Os alemães descobrem os frankensteins americanos

Rui Paz
O meio milhão de pessoas que a 15 de Fevereiro se manifestou em Berlim e as centenas de milhares que nos últimos meses têm vindo a fazer ouvir o seu protesto nas ruas, confirmam que a esmagadora maioria do povo alemão recusa apoiar mais um ciclo de guerras imperialistas. A mobilização pela a paz atinge níveis inéditos na história da Alemanha, apesar de uma correlação de forças internacional muito mais desfavorável às forças progressistas do que a que se verificava nos anos oitenta, no momento das grandiosas manifestações contra o estacionamento dos Persching II.

Esta situação não resulta de nenhum milagre como alguns sectores políticos e sociais com uma visão mais superficial da história poderão ser tentados a concluir. De facto, o muro de mentiras com que o capitalismo durante décadas e décadas enganou os povos quando falava de paz, de justiça social e de democracia está a esmoronar-se.

Nunca como nos últimos anos, meses e dias, foi tão evidente para os povos do mundo inteiro a natureza exploradora e a essência antidemocrática e agressiva do capitalismo. Basta ver o que se passa na Jugoslávia onde o povo já recusou três vezes consecutivas votar num regime «eleito» pelas bombas da NATO. Situação idêntica verifica-se na Alemanha, onde não só a abstenção obtém níveis nunca vistos mas onde se sucedem os programas televisivos denunciando a união pessoal entre os grandes monopólios, o presidente Bush e a administração norte-americana, com reportagens como «O Cartel» (ARD). Aí se explica a milhões de telespectadores as ligações íntimas existentes entre a família Bush, a Enron, o complexo militar-industrial e o cartel do petróleo texano.

As ditaduras fundamentalistas implantadas por Washington com a ajuda de terroristas como Bin Laden, e ainda há pouco tempo consideradas grandes baluartes na defesa dos interesses do «mundo livre», são apresentadas nos ecrãs como verdadeiros monstros criados pelos frankensteins da política externa e dos serviços secretos norte-americanos. A chantagem exercida pela administração Bush sobre os povos do mundo inteiro aparece aos olhos de sectores cada vez mais numerosos da própria classe dirigente alemã como uma cópia dos métodos de Hitler.


Capital norte-americano
ajuda o nazismo


Até a ladainha de Washington de que os EUA teriam salvo a Europa do nazismo e do holocausto (aliás escondendo os vinte milhões de mortos da URSS e a libertação de Ausschwitz pelo Exército Vermelho) é desmascarada pelo primeiro canal da TV alemã (ARD), numa documentação muito concreta sobre «a ajuda do capital norte-americana ao nazismo». Apesar de se tratar de um tema até hoje considerado tabu na Alemanha, milhões de espectadores puderam constatar como, sem a ajuda da «General Motors», os camiões militares da Wehrmacht e as colunas motorizadas da guerra relâmpago nunca teriam conseguido chegar a Praga e a Viena; ouviram surpreendidos que o combustível com que os aviões nazis bombardearam Londres, Coventry, Birmingham, Liverpool, Manchester e Paymouth veio da Inglaterra e dos EUA (Standard-Oil); e verificaram como sem o novo sistema dos cartões perfurados fornecido pela «IBM» à máquina de extermínio hitleriana nunca teria sido possível organizar o trabalho escravo de um modo tão perfeito e eficaz.

O mito da existência de um «capitalismo democrático» norte-americano que desde a primeira hora se tivesse oposto ao nazismo caiu por terra numa simples reportagem de quarenta e cinco minutos. O processo de aprendizagem histórica do povo alemão nunca foi tão vasto, profundo e intenso como neste momento.

A demagogia ludibriante de uma nova ordem «democrática» e «libertadora» para o Médio Oriente apresentada recentemente por Bush é questionada na ARD em programas como «a visão de Bush da "democracia" à bomba».


Não é só o Iraque
que está em causa


A imprensa de esquerda alemã comenta mais este embuste imperialista nos seguintes termos: «a ideia da "liberdade" é o combustível que alimenta a máquina de guerra dos EUA. Bush afirmou num encontro com industriais norte-americanos que "um Iraque libertado poderá dar uma nova esperança a milhões de pessoas". A guerra "humanitária" está a ser substituída pela guerra "libertadora". Mas porque é que as sociedades árabes tratadas do outro lado do Atlântico com tantos cuidados "democráticos" ainda não se libertaram? A resposta é fácil. Porque até hoje ainda não se conseguiram libertar do domínio norte-americano. As burguesias nacionais árabes alinham umas vezes com o imperialismo contra as massas populares e outras vezes com as massas populares contra o

imperialismo. Uma das finalidades da guerra contra o Iraque é a de impedir a sublevação dos povos da região. A "democratização" de que fala Washington tem por objectivo bloquear o processo emancipador das nações árabes. Não se trata só do Iraque. O

