A institucionalização do Trumpismo

António Santos

A crescente probabilidade de um regresso de Trump à Casa Branca pode medir-se pela actividade dos think-tanks conservadores. Zénite apoteótico do triunfo do mercado sobre a Universidade, estes «tanques-pensantes» são o ventre privado das futuras políticas públicas. A campanha de Trump tem gerado uma auspiciosa efervescência nestes centros muito habituados a farejar poder. Se praticamente todas as semanas mais um think-tank de direita oferece a Trump as suas políticas pré-fabricadas e as suas leis prontas-a-vestir, há dois que merecem destaque o Projecto 2025 da Heritage Foundation, que se gaba de ver a maioria das suas propostas aceites por todos os Presidentes republicanos desde 1973.

Sobressai das 920 páginas a necessidade de institucionalizar e cimentar o Trumpismo no nacionalismo cristão, evitando o desnorte ideológico, a improvisação política e a permanente instabilidade de quadros que marcaram a primeira administração Trump. Para além de oferecer listas com milhares de quadros de confiança, o Projecto 2025 propõe à candidatura republicana um conjunto de políticas públicas acabadas para reestruturar o Estado federal, concentrando mais poder no presidente, eliminando departamentos inteiros, como o da Educação ou do Ambiente, e limitando muito o pluralismo ainda existente na democracia burguesa. A perseguição aos comunistas é assumida como uma necessidade moral, política e histórica.

No capítulo da política externa, o Projecto 2025 recomenda uma transformação da NATO que obrigue os aliados dos EUA, com especial relevo para a UE, a assumirem uma maior responsabilidade financeira e militar na guerra contra a Rússia e a China. Longe de se remeterem ao mítico «isolacionismo», os EUA ficariam assim livres para montar o cerco à China, definida como o principal inimigo. A China é, de resto, referida 483 vezes ao longo do documento, sempre nos termos ideológicos McCartistas da década de 50 do século passado: os do complô comunista que planeia subverter o modo de vida americano.

Numa direcção semelhante aponta o programa do think-tank America First, apresentado esta semana num evento em que participaram quadros importantes da campanha de Trump. As linhas mestras ecoam o Projecto 2025: apoio condicional à Ucrânia com perspectiva de uma solução diplomática; apoio incondicional à máquina de genocídio israelita e pressão máxima contra a China, mais uma vez definida como um inimigo a abater.

Trump é imprevisível, mas o consenso dos think-tanks conservadores permite decifrar o interesse de classe dos seus donos: deter, por quaisquer meios necessários, o desenvolvimento da China e preparar os EUA para a ditadura burguesa.

 



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