- Nº 2651 (2024/09/19)

O legado

Opinião

Um século depois do nascimento de Amílcar Cabral, cumprido no dia 12, a sua memória está viva – e essa é uma boa notícia. Figura destacada do movimento anti-imperialista e de libertação nacional que na segunda metade do século XX varreu o mundo e pôs fim ao colonialismo, Amílcar Cabral deixou um legado teórico e prático que desperta hoje renovada atenção, em África e não só.

Na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, é intensa a batalha pela memória do dirigente revolucionário, com o PAIGC e o PAICV a enfrentarem proibições, censuras e ocultações de todo o tipo (mais ainda o primeiro do que o segundo). Por cá, os últimos meses foram ricos em evocações, publicações, congressos e exposições sobre Amílcar Cabral, promovidas por universidades, editoras, órgãos de comunicação, associações de imigrantes, movimentos sociais e partidos políticos, como o PCP.

Mas como frequentemente acontece nestas situações (ou não fosse a luta pela memória mais sobre o presente do que propriamente sobre o passado), há quem evoque um Amílcar Cabral que não existiu: despido das suas concepções antifascistas, revolucionárias e internacionalistas, uma figura adocicada e consensual. Nada disto é novo: já vimos «marxianos» a separar a teoria de Marx da prática revolucionária e Che Guevara transformado num produto pop para rebeldes sem causa – quando era o comunismo a causa do revolucionário argentino-cubano.

Se o legado de Amílcar Cabral pode ser observado sob múltiplos pontos de vista, legítimos e complementares, há manifestos abusos. Não é possível, por exemplo, evocar Cabral e tolerar a ocupação da Palestina e o genocídio na Faixa de Gaza. Amílcar Cabral, aliás, defendia o direito do povo palestiniano a «recuperar a sua dignidade, a sua independência, o seu direito à vida». O mesmo se passa com a NATO, combatida pelos patriotas guineenses e cabo-verdianos, que na luta contra o colonialismo português enfrentavam o armamento enviado pelos membros desse bloco político-militar. E não foi Amílcar Cabral, ainda estudante em Lisboa, chamado à PIDE precisamente por ter assinado uma petição contra a NATO?

Os elogios a Cabral também não rimam com as críticas a Cuba e à sua Revolução, com quem o PAIGC partilhava uma «luta difícil mas gloriosa contra o inimigo comum». Nem tão pouco com o anticomunismo, já que a União Soviética dava «apoio moral, político e material aos movimentos de libertação» e o PCP era «um aliado e, até agora [1961], o único depositário e intérprete da vontade do povo português de viver na amizade e na colaboração com todos os povos do Mundo na base de igualdade de direitos e deveres».

Amílcar Cabral permanece como um símbolo da luta contra o colonialismo, o neocolonialismo e o imperialismo – em África como no mundo. E essa luta aí está, viva e actual.

 

Gustavo Carneiro