Mentiras e crimes de guerra

Jorge Cadima
«O Mundo assinalará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroxima, uma base militar. Tal facto resulta da nossa intenção de, neste primeiro ataque, evitar tanto quanto possível a morte de civis». Estas palavras do então presidente dos EUA, Harry Truman, foram proferidas no dia 9 de Agosto de 1945, num discurso transmitido pela rádio(1). Aquilo que realmente permitiram ao mundo assinalar é que a natureza criminosa e genocida da classe dirigente norte-americana é apenas igualada pelo seu cinismo e pela sua incomparável capacidade para a mentira mais despudorada.

Três dias antes deste discurso, o imperialismo norte-americano lançara a primeira bomba atómica, não sobre uma «base militar», mas sobre o centro de uma cidade de 245 000 habitantes. Numa fracção de segundo, mais de 100 000 pessoas perderam a vida e outros tantos foram feridos e atingidos pela radioactividade(2). Para os sobreviventes deste holocausto o destino seria talvez ainda mais terrível do que a morte. No momento em que o presidente Truman falava na «nossa intenção de, neste primeiro ataque, evitar tanto quanto possível a morte de civis», os criminosos de guerra que presidiam à maior potência do capitalismo democrático-ocidental-de-economia-de-mercado haviam já lançado a segunda bomba atómica da História. De novo contra um alvo civil, a cidade de Nagasaqui. De novo com largas dezenas de milhar de mortos civis.

Quando hoje ouvimos Bush ou Blair falar de armas de destruição massiva, convém lembrar que até hoje nenhum presidente dos EUA se arrependeu ou pediu desculpas pelos crimes atómicos dos EUA em 1945. Pelo contrário, o «liberal» Clinton assinalou os 50 anos do ataque atómico afirmando que os EUA não deviam pedir desculpa e que Truman havia tomado a decisão correcta(3).

As guerra posteriores viram a utilização pelas Forças Armadas dos EUA dum formidável arsenal de armas, incluíndo armas não-convencionais: Agente Laranja, napalm, bombas de fragmentação, urânio empobrecido. Eis o que o norte-americano Gregory Elich escreve(4): «quatro milhões de coreanos perderam a vida na Guerra da Coreia de 1950-53. [...] No primeiro ano dessa guerra, a 5 de Novembro de 1950, o General Douglas MacArthur ordenou a destruição de "todos os meios de comunicação, todas as instalações, fábricas, cidades e aldeias" numa área compreendida entre o Rio Yalu e a frente de batalha. A primeira cidade a ser arrasada foi Sinuiju, e rapidamente se começou a usar napalm nos bombardeamentos contra civis. Mais de 2300 galões de napalm foram despejado sobre Pyongyang numa única incursão, em Julho de 1952. Bombardeamentos de grande intensidade arrasaram sistematicamente vila após vila, e os aviões dos EUA também alvejaram centrais eléctricas e barragens para irrigação de campos de arroz. À medida que as barragens de irrigação eram destruídas, as aldeias a jusante iam sendo arrastadas pelas cheias resultantes, provocando numerosas mortes e enorme destruição. Por várias vezes durante essa Guerra, os EUA consideraram a utilização de armas nucleares tácticas. [...] De acordo com o General Curtis LeMay(5), "Arrasámos praticamente todas as cidades quer da Coreia do Norte, quer da Coreia do Sul" e "matámos mais de um milhão de civis coreanos e expulsámos alguns milhões mais das suas casas"».


O agressor arma-se em vítima


Os crimes de guerra dos EUA no Vietname são mais conhecidos e documentados(6). Da mesma forma, é conhecida a fabricação pelos EUA de um incidente «justificativo» da sua intervenção militar no Vietname: o pretenso ataque vietnamita ao navio norte-americano Maddox, que se teria verificado nos primeiros dias de Agosto de 1964 no Golfo do Tonquim. No dia 7 desse mesmo mês o Parlamento dos EUA concedeu plenos poderes ao presidente Johnson para «tomar todas as medidas necessárias para repelir qualquer ataque armado contra as forças dos Estados Unidos e impedir ulteriores agressões»(7).

