Com luta exige-se acção do Governo para travar lay-off na Indorama

Parar a produção e reduzir os salários a dois terços, durante seis meses ou um ano, acaba por ser um despedimento encapotado e um passo rumo à deslocalização da produção da Indorama Ventures.

A multinacional reduz encargos à custa dos trabalhadores e do Estado

Com olay-off anunciado para 1 de Outubro e 80 postos de trabalho indirectos já liquidados, o SITE Sul e os 134 trabalhadores da fábrica de matéria-prima para produção de PET (componente para embalagens de plástico para uso alimentar), em Sines, insistem na necessidade de acção urgente do Governo.

Depois de plenários realizados nos dias 18 e 20 (este com deslocação até à Câmara Municipal, onde uma delegação foi recebida pelo presidente), foi decidido, esta segunda-feira, dia 25, realizar nova jornada de luta em Lisboa, a 9 de Outubro.

Perante «manobras de limpeza para uma paragem prolongada», o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Sul (SITE Sul) já tinha manifestado preocupação. A 18 de Agosto, um dirigente disse à agência Lusa que a direcção da fábrica, numa reunião, «não soube esclarecer qual o futuro» daquela unidade industrial.

«Não queremos lançar o pânico», «queremos que esta fábrica continue a laborar e que os postos de trabalho sejam preservados, com a Indorama ou com outra empresa», disse então Hélder Guerreiro, lembrando que o Governo tem responsabilidades na matéria e «deve actuar rapidamente».

Corte salarial inaceitável

Um mês depois, a filial da multinacional tailandesa anunciou o lay-off, por seis meses, renovável por igual período. A 18 de Setembro, num primeiro plenário, os trabalhadores rejeitaram esta intenção, «a todos os níveis, inaceitável», como afirmou o sindicato, num comunicado. A Indorama «pretende que os trabalhadores recebam apenas 66 por cento do seu salário actual durante o próximo ano».

«Num quadro em que o custo de vida aumenta brutalmente, um corte de 34 por cento nos salários terá consequências nefastas» para os trabalhadores, como salientou a Direcção da Organização Regional do Litoral Alentejano do PCP. Na jornada de luta de dia 20, esteve presente uma delegação do Partido, de que fizeram parte André Martelo e Pedro Martins (membros do Comité Central), Jaime Cáceres (vereador da CM Sines) e Alfredo Maia (deputado).

Em perguntas dirigidas à ministra do Trabalho e ao ministro da Economia, o grupo parlamentar comunista questionou as reais intenções da multinacional e deu nota de que, «entre os trabalhadores, há mesmo o receio de que o recurso ao mecanismo do lay-off, com a drástica redução de rendimentos que induzirá, vise despedir sem encargos, na medida em que aqueles tenderão a procurar alternativas de emprego».

Igualmente, numa resolução aprovada no plenário de dia 20, os trabalhadores alertaram que este lay-off é uma manobra que visa livrar-se do pessoal, preparando a deslocalização da fábrica, ou de parte dela, para outras geografias mais lucrativas.

Mas, acusaram, este lay-off serve também para burlar o Estado, quer pelas borlas que foram concedidas à Indorama, para ficar com as instalações da Artlant, quer por desviar de forma ilegítima fundos da Segurança Social.

Em 2018, culminando um processo que contou com o empenhado apoio do governo do PS, a Indorama comprou por 28 milhões de euros a Artlant, valor que abateu à massa insolvente, de 700 milhões de euros, de que ficara credora a Caixa Geral de Depósitos. Cinco anos depois desta aquisição a preço de saldo, a multinacional – com mais de cem fábricas em todo o mundo e uma valorização bolsista de quatro mil milhões de dólares – reduz os salários dos seus trabalhadores (excepto 17, a maioria com cargos de direcção) e chama a Segurança Social para pagar 70 por cento desse custo.

 

Esclarecer e agir

Do Governo, o PCP pretende saber quais foram as contrapartidas concedidas à Indorama, na compra da Artlant. Interroga, por outro lado, «quais são as diligências em curso, planeadas ou já efectuadas, para evitar o que parece ser um expediente da administração da Indorama para se ver livre dos trabalhadores – um despedimento colectivo encapotado – e efectuar uma cada vez mais evidente deslocalização da fábrica, com todos os prejuízos decorrentes para o País».

Na resolução de dia 20, divulgada pelo SITE Sul, exige-se:

– igualdade de tratamento de todos os trabalhadores, no pagamento dos salários na íntegra;

– intervenção do Governo, para impedir mais um saque aos cofres públicos e para a preservação de todos os postos de trabalho;

– intervenção do presidente da Câmara Municipal de Sines, junto do Governo e da administração da Indorama, também para assegurar a segurança das instalações, perante a diminuição do número de trabalhadores que devem assegurar a integridade de uma fábrica com reconhecido risco de acidente ambiental industrial (classificação SEVESO).

 



Mais artigos de: Trabalhadores

Demagogia não responde aos trabalhadores da GALP

«O Governo continua a cavalgar a demagogia da transição justa, mas o problema principal continua a ser a falta de respostas aos trabalhadores», protestou anteontem, dia 26, a CCT da Petrogal.

Greve nos bares dos comboios

A greve de dia 22 teve adesão muito elevada dos trabalhadores dos bares e serviço de refeições dos comboios Alfa e intercidades. A luta visou exigir a conclusão do Acordo de Empresa, pois a NewRail «deu o dito por não dito e não autoriza o envio do AE, já assinado pelas partes, para depósito e publicação», como explicou...

O exemplo de Leiria

«Mais de 53 por cento dos trabalhadores do distrito leva para casa menos de 800 euros, é impossível ter uma vida digna com estes salários», disse a coordenadora da União dos Sindicatos de Leiria, no dia 21, durante uma concentração que a estrutura distrital da CGTP-IN promoveu em frente do...

Patrões da Auchan não estão acima da lei

Uma jornada de luta nacional na cadeia de supermercados Auchan teve lugar no dia 21, junto de estabelecimentos em 12 localidades, para reafirmar a solidariedade para com os trabalhadores da loja My Auchan na Amadora (na foto) e exigir que a empresa cumpra a lei e a contratação colectiva. Como...

Denúncia e exigência em vários sectores

Estava marcada para ontem, já após o fecho da nossa edição, uma concentração de representantes dos trabalhadores do sector do turismo junto ao local onde se realizava uma conferência promovida pela Confederação do Turismo de Portugal, em Albufeira. O protesto, promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de...

Professores persistem na luta

A falta de professores, patente neste início de ano lectivo, e a premência de valorizar a profissão docente e defender a Escola Pública destacam-se entre os motivos das lutas anunciadas pela FENPROF e os seus sindicatos, frequentemente em convergência com outras oito organizações sindicais. Para terça-feira, dia 3, às...