Os alemães descobrem os frankensteins americanos
Esta situação não resulta de nenhum milagre como alguns sectores políticos e sociais com uma visão mais superficial da história poderão ser tentados a concluir. De facto, o muro de mentiras com que o capitalismo durante décadas e décadas enganou os povos quando falava de paz, de justiça social e de democracia está a esmoronar-se.
Nunca como nos últimos anos, meses e dias, foi tão evidente para os povos do mundo inteiro a natureza exploradora e a essência antidemocrática e agressiva do capitalismo. Basta ver o que se passa na Jugoslávia onde o povo já recusou três vezes consecutivas votar num regime «eleito» pelas bombas da NATO. Situação idêntica verifica-se na Alemanha, onde não só a abstenção obtém níveis nunca vistos mas onde se sucedem os programas televisivos denunciando a união pessoal entre os grandes monopólios, o presidente Bush e a administração norte-americana, com reportagens como «O Cartel» (ARD). Aí se explica a milhões de telespectadores as ligações íntimas existentes entre a família Bush, a Enron, o complexo militar-industrial e o cartel do petróleo texano.
As ditaduras fundamentalistas implantadas por Washington com a ajuda de terroristas como Bin Laden, e ainda há pouco tempo consideradas grandes baluartes na defesa dos interesses do «mundo livre», são apresentadas nos ecrãs como verdadeiros monstros criados pelos frankensteins da política externa e dos serviços secretos norte-americanos. A chantagem exercida pela administração Bush sobre os povos do mundo inteiro aparece aos olhos de sectores cada vez mais numerosos da própria classe dirigente alemã como uma cópia dos métodos de Hitler.
Capital norte-americano
ajuda o nazismo
Até a ladainha de Washington de que os EUA teriam salvo a Europa do nazismo e do holocausto (aliás escondendo os vinte milhões de mortos da URSS e a libertação de Ausschwitz pelo Exército Vermelho) é desmascarada pelo primeiro canal da TV alemã (ARD), numa documentação muito concreta sobre «a ajuda do capital norte-americana ao nazismo». Apesar de se tratar de um tema até hoje considerado tabu na Alemanha, milhões de espectadores puderam constatar como, sem a ajuda da «General Motors», os camiões militares da Wehrmacht e as colunas motorizadas da guerra relâmpago nunca teriam conseguido chegar a Praga e a Viena; ouviram surpreendidos que o combustível com que os aviões nazis bombardearam Londres, Coventry, Birmingham, Liverpool, Manchester e Paymouth veio da Inglaterra e dos EUA (Standard-Oil); e verificaram como sem o novo sistema dos cartões perfurados fornecido pela «IBM» à máquina de extermínio hitleriana nunca teria sido possível organizar o trabalho escravo de um modo tão perfeito e eficaz.
O mito da existência de um «capitalismo democrático» norte-americano que desde a primeira hora se tivesse oposto ao nazismo caiu por terra numa simples reportagem de quarenta e cinco minutos. O processo de aprendizagem histórica do povo alemão nunca foi tão vasto, profundo e intenso como neste momento.
A demagogia ludibriante de uma nova ordem «democrática» e «libertadora» para o Médio Oriente apresentada recentemente por Bush é questionada na ARD em programas como «a visão de Bush da "democracia" à bomba».
Não é só o Iraque
que está em causa
A imprensa de esquerda alemã comenta mais este embuste imperialista nos seguintes termos: «a ideia da "liberdade" é o combustível que alimenta a máquina de guerra dos EUA. Bush afirmou num encontro com industriais norte-americanos que "um Iraque libertado poderá dar uma nova esperança a milhões de pessoas". A guerra "humanitária" está a ser substituída pela guerra "libertadora". Mas porque é que as sociedades árabes tratadas do outro lado do Atlântico com tantos cuidados "democráticos" ainda não se libertaram? A resposta é fácil. Porque até hoje ainda não se conseguiram libertar do domínio norte-americano. As burguesias nacionais árabes alinham umas vezes com o imperialismo contra as massas populares e outras vezes com as massas populares contra o
imperialismo. Uma das finalidades da guerra contra o Iraque é a de impedir a sublevação dos povos da região. A "democratização" de que fala Washington tem por objectivo bloquear o processo emancipador das nações árabes. Não se trata só do Iraque. O
objectivo é tornar irreversível no Médio Oriente a dependência dos povos árabes face a Washington e colocar toda a região sob o domínio da globalização neo-imperialista. Os regimes amigos da América encontram-se num processo de apodrecimento. Enquanto negação dos direitos nacionais, sociais e democráticos dos respectivos povos, não poderão resistir por muito mais tempo à pressão das classes exploradas. É por isso que os Estados Unidos pretendem antecipar-se. A alucinação de Bush de que após a implantação de mais uma nova ordem americana no Médio Oriente chegará o momento de apagar todos os focos de incêndio, inclusive com a fundação de um Estado Palestiniano ao lado de Israel, pressupõe que os palestinianos aceitem serem encarcerados por uma potência estrangeira em bantustões ao estilo do aparheid. O carácter antidemocrático das sociedades árabes deve-se ao facto de as soluções terem sido sempre impostas por potências imperialista. Mas aos visionários "libertadores" do Pentágono não lhes interessa perceber isto.» (Junge Welt, 28. 2. 03).