Então, como hoje, o agressor mente e arma-se em vítima para «justificar» a sua agressão. Daniel Ellsberg, que na altura trabalhava para o governo Johnson e que mais tarde haveria de divulgar publicamente muitas das mentiras que rodearam a agressão norte-americana no Vietname (os famosos Pentagon Papers) afirma: «McNamara [então ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA] mentiu ao Congresso em 1964? Posso responder a essa questão. Sim, mentiu, e eu tinha consciência disso na altura. Eu trabalhava para John McNaughton, era seu assistente especial. Ele era vice-ministro da Defesa para os Assuntos de Segurança Internacional. Ele sabia que McNamara tinha mentido. McNamara sabia que tinha mentido. E continua ainda hoje a mentir»(8).

Basta substituir os nomes e parece que estamos a ler notícias dos nossos dias. No início de Fevereiro deste ano, o primeiro-ministro britânico apresentou no Parlamento de Westminster um relatório de 19 páginas, dando a entender tratar-se de informações dos Serviços Secretos britânicos, que comprovariam a necessidade de atacar o Iraque. No seu já famoso discurso perante o Conselho de Segurança, em 5 de Fevereiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA, Colin Powell, referiu-se a esse relatório afirmando: «desejo chamar a atenção dos meus colegas para o excelente documento que o Reino Unido distribuiu ontem e que descreve com pormenores requintados as actividades de embuste do Iraque». Poucas horas mais tarde, o Canal 4 da TV britânica divulgava a notícia de que o relatório de Blair era uma colagem de velhos artigos de revistas, relativos a factos que se teriam passado há mais de dez anos. O relatório plagiava parágrafos inteiros, com erros tipográficos e gramaticais, mas alterando expressões, aqui e além, para dar um ar mais sinistro às actividades descritas: «organizações oposicionistas» passavam a ser «grupos terroristas», por exemplo. Mais do que um plágio, o «excelente documento» era uma fraude(9). O «embuste» era, afinal, anglo-norte-americano. É impossível não recordar McNamara ao ouvir Powell afirmar no Conselho de Segurança: «meus colegas, todas as declarações que faço hoje baseiam-se em fontes, fontes sólidas. Não se trata de alegações. O que vos transmitimos hoje são factos e conclusões baseadas em informações sólidas».


Os crimes anunciados


As mentiras sucedem-se em catadupa. Frequentemente são confessados pela própria comunicação social das potências imperialistas, e mais ainda agora que as comadres andam desavindas: quem, ao longo dos anos 80, forneceu o material para os programas iraquianos de armas não-convencionais, foram empresas europeias e norte-americanas(10), geralmente com autorização dos respectivos governos que viam no Iraque um instrumento útil contra a Revolução Islâmica iraniana(11). O genro de Saddam Hussein, que fugiu do Iraque em 1995, informou as Nações Unidas e os Serviços Secretos ocidentais que as armas iraquianas não-convencionais foram destruídas após a Guerra do Golfo de 1991, mas essa informação «inconveniente» foi mantida em segredo(12). Os inspectores da ONU actualmente no Iraque consideram que as «informações» fornecidas pelos EUA sobre o pretenso programa de armas não-convencionais do Iraque são «lixo, lixo e mais lixo»(13).

O rol prossegue, e ainda a guerra mal começou...

