Bolor colonialista

Filipe Diniz

Um (infelizmente) trivial artigo (J. Negócios, 14.02.2023), como tantos outros. Parte de uma prosa subscrita por um ex-funcionário das fundações George Soros e um membro do Hudson Institute, um think tank do imperialismo EUA. «Não viram com bons olhos o recente empréstimo de 250 milhões de dólares da China a Angola destinado a desenvolver a banda larga». Como Angola «ambiciona receber Joe Biden no país», e a secretária de Estado do Tesouro, Janet Yellen, a «honrou com uma visita este ano», «os EUA querem que Angola se separe mais nitidamente da China, considerando o nível do actual relacionamento como um empecilho à aproximação entre os dois países.» Arrogância neocolonial em todo o seu repugnante esplendor.

Coincidiu com a inauguração da remodelada «Praça do Império» em Lisboa. Legado da Exposição do Mundo Português de 1940 (que incluiu uma Secção Colonial), assim deveria ser preservada, como memória e testemunho. A remodelação acrescentou-lhe bafio.

Nos anos 60 tinham sido instalados brasões de capitais de distrito talhados em buxo, incluindo das colónias. Agora foram reproduzidos no pavimento, em mosaico de pedra, identificados como «capitais de distrito de Portugal e antigas províncias ultramarinas». Moedas e Marcelo podem achar bem. Mas uma coisa é refazer (ou não) algo datado de 1960. Outra coisa é fazê-lo em 2023. E ainda utilizar o mesmo léxico com que o colonialismo salazarista tentou legitimar-se perante o ímpeto do movimento nacional-libertador posterior ao final da Segunda Guerra Mundial.

Reacionarismo e bolorenta nostalgia do colonialismo que a coincidência entre o artigo e esta remodelação ilustram. O futuro pode ser incerto, mas há coisas que não voltam. O tempo em que os colonizados eram «honrados» com a visita dos colonizadores já passou, e o melhor é habituarem-se a isso.




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