Ospina e Laureano. E este governo de Álvaro Uribe é o mesmo que merece todos os elogios e apoios do regime de Bush. Tudo natural. Tudo obviamente muito natural.
Vejamos alguns aspectos da luta interpares, entre civis e militares uribistas, no executivo anterior. Segundo o jornal conservador El Tiempo, nas desinteligências entre Marta Lucía Ramírez e o general Jorge Enrique Mora, respectivamente ex ministra da Defesa e ex comandante das Forças Militares, tudo indica que o presidente se inclinou por Mora, provavelmente devidos aos processos internos que ela teria imposto contra os interesses económicos (e pessoais) dos uniformizados. «Retirar aos militares – acrescenta o jornal – os privilégios da contratação, através da centralização das compras na cabeça de um civil (…) fez muita comichão» e «isso granjeou à ministra muitas inimizades, pois, ao tratar de as tornar mais eficientes e transparentes, encontrou muitas resistências». Os procedimentos da ex ministra, que só tocavam parte das compras militares, teriam significado poupanças na ordem dos 60 mil milhões de pesos, que assim se escapavam em boa medida à rapina dos altos quadros militares.
Historicamente comprometido com as classes dominantes colombianas, El Tiempo trata o assunto com pinças mas lá vai adiantando que «é urgente intervir com decisão nessas repúblicas independentes que são os fundos rotatórios das Forças Militares». E chega um pouco mais longe quando afirma que «É doentio que se faça lei aquela frase de que os civis não se podem meter em temas de segurança e defesa porque não sabem de guerra. Mas sabem de orçamentar, contabilidade, administração, sinergias. Porque é que não se conhece ainda com precisão quanto vai custar o Plano Patriota, o da fase da selva? Porque é que se guarda com tanto segredo esse orçamento? Não deveríamos saber como se vão gastar os 700 mil milhões que vão receber as Forças Militares no ano que vem?» Perguntas incómodas, sem dúvida.
Quase a concluir, El Tiempo lança um este míssil terra-ar: «O sector militar deve entender melhor o que encerra a ideia de “controlo civil” e acostumar-se a que prestar contas não é só mostrar cadáveres e presos». Surpreendente…
Negócios de armas tomar…
e a democracia a finar!
No mesmo dia em que El Tiempo publicou a nota a que nos referimos antes, Molano Bravo, articulista de El Espectador, faz vários comentários tão incisivos como preocupantes para o futuro da democracia colombiana.
Reparemos nalguns deles. «A designação de empresários nas pastas mais importantes – Interior e Defesa – faz pensar, guardadas as proporções, no perigo, denunciado por Eisenhower, que significa para uma democracia o “Complexo Industrial-Militar”». Os números oficias mostram que «as poupanças do Governo ao sacrificar os mais pobres, terminam nas mãos dos militares – incluindo os polícias nesta categoria – que gastam às mãos cheias em partidas secretas (…) ou fazendo negócios “interinstitucionais” como o do Fundo Rotatório do Exército a vender ao Exército 841 mil rações de campanha». Os gastos secretos – reservados, para usar o termo técnico – equivalem à construção de 144 mil casas populares, segundo afirma El Tiempo. E aqui «não se passa nada”.
Talvez passe… Por um lado, são os gastos militares em aumento constante. Pelo outro, a sociedade colombiana, enquanto busca saídas para uma crise que já leva décadas para falar só nos tempos mais recentes, começa a pressentir no horizonte novas ameaças contra os princípios nos quais se fundamenta qualquer democracia que se preze. Voltemos a Molano Bravo: «O governo dos empresários tem antecedentes na nossa história (…) De aí os sinos a rebate de Daniel Samper e Rodrigo Pardo sobre a privatização do gabinete e o desdém de Uribe em relação aos partidos políticos, que são, boas ou más, as únicas correias de transmissão entre o povo e o Príncipe».
E remata: «Some-se a esta obscura perspectiva o grito de Yamid desde Madrid: Colômbia caminha para uma repressão da liberdade de imprensa sem precedentes na história».
Quem isto diz, não esquece que as mordaças da ditadura militar de Rojas Pinillas e as civis dos governos de Ospina e Laureano. E este governo de Álvaro Uribe é o mesmo que merece todos os elogios e apoios do regime de Bush. Tudo natural. Tudo obviamente muito natural.