PPP e Emergências

Manuel Gouveia

No domingo, um incêndio em Loures obrigou ao corte da A8. Uma A8 com um tráfego intenso, natural num domingo de Agosto. O facto provocou as normais filas quilométricas, pois todo o tráfego foi conduzido para a saída de Lousa, não propriamente desenhada para receber aquele número de carros.

Ao fim de mais de uma hora na fila cada utilizador descobria que a emergência afinal não era assim tanta: ainda havia que pagar a portagem. E com a única via verde entupida e os restantes dois canais com as cancelas em baixo, os carros de emergência tinham que vencer aquele obstáculo uma e outra vez.

A concessionária, face à emergência registada, em vez de abrir as portagens, mandou um trabalhador para o local, pois o posto costuma estar deserto. Um trabalhador para agilizar as cobranças e os desbloqueios. Foram quase 50 euros de gastos extra o sacrifício dos donos destas concessões.

Olhando para a análise às contas de 2022 das PPP rodoviárias vemos o outro lado da questão: O conjunto dos capitalistas que suga as PPP investiu apenas 166 milhões de euros em 2022, num ano em que os portugueses pagaram 327 milhões de euros de portagens e onde o Estado ainda financiou as concessionárias em 1,1 mil milhões de euros.

É assim que a Brisa, hoje dirigida peloministro que ontem tutelava as suas PPP, conseguiu 240,8 milhões de euros de lucros em 2022, 20% mais que em 2021. E no primeiro semestre de 2023 ainda conseguiu um aumento de lucros de 30,5%.

Isto ao mesmo tempo que o Ministério Público tenta recuperar em Tribunal 3,3 mil milhões de pagamentos indevidos às concessionárias na sequência da renegociação ilegal dos seus contratos e quando continuam a chover pedidos de «reequilíbrio financeiro» para serem amanhados nos Tribunais Arbitrais.

No que respeita a estas PPP, a verdadeira emergência é acabar com elas.

 



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