Enquanto na Alemanha os sectores politicamente mais conscientes compreendem perfeitamente a estratégia e os objectivos do imperialismo norte-americano, o capital alemão e de outras potências da União Europeia, como a França, encontra-se visivelmente numa fase de desorientação, surpreendido por uma afirmação tão rápida e brutal da hegemonia norte-americana.
A ilusão da guerra
contra o terrorismo
Num trabalho intitulado «A nova ordem bélica mundial» (Bremen, 2002) o professor Merhard Sauermann sublinha que depois do 11 de Setembro, sobretudo a Alemanha «alimentou a ilusão de que aderindo ao círculo das potências bélicas "contra o terrorismo
internacional" poderia prosseguir os seus próprios interesses políticos e económicos (à escala mundial). Mas os EUA não estão na disposição de compartilhar o seu poderio político-militar nem de aceitar qualquer espécie de limitação à imposição dos seus próprios
interesses. No Afeganistão verifica-se uma situação caracterizada pela exibição de um poder real fundado na presença militar ilimitada norte-americana, ao lado de uma impotente força de protecção da ONU confinada a Kabul e entregue a vários estados, entre eles a Alemanha. Washington exibe perante o mundo inteiro o papel de segunda e terceira classe desempenhado por parceiros como a Inglaterra, a França e a Alemanha».
E Sauermann conclui que «a "guerra permanente" iniciada em Setembro de 2001 visa objectivos de domínio geopolíco nas regiões do mundo que ainda não se encontram suficientemente controladas pelo capital norte-americano e o seu aparelho de Estado. Estamos perante um agravamento da concorrência entre as potências imperialistas. Uma
das vantagens decisiva desta guerra (para Washington) consiste em que os Estados Unidos é que ditam aos seus aliados as regras, as medidas e o tipo de acções. Mas isto foi sempre assim. Só que depois do 11 de Setembro de 2001 passou a ser doutrina oficial apesar de os aliados não terem querido acreditar.»
As matilhas disputam a presa
De facto alguns dos mais abnegados cúmplices e parceiros europeus dos Estados Unidos no processo de globalização imperialista só agora se apercebem da rapidez com que Washington repele aliados desobedientes, os ameaça e trata como se fossem verdadeiros inimigos. Surpreendido por esta nova situação, o grande capital alemão e francês lança por um lado uma campanha de lamúrias contra o perigo de divisões insanáveis no seio da NATO e da EU, e por outro lado grita que mais uma guerra no Médio Oriente terá consequências nefastas para os negócios e a economia da União Europeia.
Os Estados Unidos procuram ocupar Bagdad o mais rapidamente possível e instalar ali um regime de marionetas semelhante aos que já reinam em Belgrado e em Kabul, afastando assim concorrentes incómodos como a França, a Alemanha e a Rússia. Estas últimas potências, incapazes de concorrer com Washington no plano militar, jogam a cartada do protectorado da ONU com o objectivo idêntico de fazerem vergar o Iraque mas também de obrigarem os Estados Unidos a compartilhar o seu domínio no Médio Oriente. As matilhas que se preparam para devorar as riquezas do subsolo iraquiano e controlar política e militarmente a região disputam entre si a presa e prosseguem estratégias diferentes segundo os interesses contraditórios em jogo. Mas estão de acordo quanto ao resultado final, que visa em última instância liquidar a independência e a soberania do Iraque e de todos povos que lhes resistam. Por isso, parece-nos não só exagerado mas completamente descabido o optimismo de Ignacio Ramonet expresso no seu último artigo «De la guerra perpétuelle» (Le Monde Diplomatique / 3.2003), ao concluir que a França e a Alemanha, ao contrário da «guerra perpétua» de Bush, apostam na «paz perpétua».
A participação recente da França e da Alemanha em intervenções militares na Jugoslávia e no Afeganistão, a adesão ao chamado «novo conceito estratégico» da NATO, os esforços de Paris e de Berlim para a formação rápida de uma força militar de intervenção europeia, assim como as «directivas para a política de Defesa» aprovadas pela Alemanha em 1991 e que abriram as portas à intervenção da Bundeswehr no mundo inteiro, não permitem tirar tal conclusão. A França e a Alemanha participarão na próxima guerra que o capital daquelas duas potências considere necessária à afirmação dos seus objectivos geoestratégicos, seja sob o manto da guerra «contra o terrorismo», «humanitária» ou «libertadora».