O espantalho da “ameaça externa”
Perante um quadro internacional de extraordinária complexidade e incerteza, é importante ter presente a tese do PCP de que os grandes perigos para a paz e para a liberdade dos povos coexistem com reais possibilidades de desenvolvimentos progressistas e revolucionários, assim como traços fundamentais da situação apontados pelo nosso XXII Congresso, tais como: aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, processo de rearrumação de forças desfavorável ao imperialismo, prosseguimento da luta libertadora dos trabalhadores e dos povos. Sem isso a situação torna-se incompreensível, caótica, sem alternativa.
A verdade é que a própria estratégia de confrontação do imperialismo, que ameaça o mundo, é inseparável das contradições e dificuldades que atravessam o mundo capitalista. Dos EUA ao Japão, passando pelo continente europeu, todas as potências capitalistas vivem, numa escala maior ou menor, sérios problemas económicos e financeiros, contestação social, crise política. Como compreender, aliás, a corrida aos armamentos e o espantalho da “ameaça russa” senão como a alimentação de um foco de tensão e de guerra que sirva de pretexto para o ataque às condições de vida dos trabalhadores, a direitos e liberdades fundamentais e para o branqueamento e normalização do fascismo, como está a acontecer no nosso próprio país?
A par do vergonhoso rastejar de Mark Rutte e de Von der Leyen diante do presidente dos EUA, é nesta lógica que se situa o frenesim dos governos da França, do Reino Unido, da Alemanha e outros que, a pretexto de “garantias de segurança” à Ucrânia, estão a sabotar uma solução negociada do conflito e, em articulação (conflituosa) com os EUA, a reforçar provocatoriamente as forças militares no leste da Europa. Isto ao mesmo tempo que se lançam no ataque aos direitos sociais, como na França de E. Macron (que levou à queda do governo e à greve geral de 18 de Setembro), na Alemanha com F. Merz, o do slogan “a Alemanha está de volta”, que acompanhou o ambicioso programa militar alemão, a afirmar que “o Estado social como o conhecemos hoje não é mais economicamente sustentável”, ou no Reino Unido, onde o apoio ao governo trabalhista de K. Starmer, com a sua política antipopular e repressiva, cai a pique nas sondagens. Em Portugal, a declaração de guerra aos trabalhadores que o pacote laboral representa e o brutal aumento das despesas destinadas à guerra inscrevem-se nesta ofensiva global a que o governo sujeita o País.
Os desafios que estão colocados aos comunistas e a todas as forças democráticas e anti-imperialistas são de alcance histórico. O grande capital financeiro e especulativo, que comanda o sistema capitalista, está disposto a vender cara a vida, não hesita em cometer crimes hediondos, como na Palestina, nem mesmo em colocar o mundo no limiar de uma catástrofe nuclear. Mas não tem as mãos livres. Do terreno da luta de classes, do combate dos trabalhadores contra a exploração e opressão capitalista, da luta dos povos em defesa da sua soberania, do processo de arrumação de forças que aponta a uma ordem mundial livre da hegemonia imperialista, chegam notícias que – como a greve dos trabalhadores franceses, a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, as celebrações na China do 80.º aniversário da derrota da agressão japonesa ou o crescendo das manifestações de solidariedade com o povo palestiniano – dão força e confiança à nossa própria luta.