objectivo é tornar irreversível no Médio Oriente a dependência dos povos árabes face a Washington e colocar toda a região sob o domínio da globalização neo-imperialista. Os regimes amigos da América encontram-se num processo de apodrecimento. Enquanto negação dos direitos nacionais, sociais e democráticos dos respectivos povos, não poderão resistir por muito mais tempo à pressão das classes exploradas. É por isso que os Estados Unidos pretendem antecipar-se. A alucinação de Bush de que após a implantação de mais uma nova ordem americana no Médio Oriente chegará o momento de apagar todos os focos de incêndio, inclusive com a fundação de um Estado Palestiniano ao lado de Israel, pressupõe que os palestinianos aceitem serem encarcerados por uma potência estrangeira em bantustões ao estilo do aparheid. O carácter antidemocrático das sociedades árabes deve-se ao facto de as soluções terem sido sempre impostas por potências imperialista. Mas aos visionários "libertadores" do Pentágono não lhes interessa perceber isto.» (Junge Welt, 28. 2. 03).

Enquanto na Alemanha os sectores politicamente mais conscientes compreendem perfeitamente a estratégia e os objectivos do imperialismo norte-americano, o capital alemão e de outras potências da União Europeia, como a França, encontra-se visivelmente numa fase de desorientação, surpreendido por uma afirmação tão rápida e brutal da hegemonia norte-americana.


A ilusão da guerra
contra o terrorismo


Num trabalho intitulado «A nova ordem bélica mundial» (Bremen, 2002) o professor Merhard Sauermann sublinha que depois do 11 de Setembro, sobretudo a Alemanha «alimentou a ilusão de que aderindo ao círculo das potências bélicas "contra o terrorismo

internacional" poderia prosseguir os seus próprios interesses políticos e económicos (à escala mundial). Mas os EUA não estão na disposição de compartilhar o seu poderio político-militar nem de aceitar qualquer espécie de limitação à imposição dos seus próprios

interesses. No Afeganistão verifica-se uma situação caracterizada pela exibição de um poder real fundado na presença militar ilimitada norte-americana, ao lado de uma impotente força de protecção da ONU confinada a Kabul e entregue a vários estados, entre eles a Alemanha. Washington exibe perante o mundo inteiro o papel de segunda e terceira classe desempenhado por parceiros como a Inglaterra, a França e a Alemanha».

E Sauermann conclui que «a "guerra permanente" iniciada em Setembro de 2001 visa objectivos de domínio geopolíco nas regiões do mundo que ainda não se encontram suficientemente controladas pelo capital norte-americano e o seu aparelho de Estado. Estamos perante um agravamento da concorrência entre as potências imperialistas. Uma

das vantagens decisiva desta guerra (para Washington) consiste em que os Estados Unidos é que ditam aos seus aliados as regras, as medidas e o tipo de acções. Mas isto foi sempre assim. Só que depois do 11 de Setembro de 2001 passou a ser doutrina oficial apesar de os aliados não terem querido acreditar.»


As matilhas disputam a presa


De facto alguns dos mais abnegados cúmplices e parceiros europeus dos Estados Unidos no processo de globalização imperialista só agora se apercebem da rapidez com que Washington repele aliados desobedientes, os ameaça e trata como se fossem verdadeiros inimigos. Surpreendido por esta nova situação, o grande capital alemão e francês lança por um lado uma campanha de lamúrias contra o perigo de divisões insanáveis no seio da NATO e da EU, e por outro lado grita que mais uma guerra no Médio Oriente terá consequências nefastas para os negócios e a economia da União Europeia.

Os Estados Unidos procuram ocupar Bagdad o mais rapidamente possível e instalar ali um regime de marionetas semelhante aos que já reinam em Belgrado e em Kabul, afastando assim concorrentes incómodos como a França, a Alemanha e a Rússia. Estas últimas potências, incapazes de concorrer com Washington no plano militar, jogam a cartada do protectorado da ONU com o objectivo idêntico de fazerem vergar o Iraque mas também de obrigarem os Estados Unidos a compartilhar o seu domínio no Médio Oriente. As matilhas que se preparam para devorar as riquezas do subsolo iraquiano e controlar política e militarmente a região disputam entre si a presa e prosseguem estratégias diferentes segundo os interesses contraditórios em jogo. Mas estão de acordo quanto ao resultado final, que visa em última instância liquidar a independência e a soberania do Iraque e de todos povos que lhes resistam. Por isso, parece-nos não só exagerado mas completamente descabido o optimismo de Ignacio Ramonet expresso no seu último artigo «De la guerra perpétuelle» (Le Monde Diplomatique / 3.2003), ao concluir que a França e a Alemanha, ao contrário da «guerra perpétua» de Bush, apostam na «paz perpétua».

A participação recente da França e da Alemanha em intervenções militares na Jugoslávia e no Afeganistão, a adesão ao chamado «novo conceito estratégico» da NATO, os esforços de Paris e de Berlim para a formação rápida de uma força militar de intervenção europeia, assim como as «directivas para a política de Defesa» aprovadas pela Alemanha em 1991 e que abriram as portas à intervenção da Bundeswehr no mundo inteiro, não permitem tirar tal conclusão. A França e a Alemanha participarão na próxima guerra que o capital daquelas duas potências considere necessária à afirmação dos seus objectivos geoestratégicos, seja sob o manto da guerra «contra o terrorismo», «humanitária» ou «libertadora».



