A Rússia insustentável

Luís Carapinha
Neste início de século, a guerra chega de novo a zonas não muito distantes das fronteiras da Federação Russa pela mão dos Estados Unidos. A intervenção militar americana no Afeganistão, a pretexto da denominada campanha internacional contra o terrorismo decorrente dos atentados de 11 de Setembro, que mereceu o apoio da direcção russa, foi o prelúdio para um ano negro para os interesses e segurança da Rússia: 2002 ficou assinalado, nas palavras do general Ivachov, antigo alto funcionário do Ministério da Refesa russo, demitido pelo actual ministro da tutela após pressões de Washington, por o «recuo geopolítico de Moscovo em todas as direcções estratégicas» (Sovietskaya Rossia, 06.03.03).

O fardo com que o Kremlin se apresenta perante a guerra imperialista americana imposta ao Iraque é realmente pesado. Putin não se opôs à entrada de soldados dos EUA em antigas repúblicas soviéticas na Ásia Central. Tropas americanas estão assim, desde finais de 2001 e início de 2002, sem prazo de retirada, deslocadas no Usbequistão, Tadjiquistão e Quirguizistão, preparando-se para se aquartelar também no vasto e rico em petróleo Casaquistão (onde multinacionais norte-americanas do sector petrolífero já operam há alguns anos).

Noutra região sensível - a Transcaucásia - os EUA também vincam a sua presença, aumentando o seu contingente militar estacionado na Geórgia, país que possui fronteira com a Tchetchénia. Na frente ocidental, Moscovo assiste ao alargamento da NATO até às suas fronteiras (com a entrada da Lituânia, Letónia e Estónia, para além de outros quatro países da Europa Oriental, na cimeira de Praga no final de 2002). Outras duas antigas repúblicas soviéticas, a Ucrânia e a Geórgia, reafirmaram o seu desejo de aderir à NATO, enquanto incrementam a sua «cooperação» militar com a aliança. Uns meses antes, os EUA tinham consumado o abandono unilateral do tratado ABM (defesa anti-míssil), no âmbito do seu projecto de implementação de um escudo nacional de defesa anti-míssil e da «guerra das estrelas».

Perante este cenário, aliado a factores sérios de fragilidade interna, e não esquecendo a guerra que se arrasta na Tchetchénia, seria de esperar um estado de alerta máximo em Moscovo. No entanto, a direcção russa parece continuar a menosprezar o peso dos factores de crescente ameaça à segurança nacional e o retrocesso generalizado nas zonas da sua tradicional influência. Putin, apesar de algumas hesitações e de todo o «jogo» táctico, tem reafirmado a importância da parceria estratégica com os Estados Unidos.


A armadilha


Debaixo do guarda-chuva da luta anti-terrorista que o presidente russo adoptou, legitima-se o uso indiscriminado da violência e a deriva para o estado policial o que parece corresponder às necessidades imediatas do regime. O novo (velho) imperialismo russo espreita mas o seu parto antevê-se doloroso, num país que, por seu lado, se encontra sob a forte influência do imperialismo americano.

Os Estados Unidos são visceralmente contra a constituição de um Estado forte no espaço pós-soviético e têm-no impedido (veja-se a estagnação e impotência da União da Rússia-Bielorússia, que não avança desde a sua fundação em 1996, devido à falta de vontade política da direcção russa). O presidente Putin saberá as linhas com que se cose na teia dos poderosos grupos oligárquicos pró-ocidentais que dominam o país, transformando-o num apêndice de recursos naturais ao serviço da globalização imperialista, cada vez mais sob o signo da hegemonia norte-americana.
Por outro lado, o processo que conduz a economia do maior país do mundo a uma dimensão anã, é causador de devastação em todos os domínios, desde o social à defesa, ameaçando atingir novos pontos de ruptura num futuro próximo. As tensões e contradições dentro do próprio sistema de poder avolumam-se e aprofundam-se. Um antigo ministro de vários governos de Ieltsin, da escola ultra-liberal, constatava recentemente que «a Rússia caiu na armadilha» dos grandes grupos privados que dominam o Estado e «constituem o principal obstáculo à modernização do país» (strana.ru, 31.01.03).
A intensificação da postura arrogante e belicista norte-americana - de que o Iraque constitui o exemplo mais recente - e a evidência de que o «alinhamento estratégico» russo com os EUA funciona só num sentido, acentuam a perturbação nos corredores do poder do Kremlin e potenciam o aparecimento de clivagens. A total subordinação de Moscovo, mascarada de parceria, não chegou sequer para que os EUA suspendessem, conforme repetidas vezes prometido, a emenda Jackson-Vanik que impõe uma série de restrições ao comércio com a Rússia. E quanto ao Conselho Nato-Rússia (um órgão essencialmente formal), apresentado por Putin como contrapeso ao alargamento da NATO, a sua existência parece ter-se esfumado.

