O legado

Gustavo Carneiro

Um século depois do nascimento de Amílcar Cabral, cumprido no dia 12, a sua memória está viva – e essa é uma boa notícia. Figura destacada do movimento anti-imperialista e de libertação nacional que na segunda metade do século XX varreu o mundo e pôs fim ao colonialismo, Amílcar Cabral deixou um legado teórico e prático que desperta hoje renovada atenção, em África e não só.

Na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, é intensa a batalha pela memória do dirigente revolucionário, com o PAIGC e o PAICV a enfrentarem proibições, censuras e ocultações de todo o tipo (mais ainda o primeiro do que o segundo). Por cá, os últimos meses foram ricos em evocações, publicações, congressos e exposições sobre Amílcar Cabral, promovidas por universidades, editoras, órgãos de comunicação, associações de imigrantes, movimentos sociais e partidos políticos, como o PCP.

Mas como frequentemente acontece nestas situações (ou não fosse a luta pela memória mais sobre o presente do que propriamente sobre o passado), há quem evoque um Amílcar Cabral que não existiu: despido das suas concepções antifascistas, revolucionárias e internacionalistas, uma figura adocicada e consensual. Nada disto é novo: já vimos «marxianos» a separar a teoria de Marx da prática revolucionária e Che Guevara transformado num produto pop para rebeldes sem causa – quando era o comunismo a causa do revolucionário argentino-cubano.

Se o legado de Amílcar Cabral pode ser observado sob múltiplos pontos de vista, legítimos e complementares, há manifestos abusos. Não é possível, por exemplo, evocar Cabral e tolerar a ocupação da Palestina e o genocídio na Faixa de Gaza. Amílcar Cabral, aliás, defendia o direito do povo palestiniano a «recuperar a sua dignidade, a sua independência, o seu direito à vida». O mesmo se passa com a NATO, combatida pelos patriotas guineenses e cabo-verdianos, que na luta contra o colonialismo português enfrentavam o armamento enviado pelos membros desse bloco político-militar. E não foi Amílcar Cabral, ainda estudante em Lisboa, chamado à PIDE precisamente por ter assinado uma petição contra a NATO?

Os elogios a Cabral também não rimam com as críticas a Cuba e à sua Revolução, com quem o PAIGC partilhava uma «luta difícil mas gloriosa contra o inimigo comum». Nem tão pouco com o anticomunismo, já que a União Soviética dava «apoio moral, político e material aos movimentos de libertação» e o PCP era «um aliado e, até agora [1961], o único depositário e intérprete da vontade do povo português de viver na amizade e na colaboração com todos os povos do Mundo na base de igualdade de direitos e deveres».

Amílcar Cabral permanece como um símbolo da luta contra o colonialismo, o neocolonialismo e o imperialismo – em África como no mundo. E essa luta aí está, viva e actual.

 



Mais artigos de: Opinião

A resistência e a luta estão aí e vão intensificar-se

O PSD, através da intensa propaganda do seu Governo, tenta passar a ideia de que a política de direita ao serviço dos grupos económicos que está a realizar se destina a corrigir a política, também de direita, do anterior governo do PS. E com o mesmo Orçamento, já que não foi alterado após a...

Tambores não param de rufar

Arrasta-se no tempo a infâmia da guerra, servindo de regozijo para quem dela retira dividendos. Acirram-se cenários que ameaçam levar a Humanidade à catástrofe, pois para a geopolítica imperialista parece que todos os meios justificam os seus fins. A discussão, à porta fechada, que se realizou a semana passada, entre o...

Voar à borla

A revelação de que a TAP fora comprada com dinheiro da própria empresa não constituirá surpresa. Há muito que o PCP o denunciara. O que agora o relatório da IGF confirmou só não foi exposto com maior visibilidade porque as não poucas cumplicidades que ali convivem o não permitiram e porque alguns, incluindo BE e PS,...

Boys do governo – ainda pior (!)

O XXIV Governo constitucional, PSD-Montenegro, tomou posse há cinco meses e meio. Até ao fim da semana passado nomeou, sem concurso, para cargos de direcção, comissões de trabalho, gabinetes de ministros e afins, 872 boys, 800, se exceptuarmos os membros do Governo. É um número expressivo, se tivermos presente que nas...

A taça dos “sem-abrigo”

Futebol “caritativo”. Pesquisando os sem-abrigo no mundo (150 milhões, diz o Fórum Económico Mundial) deparamo-nos com uma iniciativa chamada Homeless World Cup (Taça Mundial dos Sem-abrigo). Pretende usar «o futebol para acabar com a existência de sem-abrigo», para «apoiar e inspirar pessoas sem-abrigo a mudar as suas...