A acompanhar as mentiras, os crimes cometidos e em preparação, anunciados em títulos recentes da comunicação social: «EUA ponderam ataque nuclear táctico contra o Iraque» (Los Angeles Times, 25.1.03); «A opção nuclear no Iraque: os EUA baixaram a fasquia para a utilização da arma derradeira» (Los Angeles Times, 26.1.03); «Tornando as armas nucleares utilizáveis» (Los Angeles Times, 3.2.03); «Pentágono considera novos usos para as armas nucleares» (Financial Times, 19.2.03); «EUA preparam-se para usar gases tóxicos no Iraque» (Independent on Sunday, 2.3.03); «ONU prevê 500 000 baixas iraquianas no início da guerra» (Reuters, 7.1.03); «Blair: a seguir será a Coreia do Norte» (Guardian, 29.1.03); «EUA planeiam guerra total contra Kim [Jong Il, dirigente da Coreia do Norte]» (Scotland on Sunday, 23.2.03). O comentarista do New York Times N. Kristof escreve (28.2.03): «Algum do trabalho mais secreto e assustador hoje em curso no Pentágono é a planificação dum possível ataque militar às instalações nucleares na Coreia do Norte. [...] Paradoxalmente, a gravidade da situação ainda não é totalmente compreendida, quer na Coreia do Sul, quer no Japão, em parte porque consideram que este Governo [dos EUA] não seria suficientemente louco como para considerar um ataque militar contra a Coreia do Norte. Estão enganados».

A História ensina que o imperialismo é capaz dos maiores crimes, e das mentiras mais despudoradas. Que ninguém subestime os perigos que a Humanidade hoje enfrenta. Que ninguém se deixe enganar.

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1 - O texto completo do discurso encontra-se publicado em Public Papers of the Presidents of the United States: Harry S. Truman, Containing the Public Messages, Speeches and Statements of the President April 12 to December 31, 1945 (Washington DC, United States Government Printing Office, 1961, página 212). Este extracto encontra-se na Internet, em http://www.dannen.com/decision/hst-ag09.html

2 - Números retirados do livro Hiroshima, do jornalista norte-americano John Hersey (Penguin Books, 1966), um relato desse crime-mor da História da Humanidade, baseado nos relatos de sobreviventes.

3 - Remarks by the President to the American Society of Newspaper Editors, 7 de Abril, 1995, consultável na página da Casa Branca na Internet. Rezam as actas desse encontro que os directores de jornais que escutavam o presidente aplaudiram a resposta.

4 - Em http://www.globalresearch.ca/articles/ELI212A.html , um artigo onde também se pode encontrar muita informação de interesse sobre as actuais provocações belicistas do imperialismo norte-americano contra a República Democrática e Popular da Coreia.

5 - Que mais tarde se haveria de notabilizar, durante a Guerra do Vietname, ao defender que os EUA deveriam bombardear aquele país «de regresso à Idade da Pedra».

6 - Veja-se, por exemplo, o livro de Bertrand Russell Crimes de Guerra no Vietname, Brasília Editora, s/d.

7 - O texto completo da Resolução Conjunta do Congresso dos EUA 1145 de 7 de Agosto de 1964 pode ser consultado em http://www.luminet.net/%7Etgort/tonkin.htm

8 Citado num artigo do Coronel do Exército EUA, Ronnie E. Ford, na revista Vietnam e reproduzido em http://militaryhistory.about.com/library/prm/blnewlightongulfoftonkin4.htm

9 - Veja-se http://www.fromthewilderness.com/free/ww3/020603_plagiarized.html , um artigo de Michael Ruppert com apontadores para a notícia do Canal 4, para o Relatório oficial britânico e para um dos artigos plagiados.

10 - A lista foi publicada pelo jornal alemão Die Tageszeitung.

11 - Newsweek 23.9.02.

12 - Newsweek, 3.3.03.

13 - Página na Internet do canal da TV americana CBS (20.2.03), que acrescenta ter a palavra utilizada sido bem mais veemente do que «lixo».



Mais artigos de: Em Foco

A guerra anunciada

O ataque dos EUA ao Iraque está iminente. Quando as bombas começarem a cair sobre Bagdad e tiver início a chacina não será apenas o povo iraquiano a tombar vítima do império norte-americano. Nesse preciso momento consumar-se-á a morte do direito e da ordem internacionais como os conhecemos até agora, e sob o clamor da bombas, numa orgia de sangue e destruição, Washington dará à luz o monstro que há muito vem alimentando nas suas entranhas.
Os argumentos invocados pelos senhores da guerra instalados na Casa Branca para atacar o Iraque não passam de pretextos facilmente desmontáveis, como se comprova no dossier que o Avante!  hoje publica. O repúdio dos povos de todo o mundo não fez ainda abortar este atentado contra a humanidade, mas por mais dolorosa que seja a era que agora se inicia, ela é simultaneamente o princípio do seu próprio fim. Quando mais nada resta senão a força o poder é efémero.

