Diz-me com quem andas...

João Frazão

Dois acontecimentos desta semana fizeram-me pensar neste provérbio popular que, não se podendo aplicar sempre a régua e esquadro, nestes casos diz muito dos seus protagonistas.

O primeiro foi a degradante (mais uma) conferência de imprensa de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, ao lado de Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, em que o primeiro, sempre apoiado em sectores muito diversos do capital, admitiu pressões sobre órgãos de comunicação social para afastarem trabalhadores por causa de comentários sobre tal ou tal situação, para, em momento seguinte, assumir que gostaria de fazer o caminho para pôr mesmo em causa as licenças de emissão de estações de televisão que teçam comentários que lhe sejam desfavoráveis.

Tudo isto sem que Starmer, também líder do Partido Trabalhista (às vezes podemos esquecer-nos, mas é mesmo), tenha esboçado a mais leve crítica ou distanciamento, depois de se ter referido ao visitante como «meu amigo, nosso amigo» e a ambos como «líderes que se respeitam e líderes que gostam genuinamente um do outro».

Num outro plano, soube-se que Ventura, um dos reaccionários mores do País, almoçou com Gouveia e Melo, o militar “moderado” que já votou no PS e no PSD, para, segundo o próprio, verificarem se haviam intersecções entre os seus projectos. Gouveia e Melo, que procura dar de si a imagem do democrata fora do sistema, continua à pesca de apoios no sistema e, sublinhe-se, no pior que o sistema tem parido no nosso País.

Após cada um destes momentos, cada um dos seus protagonistas, para público conhecimento e alívio da consciência, pode bem rosnar os dentes atirando críticas e afirmando publicamente diferenças e até antagonismos, que de facto não têm.

Mas, na verdade, e descontando as exigências institucionais, o que estas promiscuidades revelam é a grande intersecção da social-democracia e do grande centrão do sistema capitalista com as formas mais reaccionárias que, em cada momento, são o instrumento do capital para assegurar as suas políticas com o objectivo de agravar a exploração e a concentração da riqueza e destas, que sempre se anunciam como sendo contra e mesmo fora do sistema, com o próprio sistema.

Mesmo que alguns batam no peito a falar do amor à esquerda, à democracia ou à liberdade.



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