Apagamentos de Agosto
Chegados ao final de Agosto é útil fazer um balanço da chamada silly season mediática, em que, apesar de a actividade política não ir de férias (pelo menos no que ao PCP diz respeito), os meios de comunicação social dominantes tentam fazer crer que sim. Mas até nisto o tratamento é muito desigual, como vimos nos últimos dias.
Os exemplos são vários, do apagamento completo da sessão de apresentação das comemorações do PCP do centenário de Carlos Paredes à forma como foram ignoradas as declarações do PCP sobre os problemas do SNS, por Jorge Pires, sobre os lucros colossais dos grupos económicos, com Vasco Cardoso, ou as declarações de Paula Santos na concentração junto ao Hospital do Barreiro contra o encerramento das urgências de obstetrícia e ginecologia. Nesses mesmos dias não faltaram nas televisões presenças de dirigentes partidários a comentar assuntos que marcavam o dia (e, registe-se, a situação do SNS e o fecho de urgências marcaram as últimas semanas), ou um desfile de comentadores sobre acontecimentos tão candentes para a situação nacional como o discurso da apresentadora de televisão na convenção do Partido Democrata nos EUA. Houve estações de televisão que dedicaram mais tempo de emissão a dissecar o significado de a candidata daquele partido ter apresentado o seu candidato a vice-presidente como «treinador Walz» (o indivíduo foi treinador de futebol americano antes de ocupar cargos públicos, sendo actualmente governador do Estado do Minnesota).
Poder-se-ia dizer que o facto de nenhum destes momentos ter contado com a participação do Secretário-Geral do PCP explicaria a sua ausência do espaço mediático, mas há mais episódios a somar a estes que deitam por terra quem se queira agarrar a esse pretexto para justificar o silenciamento. Na última sexta-feira realizou-se uma sessão a propósito do V centenário do nascimento de Luís de Camões com a participação de Paulo Raimundo. Sobre o que lá se disse sobre a matéria não houve a mais curta referência noticiosa, e mesmo as respostas às perguntas dos jornalistas sobre temas laterais, com excepção da TVI, não chegaram aos principais noticiários televisivos, ficando remetidas aos canais noticiosos do cabo. No domingo, quando o Secretário-Geral integrou a delegação do PCP que visitou a Feira de Grândola, o cenário não mudou para melhor: desta vez a RTP passou as declarações no seu Telejornal, enquanto os restantes nem no cabo encontraram espaço para o PCP.
É neste quadro mediático que nos aproximamos da Festa do Avante!, com o recorrente apagamento das suas múltiplas dimensões. Com muito raras excepções, ainda não entraram na comunicação social dominante o seu programa cultural ou o carácter militante da sua realização (da construção à venda da EP). É certo que ainda é tempo para que tal suceda, mas, pelo que conhecemos, não deixemos de empenhar forças no que depende de nós para fazer da edição de 2024 mais uma grande Festa.