Neste dossier:

• Anabela Fino - Um império orgulhosamente só
• André Levy - Fazer a guerra antes que o barro seque
• Jorge Cadima - Mentiras e crimes de guerra
• Luís Carapinha - A Rússia insustentável
• Miguel Urbano Rodrigues - A humanidade contra o IV Reich
• Rui Paz - Os alemães descobrem os "frankensteins" americanos
• Rui Namorado Rosa - Uma guerra contra o mundo

Um império orgulhosamente só

A escassos dias de terminar o ultimato imposto ao Iraque - dia 17 - já não restam dúvidas de que os EUA, acolitados pela Grã-Bretanha, vão atacar o Iraque com ou sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É o desfecho previsível da encenação há muito montada para lançar mão ao petróleo e a uma região do mundo considerada de «interesse vital» para os norte-americanos.

Fazer a guerra antes que o barro seque

Enquanto o mundo reagia com horror às imagens dos ataques terroristas do onze de Setembro de 2001, elementos da Administração Bush viam o evento como uma fantástica oportunidade. Assim o descreveu explicitamente a Conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice: «Um tremor de terra da magnitude do 11 de Setembro pode mudar as placas tectónicas da política internacional. [O pós 11 de Setembro marca um período] não só de grande perigo, mas também de enorme oportunidade. Antes que o barro solidifique de novo, os EUA e os nossos aliados devem mover-se decisivamente para tirar proveito das novas oportunidades.»

A Rússia insustentável

Neste início de século, a guerra chega de novo a zonas não muito distantes das fronteiras da Federação Russa pela mão dos Estados Unidos. A intervenção militar americana no Afeganistão, a pretexto da denominada campanha internacional contra o terrorismo decorrente dos atentados de 11 de Setembro, que mereceu o apoio da direcção russa, foi o prelúdio para um ano negro para os interesses e segurança da Rússia: 2002 ficou assinalado, nas palavras do general Ivachov, antigo alto funcionário do Ministério da Refesa russo, demitido pelo actual ministro da tutela após pressões de Washington, por o «recuo geopolítico de Moscovo em todas as direcções estratégicas» (Sovietskaya Rossia, 06.03.03).

A humanidade contra o IV Reich *

O 15 de Fevereiro de 2003 ficará como data de viragem na grande aventura da humanidade.

Em centenas de cidades da Europa, da Ásia, da América, da África e da Oceânia milhões de pessoas saíram nesse dia às ruas para se manifestarem contra a guerra, respondendo ao apelo do Fórum Social Mundial. Nunca antes acontecera algo similar. Foi a primeira manifestação de protesto global da História.

Os alemães descobrem os frankensteins americanos

O meio milhão de pessoas que a 15 de Fevereiro se manifestou em Berlim e as centenas de milhares que nos últimos meses têm vindo a fazer ouvir o seu protesto nas ruas, confirmam que a esmagadora maioria do povo alemão recusa apoiar mais um ciclo de guerras imperialistas. A mobilização pela a paz atinge níveis inéditos na história da Alemanha, apesar de uma correlação de forças internacional muito mais desfavorável às forças progressistas do que a que se verificava nos anos oitenta, no momento das grandiosas manifestações contra o estacionamento dos Persching II.

Uma guerra contra o mundo

No confronto pela hegemonia económica e política mundial, o declínio do império britânico é perceptível desde o último quartel do século XIX. Tornou-se então patente a intensa competição entre as potências emergentes, com destaque para os EUA e a Alemanha, que haviam concluído os respectivos processos de consolidação interna e iniciado já a expansão externa. A Conferência de Berlim (1884-85), que realizou a «partilha do mundo» entre as potências europeias, é sintomática do declínio do império britânico, e assinala um novo passo na escalada da globalização capitalista.