Em última análise, o alinhamento russo com a política expansionista de Washington vai ao encontro dos anseios de um segmento do poder russo - a «quinta coluna» - que vê o cerco económico e militar dos EUA ao país como factor de garantia da sua ascensão e segurança. A hipótese de num futuro mais próximo do que longínquo, à luz da progressiva degradação geral do país, este sector puder vir a desencadear uma intervenção de forças militares norte-americanas em território russo, não é totalmente descabida. Aliás, uma intervenção de tropas americanas não seria inédita na história russa.


Agravamento das contradições


O espaço de «manobra vital» do regime, de capitulação e recuo estratégico, sem que a Rússia entre novamente em convulsão aberta, está, contudo, a esgotar-se. A guerra no Iraque é um factor suplementar de agravamento de contradições, desequilíbrios e divisões no seio do regime e na sociedade russa em geral que, na sua maioria, não vê com bons olhos a intervenção americana. O êxito da ocupação americana do Iraque colocará em risco os interesses de grupos poderosos na Rússia. No início do ano corrente, companhias russas assinaram contratos de concessão de exploração petrolífera com o Iraque no valor de 3,4 mil milhões de dólares, depois de em Dezembro se ter chegado a noticiar a rescisão, pelo Iraque, de um contrato anterior com a companhia russa Lukoil. Para além disso, o controlo americano do petróleo iraquiano baixará, previsivelmente, o preço do crude no mercado internacional, afectando a débil economia russa, consideravelmente dependente dos ingressos da venda de petróleo, e atingindo duramente os interesses das petrolíferas russas. A Rússia aspira igualmente à antiga dívida «soviética» do Iraque, equivalente a 8 mil milhões de dólares.
Para além das perdas económicas, Moscovo não pode deixar de ver com apreensão, as consequências geopolíticas da conversão do Iraque num protectorado dos EUA. A domesticação do Iraque coloca sob a mira do imperialismo norte-americano países como a Irão e a Síria, habituais clientes da indústria militar russa e importantes parceiros económicos de Moscovo (principalmente o Irão), o que poderá abrir as portas, num futuro próximo, ao total domínio americano no flanco sul do Cáspio. Recorde-se que os Estados Unidos já incluíram o Cáspio na categoria de «zona de interesse estratégico» e estão a promover o mega projecto de construção do oleoduto Baku-Tbilissi-Ceyan (Turquia), o que possibilitará desviar da Rússia o petróleo que sai do Azerbaijão.
A guerra no Iraque, gigantesca acção de terrorismo de estado, contribuirá, inevitavelmente, para o recrudescimento do fundamentalismo e terrorismo islâmicos, ao contrário do que os EUA cinicamente afirmam. O alastramento da violência favorece, objectivamente, as ambições e estratégia de domínio global perpétuo dos Estados Unidos. Os arautos da doutrina reaccionária do «choque de civilizações» agradecerão. Esta será sempre, porém, uma perspectiva perigosa e armadilhada para a multinacional Federação Russa.
A crise no Iraque veio demonstrar que dificilmente o actual estado da Rússia poderá ser sustentável por um período longo de tempo.