Mais artigos de: Em Foco

A guerra anunciada

O ataque dos EUA ao Iraque está iminente. Quando as bombas começarem a cair sobre Bagdad e tiver início a chacina não será apenas o povo iraquiano a tombar vítima do império norte-americano. Nesse preciso momento consumar-se-á a morte do direito e da ordem internacionais como os conhecemos até agora, e sob o clamor da bombas, numa orgia de sangue e destruição, Washington dará à luz o monstro que há muito vem alimentando nas suas entranhas.
Os argumentos invocados pelos senhores da guerra instalados na Casa Branca para atacar o Iraque não passam de pretextos facilmente desmontáveis, como se comprova no dossier que o Avante!  hoje publica. O repúdio dos povos de todo o mundo não fez ainda abortar este atentado contra a humanidade, mas por mais dolorosa que seja a era que agora se inicia, ela é simultaneamente o princípio do seu próprio fim. Quando mais nada resta senão a força o poder é efémero.

Neste dossier:

• Anabela Fino - Um império orgulhosamente só
• André Levy - Fazer a guerra antes que o barro seque
• Jorge Cadima - Mentiras e crimes de guerra
• Luís Carapinha - A Rússia insustentável
• Miguel Urbano Rodrigues - A humanidade contra o IV Reich
• Rui Paz - Os alemães descobrem os "frankensteins" americanos
• Rui Namorado Rosa - Uma guerra contra o mundo

Um império orgulhosamente só

A escassos dias de terminar o ultimato imposto ao Iraque - dia 17 - já não restam dúvidas de que os EUA, acolitados pela Grã-Bretanha, vão atacar o Iraque com ou sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É o desfecho previsível da encenação há muito montada para lançar mão ao petróleo e a uma região do mundo considerada de «interesse vital» para os norte-americanos.

Fazer a guerra antes que o barro seque

Enquanto o mundo reagia com horror às imagens dos ataques terroristas do onze de Setembro de 2001, elementos da Administração Bush viam o evento como uma fantástica oportunidade. Assim o descreveu explicitamente a Conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice: «Um tremor de terra da magnitude do 11 de Setembro pode mudar as placas tectónicas da política internacional. [O pós 11 de Setembro marca um período] não só de grande perigo, mas também de enorme oportunidade. Antes que o barro solidifique de novo, os EUA e os nossos aliados devem mover-se decisivamente para tirar proveito das novas oportunidades.»

Mentiras e crimes de guerra

«O Mundo assinalará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroxima, uma base militar. Tal facto resulta da nossa intenção de, neste primeiro ataque, evitar tanto quanto possível a morte de civis». Estas palavras do então presidente dos EUA, Harry Truman, foram proferidas no dia 9 de Agosto de 1945, num discurso transmitido pela rádio(1). Aquilo que realmente permitiram ao mundo assinalar é que a natureza criminosa e genocida da classe dirigente norte-americana é apenas igualada pelo seu cinismo e pela sua incomparável capacidade para a mentira mais despudorada.

A Rússia insustentável

Neste início de século, a guerra chega de novo a zonas não muito distantes das fronteiras da Federação Russa pela mão dos Estados Unidos. A intervenção militar americana no Afeganistão, a pretexto da denominada campanha internacional contra o terrorismo decorrente dos atentados de 11 de Setembro, que mereceu o apoio da direcção russa, foi o prelúdio para um ano negro para os interesses e segurança da Rússia: 2002 ficou assinalado, nas palavras do general Ivachov, antigo alto funcionário do Ministério da Refesa russo, demitido pelo actual ministro da tutela após pressões de Washington, por o «recuo geopolítico de Moscovo em todas as direcções estratégicas» (Sovietskaya Rossia, 06.03.03).

A humanidade contra o IV Reich *

O 15 de Fevereiro de 2003 ficará como data de viragem na grande aventura da humanidade.

Em centenas de cidades da Europa, da Ásia, da América, da África e da Oceânia milhões de pessoas saíram nesse dia às ruas para se manifestarem contra a guerra, respondendo ao apelo do Fórum Social Mundial. Nunca antes acontecera algo similar. Foi a primeira manifestação de protesto global da História.

Uma guerra contra o mundo

No confronto pela hegemonia económica e política mundial, o declínio do império britânico é perceptível desde o último quartel do século XIX. Tornou-se então patente a intensa competição entre as potências emergentes, com destaque para os EUA e a Alemanha, que haviam concluído os respectivos processos de consolidação interna e iniciado já a expansão externa. A Conferência de Berlim (1884-85), que realizou a «partilha do mundo» entre as potências europeias, é sintomática do declínio do império britânico, e assinala um novo passo na escalada da globalização capitalista.