A angústia e o combate

Gustavo Carneiro

Está em exibição nos cinemas o novo filme de Christopher Nolan, Oppenheimer, centrado na vida do físico norte-americano Julius Robert Oppenheimer, director do Projecto Manhattan e considerado o «pai» da bomba atómica. Ao longo de três intensas (e tensas) horas, o espectador acompanha o percurso – e as contradições – de Oppenheimer, a ascensão, apogeu e queda do novo Prometeu.

Judeu de convicções antifascistas, Oppenheimer manteve durante a década de 1930 relações próximas com os comunistas norte-americanos, o que lhe valeu ser vigiado pelo FBI. Referência mundial no campo da Física, empenhou-se em criar a arma atómica antes dos nazis e após a rendição destes viu-a como uma forma de pôr um fim rápido à guerra. Defendeu a partilha de conhecimentos com os aliados soviéticos e o controlo de armamentos, opôs-se ao desenvolvimento da bomba de hidrogénio por temer uma imparável escalada nuclear. De «herói americano» passou a «ameaça à segurança nacional» e, daí, a suspeito de espionagem para a URSS. Foi mantido longe dos segredos militares dos EUA até ao fim da sua vida.

Mas esta crónica não pretende ser uma crítica de cinema, nem tão pouco relançar a discussão sobre a controversa figura de Julius Robert Oppenheimer e as relações contraditórias com o establishment político e militar norte-americano. Interessa-nos sobretudo a angústia do cientista perante o terrível poder da sua criação: «Agora tornei-me na Morte. O destruidor de mundos», afirma, a dada altura, citando um texto sagrado hindu.

A imagem não é de todo exagerada: nas cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáki, tiveram morte imediata mais de 100 mil pessoas, carbonizadas à passagem das tempestades de fogo; muitos dos que sobreviveram às explosões acabariam por soçobrar às queimaduras, morrendo nos dias, semanas e meses subsequentes. A radiação continua a matar, 78 anos depois…

Se Oppenheimer tinha motivos para estar preocupado com o «novo mundo» que a sua invenção criara, mais ainda teremos nós, hoje, face às 12 mil ogivas nucleares existentes no mundo, grande parte delas com um poder destrutivo muitíssimo superior às de Agosto de 1945: digam o que disserem os falcões da guerra e os comentadores ao seu serviço, não há vencedores numa guerra nuclear.

A existência destas armas constitui uma grave ameaça à Humanidade e a mera invocação da possibilidade da sua utilização é inaceitável. Só a proibição das armas nucleares e o desarmamento geral, simultâneo e controlado podem, com segurança, garantir que nunca mais serão usadas. Esse é um combate de sempre dos comunistas, e de tantos outros, que tem de ser intensificado.

Em nome da paz. E da vida.




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