A Rússia insustentável
O fardo com que o Kremlin se apresenta perante a guerra imperialista americana imposta ao Iraque é realmente pesado. Putin não se opôs à entrada de soldados dos EUA em antigas repúblicas soviéticas na Ásia Central. Tropas americanas estão assim, desde finais de 2001 e início de 2002, sem prazo de retirada, deslocadas no Usbequistão, Tadjiquistão e Quirguizistão, preparando-se para se aquartelar também no vasto e rico em petróleo Casaquistão (onde multinacionais norte-americanas do sector petrolífero já operam há alguns anos).
Noutra região sensível - a Transcaucásia - os EUA também vincam a sua presença, aumentando o seu contingente militar estacionado na Geórgia, país que possui fronteira com a Tchetchénia. Na frente ocidental, Moscovo assiste ao alargamento da NATO até às suas fronteiras (com a entrada da Lituânia, Letónia e Estónia, para além de outros quatro países da Europa Oriental, na cimeira de Praga no final de 2002). Outras duas antigas repúblicas soviéticas, a Ucrânia e a Geórgia, reafirmaram o seu desejo de aderir à NATO, enquanto incrementam a sua «cooperação» militar com a aliança. Uns meses antes, os EUA tinham consumado o abandono unilateral do tratado ABM (defesa anti-míssil), no âmbito do seu projecto de implementação de um escudo nacional de defesa anti-míssil e da «guerra das estrelas».
Perante este cenário, aliado a factores sérios de fragilidade interna, e não esquecendo a guerra que se arrasta na Tchetchénia, seria de esperar um estado de alerta máximo em Moscovo. No entanto, a direcção russa parece continuar a menosprezar o peso dos factores de crescente ameaça à segurança nacional e o retrocesso generalizado nas zonas da sua tradicional influência. Putin, apesar de algumas hesitações e de todo o «jogo» táctico, tem reafirmado a importância da parceria estratégica com os Estados Unidos.
A armadilha
Debaixo do guarda-chuva da luta anti-terrorista que o presidente russo adoptou, legitima-se o uso indiscriminado da violência e a deriva para o estado policial o que parece corresponder às necessidades imediatas do regime. O novo (velho) imperialismo russo espreita mas o seu parto antevê-se doloroso, num país que, por seu lado, se encontra sob a forte influência do imperialismo americano.
Os Estados Unidos são visceralmente contra a constituição de um Estado forte no espaço pós-soviético e têm-no impedido (veja-se a estagnação e impotência da União da Rússia-Bielorússia, que não avança desde a sua fundação em 1996, devido à falta de vontade política da direcção russa). O presidente Putin saberá as linhas com que se cose na teia dos poderosos grupos oligárquicos pró-ocidentais que dominam o país, transformando-o num apêndice de recursos naturais ao serviço da globalização imperialista, cada vez mais sob o signo da hegemonia norte-americana.
Por outro lado, o processo que conduz a economia do maior país do mundo a uma dimensão anã, é causador de devastação em todos os domínios, desde o social à defesa, ameaçando atingir novos pontos de ruptura num futuro próximo. As tensões e contradições dentro do próprio sistema de poder avolumam-se e aprofundam-se. Um antigo ministro de vários governos de Ieltsin, da escola ultra-liberal, constatava recentemente que «a Rússia caiu na armadilha» dos grandes grupos privados que dominam o Estado e «constituem o principal obstáculo à modernização do país» (strana.ru, 31.01.03).
A intensificação da postura arrogante e belicista norte-americana - de que o Iraque constitui o exemplo mais recente - e a evidência de que o «alinhamento estratégico» russo com os EUA funciona só num sentido, acentuam a perturbação nos corredores do poder do Kremlin e potenciam o aparecimento de clivagens. A total subordinação de Moscovo, mascarada de parceria, não chegou sequer para que os EUA suspendessem, conforme repetidas vezes prometido, a emenda Jackson-Vanik que impõe uma série de restrições ao comércio com a Rússia. E quanto ao Conselho Nato-Rússia (um órgão essencialmente formal), apresentado por Putin como contrapeso ao alargamento da NATO, a sua existência parece ter-se esfumado.
Em última análise, o alinhamento russo com a política expansionista de Washington vai ao encontro dos anseios de um segmento do poder russo - a «quinta coluna» - que vê o cerco económico e militar dos EUA ao país como factor de garantia da sua ascensão e segurança. A hipótese de num futuro mais próximo do que longínquo, à luz da progressiva degradação geral do país, este sector puder vir a desencadear uma intervenção de forças militares norte-americanas em território russo, não é totalmente descabida. Aliás, uma intervenção de tropas americanas não seria inédita na história russa.
Agravamento das contradições
O espaço de «manobra vital» do regime, de capitulação e recuo estratégico, sem que a Rússia entre novamente em convulsão aberta, está, contudo, a esgotar-se. A guerra no Iraque é um factor suplementar de agravamento de contradições, desequilíbrios e divisões no seio do regime e na sociedade russa em geral que, na sua maioria, não vê com bons olhos a intervenção americana. O êxito da ocupação americana do Iraque colocará em risco os interesses de grupos poderosos na Rússia. No início do ano corrente, companhias russas assinaram contratos de concessão de exploração petrolífera com o Iraque no valor de 3,4 mil milhões de dólares, depois de em Dezembro se ter chegado a noticiar a rescisão, pelo Iraque, de um contrato anterior com a companhia russa Lukoil. Para além disso, o controlo americano do petróleo iraquiano baixará, previsivelmente, o preço do crude no mercado internacional, afectando a débil economia russa, consideravelmente dependente dos ingressos da venda de petróleo, e atingindo duramente os interesses das petrolíferas russas. A Rússia aspira igualmente à antiga dívida «soviética» do Iraque, equivalente a 8 mil milhões de dólares.
Para além das perdas económicas, Moscovo não pode deixar de ver com apreensão, as consequências geopolíticas da conversão do Iraque num protectorado dos EUA. A domesticação do Iraque coloca sob a mira do imperialismo norte-americano países como a Irão e a Síria, habituais clientes da indústria militar russa e importantes parceiros económicos de Moscovo (principalmente o Irão), o que poderá abrir as portas, num futuro próximo, ao total domínio americano no flanco sul do Cáspio. Recorde-se que os Estados Unidos já incluíram o Cáspio na categoria de «zona de interesse estratégico» e estão a promover o mega projecto de construção do oleoduto Baku-Tbilissi-Ceyan (Turquia), o que possibilitará desviar da Rússia o petróleo que sai do Azerbaijão.
A guerra no Iraque, gigantesca acção de terrorismo de estado, contribuirá, inevitavelmente, para o recrudescimento do fundamentalismo e terrorismo islâmicos, ao contrário do que os EUA cinicamente afirmam. O alastramento da violência favorece, objectivamente, as ambições e estratégia de domínio global perpétuo dos Estados Unidos. Os arautos da doutrina reaccionária do «choque de civilizações» agradecerão. Esta será sempre, porém, uma perspectiva perigosa e armadilhada para a multinacional Federação Russa.
A crise no Iraque veio demonstrar que dificilmente o actual estado da Rússia poderá ser sustentável por um período longo de tempo.