Desigualdade no mundo, da riqueza ao CO2

Filipe Diniz

O mais recente Relatório da Desigualdade Mundial (World Inequality Report, https://wir2022.wid.world/) tem indicadores notáveis. Uns referem-se a traços já conhecidos – vários dos quais em aceleração – outros são novidade:

- «Os 10% mais ricos da população global apropriam-se de 52% do rendimento global, à metade mais pobre da população cabe 8,5% desse rendimento»;

- «A metade mais pobre da população possui 2% da riqueza total, os 10% mais ricos possuem 78% dessa riqueza. Cada um dos 10% mais ricos possui 190 vezes a riqueza que possui cada indivíduo adulto dos 50% mais pobres»;

- «Enquanto nas duas últimas décadas se reduziu a desigualdade entre os 10% de países mais ricos e os 50% de países mais pobres, as desigualdades no interior de cada país aumentaram significativamente nesse período, quase duplicando»;

- «As desigualdades globais parecem hoje ser tão grandes como o eram no apogeu do imperialismo ocidental no início do séc. XX. A parcela do rendimento que hoje cabe à metade mais pobre da população mundial é cerca de metade da que se verificava em 1820».

E o relatório adianta uma muito importante questão nova: que as desigualdades globais em termos de rendimentos e riqueza «estão estreitamente ligadas a desigualdades ecológicas» e a desigualdades na emissão de CO2: «cada humano emite em média 6,6 toneladas de CO2 per capita anualmente. Dados recentes revelam que os 10% do topo são responsáveis por 50% do total das emissões, enquanto os 50% de baixo produzem 12%». Elucidativo.

Abrem-se assim mais horizontes de análise às sociedades da desigualdade, à extrema e acelerada distorção que operam em todas as esferas da vida. O caminho que estes dados apontam é claro: ou as soluções são globais e vão à raiz, ou não serão verdadeiramente soluções.




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