Cínicos até dizer chega!
Não figurará nos sete pecados mortais, mas o cinismo será das mais deploráveis expressões de comportamento e carácter. Nele se reúnem e misturam falsidade e insinuação, fingimento e hipocrisia. Uma atitude que povoa posicionamentos políticos assentes na demagogia, formas de agir baseadas no ludibrio e, de forma crescente, na viciação dos critérios editoriais dominantes na comunicação social.
É ver directores de informação, responsáveis por editorias, jornalistas/comentadores e vice-versa a escorrer conversa e a estender prosa sobre os perigos da extrema-direita, sobre a desproporcionada expressão dada à promoção de concepções reaccionárias e fascizantes, todos, ou quase todos, naquele cínico lamuriar de quem, fingindo-se incomodado, o faz ignorando a contribuição decisiva para que o que lamentam seja, em larga medida, responsabilidade sua.
Vale a pena olhar, pela ilustração que proporciona, para o que a tríade de instrumentos comunicacionais associada ao Grupo Impresa nos proporcionou no findar da passada semana. Meio jornal, passe a ampliação ilustrativa, de um semanário que se diz ser de referência, dedicado a promover um partido de extrema-direita, a propósito de todos e mais algum assunto – seja ele o Orçamento do Estado, as eleições presidenciais ou o processo eleitoral autárquico – num registo que se aproxima do que a folha informativa daquele partido seria capaz de editar. Mais do que, porventura, posicionamentos ditados por simpatias partidárias de quem naquele jornal é responsável pela sua edição, o que ali se expressa é a subordinação da autonomia editorial ao comando imposto pela opção do grupo económico. Não se tratou de descuido ou acto isolado, mas de uma cuidada construção, articulada com o canal televisivo do grupo. Não fosse suficiente o destaque de primeira página a uma forjada “sondagem”, que colocaria a candidata reaccionária alegadamente a disputar a autarquia de Sintra, aí tivemos o braço televisivo do grupo (que dias antes importara sem justificação, para o debate de Lisboa, o representante do partido ao serviço do qual estão) a promover uma reportagem junto da população daquele concelho, não fosse a operação promocional não surtir o alcance almejado.
Quando por aí se ouvir aquela conversa sobre o papel que o tik-tok, redes sociais e fake news têm na projecção das forças e projectos reaccionários e fascizantes, mais avisado será adicionar o que a comunicação social, em volume não inferior, garante a esse objectivo.




