Cínicos até dizer chega!

Jorge Cordeiro

Não figurará nos sete pecados mortais, mas o cinismo será das mais deploráveis expressões de comportamento e carácter. Nele se reúnem e misturam falsidade e insinuação, fingimento e hipocrisia. Uma atitude que povoa posicionamentos políticos assentes na demagogia, formas de agir baseadas no ludibrio e, de forma crescente, na viciação dos critérios editoriais dominantes na comunicação social.

É ver directores de informação, responsáveis por editorias, jornalistas/comentadores e vice-versa a escorrer conversa e a estender prosa sobre os perigos da extrema-direita, sobre a desproporcionada expressão dada à promoção de concepções reaccionárias e fascizantes, todos, ou quase todos, naquele cínico lamuriar de quem, fingindo-se incomodado, o faz ignorando a contribuição decisiva para que o que lamentam seja, em larga medida, responsabilidade sua.

Vale a pena olhar, pela ilustração que proporciona, para o que a tríade de instrumentos comunicacionais associada ao Grupo Impresa nos proporcionou no findar da passada semana. Meio jornal, passe a ampliação ilustrativa, de um semanário que se diz ser de referência, dedicado a promover um partido de extrema-direita, a propósito de todos e mais algum assunto – seja ele o Orçamento do Estado, as eleições presidenciais ou o processo eleitoral autárquico – num registo que se aproxima do que a folha informativa daquele partido seria capaz de editar. Mais do que, porventura, posicionamentos ditados por simpatias partidárias de quem naquele jornal é responsável pela sua edição, o que ali se expressa é a subordinação da autonomia editorial ao comando imposto pela opção do grupo económico. Não se tratou de descuido ou acto isolado, mas de uma cuidada construção, articulada com o canal televisivo do grupo. Não fosse suficiente o destaque de primeira página a uma forjada “sondagem”, que colocaria a candidata reaccionária alegadamente a disputar a autarquia de Sintra, aí tivemos o braço televisivo do grupo (que dias antes importara sem justificação, para o debate de Lisboa, o representante do partido ao serviço do qual estão) a promover uma reportagem junto da população daquele concelho, não fosse a operação promocional não surtir o alcance almejado.

Quando por aí se ouvir aquela conversa sobre o papel que o tik-tok, redes sociais e fake news têm na projecção das forças e projectos reaccionários e fascizantes, mais avisado será adicionar o que a comunicação social, em volume não inferior, garante a esse objectivo.



Mais artigos de: Opinião

Conheces e confias

A duas semanas das eleições autárquicas, assumimos esta batalha eleitoral como a principal prioridade da intervenção do Partido. Para trás fica um trabalho hercúleo, onde nos desdobrámos ao longo de meses a construir as listas da CDU, envolvendo para cima de 12 mil candidatos sem filiação...

O espantalho da “ameaça externa”

Perante um quadro internacional de extraordinária complexidade e incerteza, é importante ter presente a tese do PCP de que os grandes perigos para a paz e para a liberdade dos povos coexistem com reais possibilidades de desenvolvimentos progressistas e revolucionários, assim como traços fundamentais da situação apontados...

Genocídio em seis alíneas

O crime de genocídio encontra-se definido no direito internacional: implica a prática de «actos intencionais destinados à destruição, total ou parcial, de um grupo nacional, étnico, rácico ou religioso». Na semana passada, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre os Territórios Palestinianos Ocupados,...

Diz-me com quem andas...

Dois acontecimentos desta semana fizeram-me pensar neste provérbio popular que, não se podendo aplicar sempre a régua e esquadro, nestes casos diz muito dos seus protagonistas. O primeiro foi a degradante (mais uma) conferência de imprensa de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, ao lado de Keir...

Veneno anticomunista

A notícia é do Correio da Manhã. Começa por valorizar uma realidade: «Vivemos mais que a média europeia». A esperança de vida em Portugal é de 82,7 anos, superior em um ano à média da União Europeia. Depois dá-nos outro dado: «Os países do Leste Europeu, que durante décadas pertenceram ao bloco soviético, são os que...