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A guerra anunciada

O ataque dos EUA ao Iraque está iminente. Quando as bombas começarem a cair sobre Bagdad e tiver início a chacina não será apenas o povo iraquiano a tombar vítima do império norte-americano. Nesse preciso momento consumar-se-á a morte do direito e da ordem internacionais como os conhecemos até agora, e sob o clamor da bombas, numa orgia de sangue e destruição, Washington dará à luz o monstro que há muito vem alimentando nas suas entranhas.
Os argumentos invocados pelos senhores da guerra instalados na Casa Branca para atacar o Iraque não passam de pretextos facilmente desmontáveis, como se comprova no dossier que o Avante!  hoje publica. O repúdio dos povos de todo o mundo não fez ainda abortar este atentado contra a humanidade, mas por mais dolorosa que seja a era que agora se inicia, ela é simultaneamente o princípio do seu próprio fim. Quando mais nada resta senão a força o poder é efémero.

Neste dossier:

• Anabela Fino - Um império orgulhosamente só
• André Levy - Fazer a guerra antes que o barro seque
• Jorge Cadima - Mentiras e crimes de guerra
• Luís Carapinha - A Rússia insustentável
• Miguel Urbano Rodrigues - A humanidade contra o IV Reich
• Rui Paz - Os alemães descobrem os "frankensteins" americanos
• Rui Namorado Rosa - Uma guerra contra o mundo

Um império orgulhosamente só

A escassos dias de terminar o ultimato imposto ao Iraque - dia 17 - já não restam dúvidas de que os EUA, acolitados pela Grã-Bretanha, vão atacar o Iraque com ou sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É o desfecho previsível da encenação há muito montada para lançar mão ao petróleo e a uma região do mundo considerada de «interesse vital» para os norte-americanos.

Fazer a guerra antes que o barro seque

Enquanto o mundo reagia com horror às imagens dos ataques terroristas do onze de Setembro de 2001, elementos da Administração Bush viam o evento como uma fantástica oportunidade. Assim o descreveu explicitamente a Conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice: «Um tremor de terra da magnitude do 11 de Setembro pode mudar as placas tectónicas da política internacional. [O pós 11 de Setembro marca um período] não só de grande perigo, mas também de enorme oportunidade. Antes que o barro solidifique de novo, os EUA e os nossos aliados devem mover-se decisivamente para tirar proveito das novas oportunidades.»

Mentiras e crimes de guerra

«O Mundo assinalará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroxima, uma base militar. Tal facto resulta da nossa intenção de, neste primeiro ataque, evitar tanto quanto possível a morte de civis». Estas palavras do então presidente dos EUA, Harry Truman, foram proferidas no dia 9 de Agosto de 1945, num discurso transmitido pela rádio(1). Aquilo que realmente permitiram ao mundo assinalar é que a natureza criminosa e genocida da classe dirigente norte-americana é apenas igualada pelo seu cinismo e pela sua incomparável capacidade para a mentira mais despudorada.

A humanidade contra o IV Reich *

O 15 de Fevereiro de 2003 ficará como data de viragem na grande aventura da humanidade.

Em centenas de cidades da Europa, da Ásia, da América, da África e da Oceânia milhões de pessoas saíram nesse dia às ruas para se manifestarem contra a guerra, respondendo ao apelo do Fórum Social Mundial. Nunca antes acontecera algo similar. Foi a primeira manifestação de protesto global da História.

Os alemães descobrem os frankensteins americanos

O meio milhão de pessoas que a 15 de Fevereiro se manifestou em Berlim e as centenas de milhares que nos últimos meses têm vindo a fazer ouvir o seu protesto nas ruas, confirmam que a esmagadora maioria do povo alemão recusa apoiar mais um ciclo de guerras imperialistas. A mobilização pela a paz atinge níveis inéditos na história da Alemanha, apesar de uma correlação de forças internacional muito mais desfavorável às forças progressistas do que a que se verificava nos anos oitenta, no momento das grandiosas manifestações contra o estacionamento dos Persching II.

Uma guerra contra o mundo

No confronto pela hegemonia económica e política mundial, o declínio do império britânico é perceptível desde o último quartel do século XIX. Tornou-se então patente a intensa competição entre as potências emergentes, com destaque para os EUA e a Alemanha, que haviam concluído os respectivos processos de consolidação interna e iniciado já a expansão externa. A Conferência de Berlim (1884-85), que realizou a «partilha do mundo» entre as potências europeias, é sintomática do declínio do império britânico, e assinala um novo passo na escalada da globalização capitalista.