Sem disfarce
«Em termos simples, a guerra russa na Ucrânia dividiu o mundo e uniu o Ocidente – por enquanto. Identifico três campos: a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais; a Rússia e a sua aliança com a China, cuja natureza não conhecemos para além de palavras e de apertos de mão; e um terceiro campo que poderia ser descrito como Não-Alinhados 3.0 ou oportunismo de interesses, no bom sentido.» As palavras são de Pascal Lamy, ex-director-geral da Organização Mundial do Comércio, em recente entrevista à revista francesa Le Grand Continent, em que reconhece que o mundo já não gira em torno de Washington e Bruxelas.
«A primeira votação da ONU sobre as sanções russas mostrou, para nossa surpresa, que os países que não estão connosco na Ucrânia representam mais da metade da população mundial. É uma realidade do mundo de hoje, fruto de camadas de frustrações acumuladas no Sul: colonialismo, Kosovo, Iraque, Líbia, vacinas contra a COVID, e agora a crescente suspeita de “proteccionismo verde“», confessa Lamy, reconhecendo o óbvio.
O mesmo faz Anne-Marie Slaughter, ex-directora de planeamento no Departamento de Estado dos EUA, ao assinalar que o posicionamento do «Sul Global» à guerra da Ucrânia constitui «uma mudança muito maior na ordem mundial do que muitos analistas americanos e europeus acreditam. Este não é o movimento dos não-alinhados do século XX. Este é um grupo de potências importantes – Índia, Brasil, África do Sul, a Associação dos países do Sudeste Asiático – que estão a dizer: “Esta não é mais a nossa guerra, e o que realmente nos preocupa são os nossos próprios conflitos regionais.”»
O reconhecimento da realidade ainda não se traduz numa mudança da política ocidental. Para o G7 (EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, Itália e Japão), que se reúne de 19 a 21 de Maio em Hiroxima – uma das duas cidades japonesas que os EUA destruíram com a bomba atómica –, foram convidados dirigentes de países em desenvolvimento ou emergentes, como o Brasil, Índia, Indonésia e Vietname, com o declarado objectivo, como escreveu a Bloomberg, de «tentar melhorar os seus laços económicos e combater a crescente influência da China no Sul Global». Na reunião, em que participam também representantes da ONU, FMI, Banco Mundial, Organização Mundial de Saúde e da União Europeia, o prato forte é o aumento das sanções contra a Rússia e a tentativa, mais uma, de criar clivagens com a China.
Tratados como peões de um jogo que não é o seu, os países do «Sul Global» são convidados para a mesa do G7 na vã tentativa de travar o que já não tem retorno: a construção de uma nova ordem internacional sem a hegemonia dos EUA.
Enquanto a velha ordem morre e a nova não nasce ainda, parafraseando Gramsci, surge uma grande variedade de sintomas mórbidos. Já não dá para disfarçar.