Voar à borla
A revelação de que a TAP fora comprada com dinheiro da própria empresa não constituirá surpresa. Há muito que o PCP o denunciara. O que agora o relatório da IGF confirmou só não foi exposto com maior visibilidade porque as não poucas cumplicidades que ali convivem o não permitiram e porque alguns, incluindo BE e PS, preferiram ficar entretidos com uma comissão de inquérito parlamentar aos quinhentos mil euros da administradora da empresa em vez de a estender, como foi proposto, a todo o processo de privatização. Coisas, aliás, indesligáveis.
Como aliás não constituirá surpresa o facto de a horda de topo dos saqueadores capitalistas do erário e recursos públicos – apresentados como notabilíssimos “empreendedores” para os lados donde o sol se põe, não confundíveis com essa cáfila de “oligarcas” que povoam locais onde o astro-rei nasce – se caracterizar por serem capitalistas sem capital próprio, investirem com o dinheiro dos outros, prosperarem com o que o Estado lhes transfere. É assim na TAP, nos bancos ou no negócio da saúde. Uma capacidade reprodutora do capital que, desafiando as leis económicas do próprio capitalismo, se confunde com a magia digna de um Houdini ou, recorrendo a uma versão menos profana, reproduzir o milagre da multiplicação dos pães.
O que poderia causar surpresa, embora também não seja o caso atendendo a quem os nutre, é a desfaçatez com que comentadores e analistas se desdobram para, a propósito desta realidade, concluir das virtudes e benefícios das privatizações face ao que designam de desmandos do Estado. Uns e outros, grande capital e correspondentes amplificadores, prontos para o novo bodo que já se pré-anuncia.