Amílcar Cabral, um precioso legado para uma luta que continua
Os próximos dois anos constituirão um oportuno e importante momento para assinalar diversas datas significativas da vida e luta de Amílcar Cabral, nomeadamente a do seu centenário, em 12 de Setembro de 2024.
Amílcar Cabral foi assassinado há 50 anos
Amílcar Cabral é um dos principais dirigentes da luta dos povos africanos contra o colonialismo e figura ímpar da luta de libertação nacional dos povos da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Eminente patriota e internacionalista, fundador e dirigente do PAIGC, partido do qual foi Secretário-geral até ao seu assassinato por agentes a soldo do colonialismo português, a 20 de Janeiro de 1973, [o legado de Amílcar Cabral constitui um valioso contributo para a luta dos povos pela liberdade, pela soberania e a independência nacional, pelo progresso social].
Amílcar Cabral, tal como outros dirigentes dos movimentos de libertação nacional e do PCP, contribuiu com o seu pensamento, acção e luta para unir os povos africanos e o povo português na luta comum contra o fascismo em Portugal e pela libertação dos povos africanos da exploração e opressão do colonialismo português. Uma luta comum na qual os movimentos de libertação nacional e o PCP forjaram fortes laços de amizade e cooperação, que se prolongam até aos dias de hoje.
Num momento em que se aproxima o 50.º aniversário do 25 de Abril de 1974, o PCP tenciona organizar e animar a realização de iniciativas que evoquem a luta dos povos irmãos das ex-colónias portuguesas e a vida e obra de Amílcar Cabral e de outras grandes figuras da luta de libertação nacional dos povos africanos.
Neste sentido, o PCP realizará uma sessão evocativa de Amílcar Cabral quando passam 50 anos sobre o seu assassinato, no próximo dia 19 de Janeiro, às 18h00, na Casa do Alentejo, em Lisboa, na qual participará Paulo Raimundo, Secretário-geral do PCP.
Uma simbólica, mas imprescindível evocação e homenagem à luta de Amílcar Cabral e dos povos africanos, para a qual o PCP convida todos quantos queiram estar presentes.
Revolucionário, patriota, internacionalista
Organizador, com outros patriotas, do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC, em meados dos anos 50 do século XX, em Bissau, e seu principal dirigente entre 1956 e 1973, Amílcar Cabral foi a mais proeminente figura da luta de libertação nacional dos povos guineense e cabo-verdiano. Fundador da nação guineense e da nação cabo-verdiana, foi um grande pensador e dirigente revolucionário da luta emancipadora em África e um amigo verdadeiro do povo português.
Filho de pai e mãe cabo-verdianos, Amílcar Cabral nasceu a 12 de Setembro de 1924 em Bafatá, na actual Guiné-Bissau. Tinha oito anos quando a família regressa à ilha de Santiago, em Cabo Verde. Completa a instrução primária e, em 1937, entra no liceu, em São Vicente. Aluno brilhante, promove iniciativas culturais, escreve poesia, faz desporto. Em 1944 termina o ensino liceal e, no ano seguinte, com uma bolsa de estudo, vem para Portugal estudar Agronomia. Em Lisboa, convive com antifascistas portugueses e patriotas africanos, envolve-se nas acções do Movimento de Unidade Democrática Juvenil, de oposição ao regime fascista, manifesta-se pela paz e contra a formação da NATO, participa na direcção da Casa dos Estudantes do Império (CEI).
Amílcar Cabral termina a licenciatura em 1950, é um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos, estagia como agrónomo e, em 1952, vai trabalhar na então Guiné portuguesa, o que lhe permite conhecer melhor a sua pátria. Em 1954, em Bissau, forma um grupo desportivo mas a associação é proibida e o governo colonial força-o a abandonar o território. Nos anos seguintes, trabalha em Portugal e Angola. Em Setembro de 1956 passa pela capital guineense e, com mais patriotas, funda o PAIGC.
Amadurece as ideias revolucionárias, planeia a luta de libertação nacional e, em 1960, deixa Lisboa. Com o apoio da República da Guiné, instala em Conakri a direcção do PAIGC.
Denuncia ao mundo a situação nas colónias portuguesas, prepara quadros políticos e militares, envia ao governo português uma proposta de negociações – ignorada pelo fascismo –, está na criação, em 1961, da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), alarga na Guiné-Bissau e em Cabo Verde a mobilização popular para a luta pela independência, pugna pela unidade africana e das forças progressistas mundiais.
Perante a intransigência do fascismo colonialista português, o PAIGC lança em Janeiro de 1963 a luta armada no sul da Guiné-Bissau, a qual se expande nos anos seguintes, libertando da dominação colonial zonas do território. Em Angola, o MPLA desencadeara a luta armada em 1961 e, em Moçambique, a FRELIMO proclamará a insurreição armada geral em 1964.
Apesar de condenado, o fascismo português persiste na guerra colonial e nos crimes contra os povos africanos – massacra populações, fomenta o racismo e o tribalismo, paga a traidores. Em 1969 assassina Eduardo Mondlane, presidente da FRELIMO; em 1970, ataca a República da Guiné, numa operação que visa liquidar a direcção do PAIGC; a 20 de Janeiro de 1973, em Conacri, assassina Amílcar Cabral.
Com o vil assassinato, o fascismo colonialista não travou a roda da História: o PAIGC intensifica a acção em todas as frentes, reúne em Julho o II Congresso, convoca para o Boé libertado a Assembleia Nacional Popular e, a 24 de Setembro de 1973, proclama o Estado da Guiné-Bissau, logo reconhecido pelas Nações Unidas.
Meses depois, a 25 de Abril de 1974, em Portugal, o levantamento militar do MFA (Movimento das Forças Armadas), logo seguido por um levantamento popular, desencadeia a Revolução de Abril. A 10 de Setembro, Portugal reconhece a República da Guiné-Bissau. Em 1975, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola proclamam a sua independência.