Então e os factos?
Já por várias vezes se assinalou nesta coluna que não há como o aproximar de um acto eleitoral para que a recorrente manipulação mediática entre num fervilhar inaudito. Vem esta afirmação a propósito de duas peças com relação com as duas eleições que temos pela frente no próximo mês: para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira e para o Parlamento Europeu.
A primeira surgiu no Público do passado domingo, num «quem é quem» das eleições da Madeira, em que o breve texto sobre a CDU referia a coligação como uma das forças derrotadas nas últimas eleições de Setembro, por não ter reeleito o deputado que detinha. Sucede que tal é falso, uma mentira tão grosseira quando, ainda para mais, outras forças que tiveram menos votos nesse último acto eleitoral aparecem como grandes vencedores por terem eleito… o mesmo número de deputados que a CDU.
Ainda que fosse teoricamente possível (ainda que absolutamente inacreditável) que ninguém no Público soubesse que a CDU elegeu um deputado, à frente de outras três forças políticas que também elegeram, parece impossível que ninguém tenha feito a mínima verificação de factos na construção e edição da notícia. Tendo sido um erro grosseiro, sintomático de incompetência extrema, ou não, a verdade é que o jornal publicou uma mentira indesculpável, inexplicável, que encaixa na perfeição na narrativa mais omnipresente do tratamento mediático do PCP e da CDU: a tese da queda inexorável, mesmo quando os factos a desmentem – como aconteceu nas últimas eleições na Madeira.
É certo que, após protesto da CDU, o jornal editou a peça na edição online e introduziu uma errata na edição em papel de terça-feira, uma muito tímida tentativa de reparação. Já no século XVIII, o escritor irlandês Jonathan Swift afirmava que «a mentira voa, a verdade coxeia», um adágio que o Público faz por confirmar.
Dias depois, mudou o órgão de comunicação social, mudou a eleição em causa, mas repetiu-se o padrão da mentira como critério jornalístico, no caso com a ironia acrescida de ter partido do Polígrafo. A perversidade de se ter criado uma categoria jornalística dedicada à verificação de factos quando essa é uma das tarefas mais elementares do exercício do jornalismo fala por si, mas quando este auto-designado detector de mentiras não é sequer capaz de cumprir com os procedimentos mais básicos da profissão, o caldo fica definitivamente entornado. Diz o Polígrafo que João Oliveira mentiu – uma acusação forte a um candidato ao Parlamento Europeu, cuja seriedade é amplamente reconhecida –, e fê-lo sem esperar pela resposta da CDU às questões colocadas.
Também neste caso, após contacto da CDU, a peça foi editada para incluir os esclarecimentos prestados, que confirmam a afirmação de João Oliveira sob avaliação. Mas, por razões aparentemente insondáveis, a avaliação de «falso» não mudou – apesar de o texto contradizer essa mesma avaliação. O Polígrafo mentiu: um triste, ainda que fiel, retrato do estado da imprensa em Portugal.