Tambores não param de rufar

Cristina Cardoso

Arrasta-se no tempo a infâmia da guerra, servindo de regozijo para quem dela retira dividendos. Acirram-se cenários que ameaçam levar a Humanidade à catástrofe, pois para a geopolítica imperialista parece que todos os meios justificam os seus fins. A discussão, à porta fechada, que se realizou a semana passada, entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro do Reino Unido, sobre a hipótese de autorizarem o governo ucraniano de usar os mísseis de longo alcance fornecidos pelos EUA, Reino Unido e França, para atacar o território Russo, é uma grave jogada que ameaça generalizar a guerra e expandir as suas fronteiras. Talvez seja parte de um projecto bem planeado e marinado, construído ao longo da ultima década, cujas hesitações são apenas acertos necessários para responder às disputas internas nos EUA e a divergências inter-imperialista.

E enquanto os EUA jogam na “ponderação”, o primeiro-ministro Trabalhista do Reino Unido assume as “dores” de Kiev e entra em “tour” europeia para convencer os seus “consócios” de Itália, França e Alemanha (segundo a Bloomberg). Estamos perante factos consumados: a NATO, envolvida na guerra, que está às portas da Rússia, prepara-se para entrar, arriscando um conflito directo entre potências nucleares.

Nas cartas dadas na política externa dos EUA, o apoio militar e financeiro ao Estado sionista de Israel não cessa, levando a cabo, um dos morticínios mais horrendos deste século, destruindo gerações de palestinianos. Quase um ano depois, mais de 41 000 mortos e mais de 95 000 feridos na faixa Gaza, da intensificação da violência na Cisjordânia com muitas centenas de mortes e a detenção em massa de milhares de palestinianos, Israel continua empenhado na expulsão e aniquilação do povo palestiniano da sua terra e goza de impunidade e cobertura dos seus aliados, EUA e UE.

E os tambores não param de rufar, assumindo diversas sonoridades consoante a geografia do mundo. Enquanto que a Rússia continua a ser a “ameaça imediata”, na cartilha norte-americana a China é a ameaça estratégica à sua hegemonia. Na semana passada, a Câmara dos Representantes dos EUA acelerou a votação de 28 projectos de lei cujo alvo é a China, que entre outras medidas visam restringir negócios com empresas de biotecnologia chinesas sob a desculpa de “segurança nacional”, restringir o papel da China nas cadeias globais de abastecimento, canalizar fundos para combater a “influência chinesa”. Ao mesmo tempo, continua a vir ao de cima a estratégia dos EUA em minar o principio de “uma só China”, manipulando a questão de Taiwan de diversas formas e alimentando um perigoso conflito no sul do mar da China.

Nas eleições presidenciais norte-americanas que se realizam no próximo dia 5 de Novembro muito pouco estará em jogo na disputa entre o Partido Democrata e Republicano. Talvez mais na forma do que no conteúdo, pois tanto na política interna como na externa é muito mais o que os une do que os separa. Continuarão a sofrer os povos do mundo. Continuará a sofrer o povo norte-americano, vítima de gritantes injustiças e desigualdades que alimentam um sistema político desenhado para perpetuar o poder das classes dominantes.

Vale-nos a confiança na força da luta que os povos travam contra o imperialismo e pela paz.



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