Camões afirmou a voz da insubmissão num mundo de contradições
O PCP inaugurou, no Porto, dia 20, a exposição Camões, poeta do povo num mundo em mudança, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A iniciativa, em que participou Paulo Raimundo, integrava-se nas comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões promovidas pelo Partido.
Na sua obra, Camões coloca o povo como sujeito da história
«A exposição que agora se dá a conhecer em primeira mão ao povo do Porto constitui uma justa homenagem e reconhecimento do poeta universal Luís de Camões, a sua vida e obra, os seus admiráveis versos, a sua obra épica e lírica, as suas cartas e o seu teatro», começou por assinalar o Secretário-Geral do PCP num breve momento político, na Praça Dom João I, que antecedeu a visita à exposição. Camões não foi um espectador da história, mas sim um activo participante que, como sublinhou Álvaro Cunhal e recordou Paulo Raimundo, «soube ser a voz do povo, dos lusíadas, da insubmissão ante os privilégios, do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista».
«Esta exposição», afirmou, «mostra o percurso deste grande poeta que transporta consigo uma história que conta outras histórias pessoais e colectivas e que coloca o povo como sujeito da história», num tempo em que Portugal conservava ainda uma estrutura social medieval, «onde as classes dominantes assentam o seu poder nos privilégios de sangue e no controlo da propriedade fundiária e respectivas rendas». «Uma sociedade», continuou, «marcada por profundas desigualdades e injustiças sociais, com o povo enfrentando enormes dificuldades, a pobreza e a miséria, em contraste com a opulência das classes privilegiadas».
Um mundo em mudança
É nesse contexto histórico que a exposição, como referiu o Secretário-Geral, mostra como as navegações portuguesas contribuíram para inaugurar uma nova era no comércio mundial, «abrindo caminho à crescente afirmação de um novo sistema social – o capitalismo, na sua fase mercantil – em ruptura com o sistema de servidão feudal dominante na Europa».
«Afirma-se um mundo em transformação, cheio de contradições e violências inerentes a todos os sistemas de exploração», ao mesmo tempo que se sublinha a «realidade trágica da ampliação da escravatura e o posterior tráfico negreiro transatlântico e as guerras de submissão e de conquista, a emergência do sistema colonial, expressão dos sistema capitalista nascente». Uma realidade que, como recordou Paulo Raimundo, viria a impor, durante séculos, uma brutal exploração de outros povos, que «se estendia também ao povo português e a outros povos europeus».
Camões do povo, para o povo
Sem deixar de dirigir uma dura crítica ao regime fascista que, durante anos, procurou utilizar a figura de Luís de Camões como «instrumento de controlo ideológico, para propagandear o nacionalismo fascista e a sua concepção nacionalista», Paulo Raimundo apontou o que o jornal Avante!, já em 1957 afirmava: «Só um regime democrático conseguirá elevar Camões ao seu verdadeiro lugar – o de magnífico cantor das coisas nacionais, das coisas humanas universais, do nosso povo –, esse povo a quem um dia o Portugal livre e independente, pacífico e democrático, tornará acessível a obra imortal de Luís de Camões (…)».
«São estes os valores presentes na obra de Camões que o PCP sublinha. Valores que nortearam o Partido em mais de cem anos de luta ao serviço dos trabalhadores, do povo e da pátria», afirmou.
«Camões não cala a crítica aos poderosos, à vaidade, à ambição desmedida e à decadência moral, ao poder do dinheiro, ao esmagamento dos mais fracos e do povo, e à crueldade da guerra e ao seu poder destruidor», da mesma maneira que «denuncia as desigualdades e injustiças e que defende mesmo que todo o trabalho deve ser pago, incluindo “o suor da servil gente”». «É este Camões que esta exposição aqui evoca, e que a juventude tem direito a conhecer e compreender, esse notável poeta, o seu espírito socialmente atento e inconformado com as injustiças e desigualdades», afirmou.
«São estas as razões que levam o PCP a desenvolver, até ao final de 2025, um vasto programa de comemorações deste quinto Centenário do nascimento de Camões», explicou.
Pátria fraterna
«Numa associação de homens e mulheres de letras como é a nossa, evocar a vida e obra de Luís Vaz de Camões faz todo o sentido, é uma obrigação de quem acredita que, pela palavra, se combate o desacerto do mundo», afirmou Duarte Mangas, presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP), que interveio antes de Paulo Raimundo.
«Camões», apontou, «com os seus versos e com a sua prosa, é verdade, não mudaria o mundo, mas, ao denunciar os seus desvarios, riscava um fósforo na noite escura – nesta terra como ele disse, Onde o mal se afina e o bem se dana/ E pode mais que a honra a tirania».
«A grandeza de Camões, usado para muitos fins segundo as conivências das conjunturas políticas, reside na força da palavra. Com as palavras, o poeta ergueu uma pátria, e ele muito gostaria que essa pátria fosse a pátria fraterna», acrescentou.
«Pelas suas posições contra a “cega monarquia”, que o levariam à indigência, à mais crua miséria, pelo seu combate ao desacerto do mundo, pergunto: se Camões fosse um autor dos nossos dias, teria ele espaço nos grandes grupos editoriais, que agora controlam de montante a jusante todo o mercado livreiro?», questionou Duarte Mangas, respondendo que «de certo, não teria, nem desejaria aí ter lugar».
A exposição inaugurada no Porto integra o vasto programa próprio do PCP para a celebração do V Centenário do nascimento de Luís de Camões, que teve início a 23 de Agosto e que se prolongará até ao final de 2025, com um diversificado conjunto de iniciativas.
A exposição estará patente na AJHLP até 11 de Janeiro, com horário de visitas entre as 14h00 e as 18h00.